sexta-feira, 11 de março de 2011

BERTOLT BRECHT E A INDÚSTRIA CULTURAL



Por Alexandre Figueiredo

Numa época de anti-intelectualismo, onde internautas "donos da verdade" se julgam "inteligentes" por nada, usando apenas todo os recursos argumentativos que possuem para desqualificar as ideias mais coerentes, os mestres são simplesmente ignorados, desprezados.

Para eles, a vivência concreta é inútil, a pesquisa de livros é desprezível, a lição dos mestres é antiquada, a voz da prudência é insuportável. Fazem o quanto podem para nos convencer: quando dá para argumentar, se servem de "motivações sociais", de pretextos pseudo-intelectuais. Quando as alegações se esgotam, eles partem para xingações e desaforos.

Até para justificar a aversão à leitura de livros - que, em muitos casos, é o único meio da gente conhecer a lição dos grandes mestres, há muito ausentes da vida terrena - , esses reacionários de lan house se servem de pretextos: dizem que aprendem pela "escola da vida". Como se ir a boate encher a cara e fazer pesquisa sociológica fossem a mesma coisa. Não são.

Por isso, surdos e cegos, mas falantes o suficiente para dizer o que não devem, os reacionários querem impor uma sabedoria que não existe, num claro niilismo intelectual que tenta ser mais intelectual do que os intelectuais. É a estupidez que tenta se impor acima de qualquer sensatez.

Mas Bertolt Brecht (1898-1956), célebre poeta e dramaturgo alemão, além de um dos grandes autores do teatro moderno, criticava a alienação política e as relações de poder do capitalismo. Também foi um dos críticos do nazismo, que o fez viver fora da Alemanha.

Aqui mostramos um texto do livro Teatro Dialético, em que o autor dá seu parecer sobre a indústria cultural que compromete a produção social de valores morais e de conhecimento. Vale reproduzir o trecho, citado por Nelson Werneck Sodré em Síntese de História da Cultura Brasileira (Civilização Brasileira, 1979).

A tese de Brecht, embora fale de uma outra época e de outros países, pode ser usada para nossa reflexão a respeito da indústria cultural no Brasil, que se responsabiliza por essa pseudo-cultura popular ainda vista com deslumbramento por parte da intelectualidade pós-caetânica. Eis o texto, cuja separação por parágrafos foi feita por mim, para não cansar a leitura:

"As grandes engrenagens, como a ópera, o teatro, a imprensa etc, impõem suas concepções de maneira incógnita. Há muito tempo que se contentam de utilizar, como alimento do agrupamento de consumidores, o trabalho dos intelectuais que ainda tomam parte na distribuição dos lucros, que pertencem de certo modo às classes dirigentes, embora sejam, socialmente, já proletarizados.

Dito de outra forma, já há muito tempo que as grandes engrenagens orientam criação artística segundo seus próprios critérios. E, no entanto, entre os intelectuais persiste ainda a ilusão de que todo o comércio das grandes engrenagens não pretende mais que a valorização do seu trabalho, e que, longe de exercer influência, este fenômeno, julgado secundário, permite que o seu trabalho é que a exerça.

Esta falha de visão dos compositores, escritores e críticos tem enormes consequências, às quais se presta, geralmente, muito pouca atenção. Convencidos de possuir o que realmente os possui, defendem uma engrenagem que não controlam mais; um aparelho que não existe mais, como acreditam, a serviço dos criadores, mas que, pelo contrário, voltou-se contra eles e, portanto, contra sua própria criação (na medida em que isto apresenta tendências específicas e novas, são conformes ou mesmo opostas à engrenagem).

O trabalho dos criadores não é mais do que um trabalho de fornecedores, e assiste-se ao nascimento de uma noção de valor cujo fundamento é a capacidade da exploração comercial. (...) O vício reside no fato das engrenagens não pertencerem à comunidade: os meios de produção não são ainda a propriedade daqueles que produzem, de modo que o trabalho tem a caraterística de verdadeira mercadoria, submetida às leis do mercado - impossível de ser fabricada sem os meios de produção (as engrenagens)".


Qualquer semelhança entre as mercantis "engrenagens" citadas por Bertolt Brecht e as "aparelhagens" do tecnobrega, por exemplo, não é mera coincidência. Mas aqui ainda tentam dizer que a indústria cultural não existe ou já morreu. Lamentável.

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