quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

TEM PAÇOCA NA PANELA DA CRÍTICA



Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, o crítico Régis Tadeu, ao enfrentar a arrogante funqueira Tati Quebra-Barraco, citou o esquema de coleguismo corporativista que envolve a crítica musical. "A coisa que a gente mais vê no meio artístico hoje são as pessoas se elogiando umas às outras, com medo de falar o que realmente pensam, fica aquele pensamento assim: 'Ah, eu vou elogiar o seu disco porque aí, quando eu lançar o meu, você vai elogiar também'", disse.

Poucas pessoas percebem isso e leem suplementos culturais ou sítios sobre cultura que só servem para reafirmar os tais "sucessos do momento", a serviço de interesses da mídia, da indústria fonográfica, dos empresários do entretenimento.

A existência de "panelinhas" na crítica musical tornou-se um problema que fez comprometer várias revistas musicais no país. A Bizz, um dos principais veículos dos anos 80, apesar de ligado a uma editora ultraconservadora, a Abril, sucumbiu devido à decadência editorial do final dos anos 80, se agravando depois de 1991.

O problema da crítica se dá quando a missão de divulgação de um artista sucumbe ao esquema corrupto do jabaculê, do atrelamento à indústria fonográfica, à grande mídia, e isso faz com que a análise artística, a avaliação, ainda que crítica, de um novo nome da música, do cinema, das artes plásticas, teatro, TV etc, torna-se comprometida pela pura propaganda.

Recentemente, a "panelinha" da crítica musical se dá em outro contexto. Depois que houve uma fase em que a crítica musical praticamente se monopolizou em quatro profissionais (Tom Leão, Carlos Albuquerque, Álvaro Pereira Júnior e Lúcio Ribeiro), que deram a impressão de que a música contemporânea se limitava puramente ao techno e hip hop, além do rock das linhas grunge ou poser, surgiu outra que preferiu reafirmar o brega-popularesco como uma suposta modernização da MPB.

É o mesmo brega-popularesco cujo sucesso se alimentou pela prática de jabaculê nas rádios, que todos os seus "artistas" faziam alegremente, e hoje é vendido como uma "música brasileira moderna (sic)" supostamente "vítima de preconceito" e em busca de um "lugar ao sol" na MPB. Algo que foi até parodiado pelo humorista Falcão (que satiriza os ídolos cafonas), no título de um de seus discos, A Um Passo da MPB.

Talvez Álvaro Pereira Júnior associe a nova geração de críticos e intelectuais de establishment caetânico. Álvaro é um crítico musical de muitos senões. Acha que música de qualidade só deve ocorrer na Grã-Bretanha e nos EUA, enquanto que o Brasil só pode ter axé-music e sambrega, as duas tendências defendidas pelo colunista do Folhateen e repórter do Fantástico.

A atual geração de críticos, dos quais se destacam Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches, é a mais nova expressão desse esquema de coleguismo e jabaculê.

É uma geração de críticos que é mercada pelo pedantismo, não pela incapacidade de entender a história cultural brasileira como um todo, mas pela utopia de defender a mediocridade cultural dominante, expressão de um comercialismo que vai contra a verdadeira natureza da cultura popular, como se fosse "o futuro da cultura brasileira".

O pedantismo se dá porque os críticos e intelectuais querem forjar a sabedoria que não possuem. Posam de mestres, quando não passam de propagandistas, de marqueteiros do entretenimento midiático.

Prometem fazer uma crítica musical "reflexiva" e "crítica", mas não fazem senão criar um discurso legitimador de modismos e tendências comerciais, sob o pretexto de que a hegemonia do brega-popularesco faz seus ídolos e referenciais serem apreciados nos vários cantos das comunidades populares.

A atual geração de críticos acaba formando mais uma "panelinha" nessa compreensão paternalista da "cultura popular", mais próxima do consumismo passivo de uma plateia identificada com a "cultura de massa" do que com a verdadeira cultura popular, que não produz "sucessos", mas conhecimento, mobilidade social e compreensão real do meio em que se vive.

Mascarar o respaldo ao comercialismo cultural dominante, seja na música popularesca, seja nas "musas", e nos tipos "pitorescos" do grotesco, com um discurso "socializante" não faz a crítica atual estar em melhor situação do que os críticos anteriores.

Pelo contrário, as contradições desse discurso se mostram um dia, quando o discurso intelectualizado que mascara a propaganda do brega-popularesco não oferecer respostas suficientes para uma real compreensão da cultura popular.

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