sábado, 19 de fevereiro de 2011

PROPRIEDADE CRUZADA PERMITIU "ASSASSINATO" DO RÁDIO AM



Por Alexandre Figueiredo

Venício A. de Lima, autor do brilhante livro Liberdade de Expressão X Liberdade de Imprensa, nos fala do problema da "propriedade cruzada", que é a ampliação de propriedade dos grandes grupos de mídia em várias modalidades dos meios de comunicação, como TVs, rádios, jornais, revistas e até portais de Internet.

Em outras palavras, é quando um grupo de comunicação passa a ter não somente uma quantidade abusiva de emissoras de TV e rádio e jornais sob seu controle no território nacional, mas também participação necessariamente em todas as modalidades da mídia. Ou seja, a grande corporação midiática está presente em TV, rádio, jornal, Internet, e estabelece uma rede de transmissão ou distribuição que envolve praticamente todo o território nacional, num alcance e projeção dominantes.

Venício, assim como Fábio Konder Comparato, Laurindo Leal Filho, Eduardo Guimarães, Altamiro Borges e outros, já escreveram textos sobre o perigo da propriedade cruzada, que se mostra a afirmação do poder da mídia dominante, em detrimento à real democratização da Comunicação. E discutem meios de minimizar os efeitos nocivos, como a defesa de leis e órgãos que regulassem a comunicação no Brasil, existindo até uma conferência anual para debater problemas e soluções, a Confecom.

Esse empenho é ironizado e ridicularizado pela grande mídia, evidentemente. Um colunista de O Estado de São Paulo chamou as discussões sobre propriedade cruzada de "obsoletas". Os porta-vozes da imprensa dominante insistem em dizer que as propostas de regulamentação da mídia são "perigosas ameaças à liberdade de imprensa no país".

Em esclarecimentos precisos, Venício A. de Lima, no seu livro, cita que a regulamentação da mídia é algo que acontece em muitas democracias do Primeiro Mundo e que não se trata de uma ameaça à liberdade de imprensa, mas sim um meio, democrático e constitucional, para evitar que abusos cometidos pelos veículos da grande mídia, seus profissionais e donos, sejam cometidos, sejam eles na veiculação de notícias, sejam no patrimônio de seus empresários.

Aqui vamos falar de um dos danos causados por essa concentração de poder, que fez com que o rádio AM, frequência original do rádio mundial, fosse sucateado e, em certos casos, "assassinado" pelos barões da grande mídia em países como Irlanda e Holanda.

A "AEMIZAÇÃO" DAS FMS

Até certo tempo atrás, havia uma diferença enorme entre o perfil de programação das FMs quanto às AMs. As primeiras estavam voltadas ao âmbito cultural, as segundas ao âmbito noticioso e prestador de serviços. Não que FMs não transmitam informação nem prestação de serviços, mas eles não se tornam o carro-chefe de sua programação.

Mas o próprio fato do rádio FM ser entregue, desde o período do regime militar - mais precisamente a partir de 1969 - , a empresários incompetentes, que passaram a fazer de suas emissoras FM uma versão piorada de rádio AM, fez a Amplitude Modulada ser tomada de uma concorrência desleal, alienígena, que pouco a pouco foi enfraquecendo emissoras que estabeleciam um compromisso mais honesto com a comunicação radiofônica e a prestação de serviços.

Dessa forma, vieram "fenômenos" como o opinionismo e o denuncismo, sob o rótulo de "prestação de serviço", cujos "comunicadores", dotados de um populismo conservador e pedante, passaram a se autoproclamar "representantes do povo", e, autointitulados "jornalistas" (quando vários deles são apenas subalfabetizados), falam sobre o que não sabem e, quando contrariados, são capazes de xingar no ar o missivista que discordar do que eles falam.

Até o início deste século, o radialismo do interior do país, ou mesmo de capitais como no Norte, Nordeste e Centro-Oeste - mas, em certos casos, aparecia até em Florianópolis ou no interior de São Paulo, Paraná e Minas Gerais - , era marcado por esse radialismo grosseiro, antiprofissional, dominador "no peito e na marra", que viciou os ouvidos do povo quanto a essa forma caricata de se fazer "rádio AM" nas ondas de FM.

SIMULACRO DE JORNALISMO

Essa fase da Aemização das FMs se dava pelo caráter politiqueiro das concessões de Frequência Modulada, e, aparentemente, parece insignificante a participação desses "coronéis" radiofônicos na ciranda da dominação midiática.

Mas, no âmbito estadual, essa mídia regional, aparentemente "pequena", se multiplica em "pequenas rádios" em cidades do interior, além de serviços de autofalantes ou mesmo de rádios comunitárias controladas por grupos políticos.

É um poder que, no plano nacional, parece ínfimo e inexpressivo, mas que faz muita diferença, negativamente, nas regiões onde esse poder é exercido, uma vez que seu controle sobre as populações subordinadas chega a ser absoluto e cruel.

Depois, porém, veio a opção tecnocrática de se fazer "rádio AM" em FM de forma mais profissional, através das rádios noticiosas. Perdendo o trem dos anos 90 - talvez em 1990 as rádios FM all news tivessem algum lugar relativo ao Sol, pelo menos além das badalações em colunas de rádio, das bajulações de uns poucos radiófilos "donos da verdade" e da audiência de uns poucos cidadãos de classe média ou desinformados de classes mais baixas - , as FMs noticiosas no entanto se impuseram como mercado na marra.

E isso fez com que se multiplicassem, nas rádios interioranas, verdadeiros arremedos de redações jornalísticas no rádio. Em Salvador, Mário Kertèsz, o "Maluf-Berlusconi com dendê", foi fazer politicagem fora da política e se passando por um pseudo-radiojornalista cheio de clichês, num arremedo caricato, forçado, estereotipado e, acima de tudo, tendencioso, que se alimenta às custas de repórteres iniciantes que mal sabem dos bastidores da mídia golpista que está por trás da Rádio Metrópole, que vende na capital baiana a falsa imagem de "modernidade" esboçada pela Folha de São Paulo nos anos 80 e 90.

Badalada por dondocas, sindicalistas pelegos e "cartolas" do futebol, além de políticos fisiológicos e latifundiários baianos, a Rádio Metrópole puxou a onda dos "políticos que viram jornalistas", como Marcos Medrado e Antônio Imbassahy, que, como parlamentares, estão a defender, com o claro apoio de Kertèsz, os interesses latifundiários regidos pela maestrina Kátia Abreu.

Se o jornalismo "mais profissional possível", como a CBN e Band News, já não tem aquela tão sonhada reputação nobre, quase divina, de seus repórteres, homens-âncoras e comentaristas, imagine então o "coronelismo" radiojornaliístico que apenas reproduz, de forma caricata e forçada, os clichês das originais?

DUPLA TRANSMISSÃO AM/FM INFLOU FORTUNAS

Quanto ao "assassinato" do rádio AM, que no Brasil ainda não se consumou, mas é uma forte ameaça, o que está em jogo é o desinteresse dos grandes grupos midiáticos pela Amplitude Modulada.

Dessa forma, criam um embuste chamado "rádios AM + FM", objeto de bajulação de radiófilos pelegos (da mesma forma que a padronização visual dos ônibus cariocas é bajulada por busólogos pelegos), como se o sinal de "mais", indicando cinicamente uma conotação "positiva" e "crescente", para forjar tolerância com o rádio AM, enquanto o mata aos poucos.

Afinal, a "livre escolha" da dupla transmissão AM/FM acaba, pelas pressões publicitárias, tecnocráticas e pelas pregações midiáticas, favorecendo mesmo a opção em FM. Vai um Roberto Nonato, da CBN, fazer palestra para universitários riquinhos e esculhambar o rádio AM, e, pronto. Se a CBN FM paulista não consegue uns pontos a mais em audiência, a CBN AM perde os seus e vira pretexto para os técnicos "piorarem" o som da AM para espantar mais ouvintes.

A liquidação do rádio AM tem por fim promover o esquecimento histórico do rádio, dificultando a compreensão crítica de sua História, além de eliminar do mercado as concorrentes mais fracas. Se uma entidade social possui uma emissora AM, será a pior prejudicada.

Por isso a morte anunciada do rádio AM deixará uma grande lacuna para seus adeptos. O mercado só será o dos "mais fortes". A História do rádio só será narrada pelo ponto de vista dos "mais fortes". Será mais uma vitória dos grandes senhores da mídia brasileira contra a sociedade. E mais uma vitória da propriedade cruzada que age contra a verdadeira cidadania e contra a mais autêntica democracia.

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