quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

PEDRO ALEXANDRE SANCHES VERSUS IMPRENSA DE ESQUERDA


ELE AINDA NÃO EXPLICOU PORQUE AINDA DEFENDE O MÉTODO "FOLHA" DE ENTENDER A CULTURA POPULAR.

Por Alexandre Figueiredo

Folheando os principais veículos da imprensa esquerdista brasileira, a Caros Amigos, a Revista Fórum e a Carta Capital, não é difícil enxergar um grande abismo que existe entre as lúcidas análises de âmbito sócio-político e as pregações culturais do colunista-paçoca Pedro Alexandre Sanches, que desceu no pátio da imprensa esquerdista de pára-quedas.

Pedro Alexandre Sanches, muito antes de ser o astro da temporada, entre os que fazem campanha de defesa da mediocridade musical brasileira, havia trabalhado em vários veículos da mídia direitista, como a Ilustrada da Folha de São Paulo, a revista Época, das Organizações Globo, e a revista Bravo, do Grupo Abril.

A Folha de São Paulo foi o veículo onde Sanches mais trabalhou. Foi ali que ele passou a ser reconhecido e famoso. A mesma Folha que fala em "ditabranda" foi a escola de Sanches, e sua visão de cultura popular segue exatamente o mesmo padrão adotado por Otávio Frias Filho e pela intelectualidade neoliberal originária da USP, que no âmbito político-partidário é identificada pelo PSDB.

Sanches também é herdeiro de uma retórica que foi lançada e defendida energicamente por Caetano Veloso, que na prática converteu a ideia de "geléia geral" - que, nos primórdios do Tropicalismo, seria uma forma de debater as desigualdades sociais através da cultura e o confronto de expressões legítimas com as de gosto duvidoso - numa gororoba até hoje prevalecente.

Vale lembrar que o "apolítico" Caetano, que só o "abominável" José Ramos Tinhorão acusava de apoiar o regime militar (ou, pelo menos, não se sentir incomodado com o regime), converteu-se num demotucano declarado à maneira dele: sem assumir muito no discurso, mas afirmando sua postura na prática.

Então, o que faz Pedro Alexandre Sanches na imprensa de esquerda? Como folhas de papel e arquivos htm podem ser desperdiçados por uma abordagem digna de um Francis Fukuyama, num evidente anúncio de "fim da História" da MPB, praticamente convidando-nos a consumir o circo neoliberal dos "tchibirabirons", "créus", "tecnobregas" e outras bobagens?

O contraste ideológico é bem claro, não é preciso pensar muito para perceber.

De um lado, vemos a imprensa política de esquerda, lucidamente, falar sobre o sofrimento dos povos andinos, das multidões palestinas, da população egípcia, além de análises coerentes sobre as atitudes de personalidades quaisquer que estejam comprometidas com o imperialismo, além de outras que, em contrapartida, se empenham pelos movimentos sociais.

De outro, vemos o mundo dos sonhos de Pedro Alexandre Sanches, que, tal qual um "sacerdote pop", se aproveita dos conhecimentos dos segredos da MPB para defender a mediocrização cultural presente. Ele manipula a opinião pública como se fosse um colonista do PiG falando sobre cultura popular.

Sanches chega a ser forçado e falso nas suas referências esquerdistas. Em seus textos, ele cita expressões como "reforma agrária" e "Che Guevara" apenas para enfeitar. Ele nunca demonstrou ter uma postura verdadeiramente esquerdista, pelo contrário, tornou-se um jornalista de direita dos mais enrustidos. E que só "falou mal" da Globo, Folha e Veja por pura encenação. Não poderia esculhambar seus mestres Frias, Marinho e Civita pra valer.

PERTO DE CHOMSKY E ECO, SANCHES PARECE LUCIANO HUCK

Num clima de anti-intelectualismo dominante no Brasil, certamente ninguém está aí para analisar contradições nem incoerências. Daí ser fácil acreditar em ninharias, que o Papai Noel vai entrar pela chaminé de sunga dançando o "tchibirabirom" e ficar feliz achando que a periferia estaria realizada com tais bobagens. Até que um novo deslizamento de terras ocorresse em mais uma tempestade de verão, para devolver a plateia à realidade.

Intelectuais do mais elevado conceito como Noam Chomsky e Umberto Eco, críticos da mediocrização cultural mundial, não parecem ser devidamente compreendidos no Brasil. Se não fosse o sucesso de O Nome da Rosa e Baudolino, Eco seria apenas um nome apreciado por acadêmicos. Chomsky, então, nem se fala.

Mas a nação de focas-de-circo aplaude sem contestar o sucesso de Pedro Alexandre Sanches. Vários colocam o blog dele na lista de linques, sem se dar conta da armadilha. Se forem mais espertos, teriam se dado conta de terem levado gato por lebre.

Prestando atenção nos questionamentos que muitos fazem ao poderio da mídia - Venício A. de Lima e Altamiro Borges são grandes exemplos disso - , a reflexão profunda a respeito do histórico da mídia conservadora, de suas relações de poder e seu processo de controle social das multidões, inevitavelmente chega ao âmbito do entretenimento.

É uma grande inverdade, portanto, acreditar que as relações de poder na grande mídia se limitem tão somente ao âmbito político, ao jornalístico ou, quando muito, à ação de comediantes e atores, enquanto no âmbito musical e comportamental a classe dominada, mesmo dentro de valores identificáveis com os das classes dominantes, está fora desse processo todo.

Pelo contrário, vemos que é justamente aqui que o processo se torna bem mais engenhoso. Se observarmos o histórico do "funk carioca", por exemplo, vemos que ele sempre se alimentou das relações de poder da grande mídia, e o ritmo, por mais que se autoproclame "voltado para os movimentos sociais", na prática sempre agiu em contrário, constituindo, o próprio "funk", num processo até mais cruel do que controle social das populações pobres. E bem mais cruel na medida em que tenta se passar pelo oposto do que é, a todo custo.

Diante de tais questões, ainda ignoradas por muitos, é bem certo que, se vermos os fenômenos de mídia brasileiros fora da ótica provinciana e confusa, constataremos, com alarmante segurança, que perto do que Noam Chomsky, Umberto Eco, Ignacio Ramonet e outros falam sobre cultura, Pedro Alexandre Sanches mais parece um Luciano Huck metido a entendedor cultural.

Pouco importa, aqui, se Pedro Alexandre Sanches entende do passado da MPB e coisa e tal. O próprio Francis Fukuyama se empenhou em estudar os movimentos sociais da humanidade. O próprio Otávio Frias Filho se acha um intelectual, e também teve que se cercar de uma base teórica de leitura para tentar justificar sua reputação como barão da grande mídia.

Portanto, sobre os "méritos" de Pedro Sanches, perguntamos: e daí?

Saber de cultura popular mas empenhar-se para defender um processo de diluição, de deturpação, de estereotipação e domesticação das classes pobres através de produtos ditos "culturais", não justifica mérito algum.

Pelo contrário, é exatamente esse processo que fez os sacerdotes da Idade Média (por sinal época muito pesquisada por Umberto Eco) aumentarem seu poder que os fez, sem que viva alma os questionasse com força, para controlar o inconsciente coletivo da "plebe".

Mesmo dentro do país, até mesmo um Ruy Castro configurado numa imprensa mais conservadora, mas com uma visão bem mais justa, generosa e consistente sobre cultura popular, dá um banho de coerência no festejado Sanches que coleciona linques de atalho em blogues progressistas mais frágeis.

Ignorar isso faz com que o povo pobre fique marginalizado no seu processo de emancipação social. A "emancipação" atribuída ao "funk", ao tecnobrega, forró-brega e afins, na verdade, nunca passaram de "brincadeiras de criança" nos quintais da mídia oligárquica.

Perto de manifestações populares genuínas, como as dos Andes, do Egito, da Tunísia, a "movimentação social" em torno do "tchibirabirom" do Parangolé é um atestado de retardamento mental. Na boa, isso não é um julgamento preconceituoso. É fato. Deixemos de ser politicamente corretos.

Enquanto não analisarmos as relações de poder existentes dentro do entretenimento dito "popular", o povo pobre continuará, mesmo dentro de um cenário político mais progressista, sempre esperando que os progressos sociais venham de cima.

É salutar que haja jornalistas, políticos, sindicalistas e outros militantes que atuem realmente a favor das classes populares, mas isso ainda é insuficiente, enquanto muitos atores sociais ainda estão fora do processo.

Por isso é muito mais confortável para certos setores frágeis da opinião pública a "paz sem voz" do povo pobre, consumindo passivamente seus sucessos "populares", "produzindo" seus "novos" ritmos a partir de referenciais ditados pelos barões da mídia golpista.

O latifúndio inventa, ainda que indiretamente, o brega, o tecnobrega, a axé-music, o "sertanejo", o "funk carioca", o tecnobrega, o "forró eletrônico" e tantos outros ritmos associados à domesticação social e à mediocrização cultural. As grandes oligarquias assinam embaixo, mas escondem suas assinaturas e jogam seus porta-vozes para a mídia esquerdista.

E que, num país de pouca leitura, permite que Pedro Alexandre Sanches e seu mundo de sonho e fantasia atraiam um rebanho de fiéis, que não se dão conta para onde estão indo. Talvez venham a dançar o tecnobrega no fundo do poço, surpreendidos com tantos tucanos em volta.

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