sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A NOVA DIREITA SE ARTICULA



Por Alexandre Figueiredo

Passada a ressaca da campanha petista e tendo se encerrado a Era Lula, não existe mais desculpa, para setores conservadores da nossa sociedade, em vestir a capa da "esquerda" para acobertar a defesa de valores retrógrados que favorecem privilégios de elites detentoras de poder.

Durante toda a Era Lula, o fenômeno dos pseudo-esquerdistas tornou-se notório, seja através de políticos de partidos "neutros" (PMDB, PP, PR, ou mesmo PTB, PDT e PSB), seja pelo respaldo à mídia "neutra" (TV Record), ou pela defesa de ideias que ainda não são oficialmente consideradas anti-populares, como o projeto de transporte coletivo de Jaime Lerner.

A brincadeira de "ser de esquerda" permitia que pessoas que variavam de um Fernando Collor a Eugênio Raggi, de Paulo Maluf a Valesca Popozuda, de José Sarney a Ivete Sangalo, se aproveitassem do carisma do então presidente Lula, todos teoricamente em defesa dos movimentos sociais, enquanto na prática preferiam que o Brasil ainda fosse governado por um demotucano.

Mas hoje a direita começa a mostrar a cara, aos poucos tirando sua máscara. Um Eugênio Raggi, professor mineiro que, no plano ideológico, mais parece um "marxista" da linha Cabo Anselmo, até ensaiou isso atacando o PSOL, embora fizesse bajulações forçadas à política petista, talvez por motivos corporativistas.

Mas, "inimigo" do PiG, interagia completamente com o portal Globo Esporte.Com, o que, a princípio, nada tem a ver, mas a certa altura Raggi já elogiava a CBN no Twitter e "recomendava" um amigo a não falar mal do PiG, porque "não valia a pena se preocupar com algo tão desprezível". Argumento tipicamente Cabo Anselmo.

Agora a direita se manifesta além do âmbito político, econômico e jornalístico. A direita agora defende a supremacia do "funk carioca" como forma de controle social da população das favelas. A direita agora defende a "curitibanização" dos ônibus brasileiros, como aliança da máquina estatal com o poder privado do empresariado.

A direita defende a domesticação geral do povo pobre, através da mediocrização cultural, da cafonice musical, do erotismo grotesco das popozudas, gratuitamente expostas até ao público infantil, dentro de uma "liberdade" que só favorece as cifras do mercado, porque o "sexo" é uma boa mercadoria. É a mesma lógica de certos bares que permitem vender cerveja para menores de idade, porque a demanda "adere geral".

O fim gradual dos pseudo-esquerdistas se deve a vários fatores de ordem sociológica e política.

Primeiro, porque a presidenta Dilma Rousseff, embora faça um bom trabalho e dê continuidade aos avanços sociais do governo Lula, não possui o carisma que a projete para além das fileiras esquerdistas. Isso pode ser desvantajoso, mas não é.

Afinal, Dilma não tem as pressões da visibilidade do antecessor, podendo governar discretamente, sem muito alarde. Além disso, tal condição não motiva que parte dos setores conservadores da sociedade se disfarce de "progressista" para obter vantagens, ainda que sejam os aplausos de amigos. Até porque, na verdade, a pose pseudo-esquerdista era feita mais para agradar aqueles que gostavam do ex-presidente Lula.

Por isso, quem defende valores retrógrados passou a tirar a máscara. Isso se nota quando defensores da "curitibanização" dos ônibus xingam seus opositores de "socialistas fracassados". Ou quando adeptos ferrenhos do "funk carioca" chamam seus opositores de "petistas preconceituosos".

A direita começa a se manifestar no entretenimento, nas coisas mais simples do cotidiano, e isso significa que a blogosfera progressista tenha que mudar de atitude contestando não somente as manobras de âmbito político e midiático (jornalístico) da direita. Que Solange Gomes, por exemplo, joga tanto pelos valores direitistas quanto Eliane Cantanhede.

Aos poucos, essa atitude da blogosfera está mudando. Críticas ao Big Brother Brasil se tornaram comuns. A prisão de funqueiros não fez estes receberem a solidariedade de blogues progressistas, mas a reprovação. Ivete Sangalo, a cantora do morde-e-assopra (participou de campanhas pelo "Fora Lula" para depois dizer que apoia Dilma), foi criticada pelo blog Angry Brazilian, um dos mais arrojados da blogosfera esquerdista.

Fatores evidentes, como o apoio explícito das oligarquias latifundiárias para tendências musicais bregas e neo-bregas do interior do país (brega "de raiz", breganejo, forró-brega e tecnobrega), virão à tona ao debate público. Como também a influência dos setores do latifúndio também em outras tendências brega-popularescas, como o "funk carioca", o sambrega e a axé-music.

Isso porque esse entretenimento, além de ter valor artístico e cultural duvidosos, cuja alta rejeição não pode ser vista como "preconceito" - se muita gente reprova, sobretudo porque conhece esses ídolos e tendências pela TV, pelo rádio, pela vizinhança e pelo passeio nas ruas, é porque tudo isso não vale - , influi na domesticação social do povo pobre, no controle e manipulação das classes pobres pelos barões da grande mídia.

Por isso, diante da tendência mundial das manifestações sociais, como no Egito e na Tunísia, a mídia conservadora e o entretenimento brega-popularesco deixaram o quase desquite, e seus ídolos agora têm que reassumir, definitivamente, o respaldo da grande mídia, até para tentar reviver seu sucesso estrondoso durante a Era Collor e a Era FHC.

Desse modo, a nova direita se articula pelo entretenimento e pelos detalhes mais "ínfimos" do cotidiano, como o transporte coletivo. A nova direita sai das redações e dos palanques para reagir contra os movimentos sociais. Por isso cabe àqueles que defendem os movimentos sociais a ficarem de alerta.

A direita também dança o tecnobrega, o "créu" e o "tchibirabirom".

Um comentário:

  1. Só houve uma troca de posições, Alexandre. As moscas mudaram de lugar, mas a merda continua a mesma. No rebime militar, a direita tinha o Governo e a esquerda tinha o mainstream cultural. Até Chico Buarque (aquele que disse que reprova ditaduras de direita mas aprova as de esquerda) tinha espaços generosos na mídia governista da época, Globo à frente. Hoje é a esquerda que está no Governo. Dilma Rousseff tem postura de autêntica esquerdista, com todos os méritos e deméritos (entre os deméritos, os flertes com a direita fisiológica) desta posição. A mesma sinceridade de Lula, que assumiu jamais ter sido esquerdista. Alijada do poder institucional, a direita fica onde sempre esteve: o comando da grande mídia, noves fora as exceções de sempre: Record-IURD, Carta Capital, etc, e tomou o poder no mainstream cultural, com essas figuras grotescas da Música de Cabresto Brasileira. Enquanto isso, Chico Buarque tem que se virar nos 30: vendendo livros no insipiente mercado editorial nacional e vendendo seus antigos CDs a preços promocionais com distribuição da (ironia das ironias) Editora Abril.

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