quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A NOVA CLASSE MÉDIA DE HOJE E OS "NOVOS RICOS" DA ERA FHC


LOTERIAS FORAM A "FÁBRICA" DE NOVOS-RICOS DURANTE A ERA FHC.

Por Alexandre Figueiredo

Em tempos em que o Brasil popularesco, medíocre e acomodado, se desgasta, provocando uma reação de desespero daqueles que ainda acreditam em seus valores, as transformações vividas em nossa sociedade indicam, ainda que levemente, uma mudança de mentalidade dentro das classes populares.

O surgimento de uma nova classe média revela uma situação diferente daquela vista no fenômeno dos "novos ricos" da Era FHC. Enquanto os "novos ricos" apenas alteravam no âmbito material sua qualidade de vida, mantendo a mentalidade "suburbana" de sua situação anterior.

O pânico das elites conservadoras é ver que a situação hoje muda e a nova classe média vem com vontade de se livrar do padrão "popularesco" ditado pela grande mídia e a buscar conhecimentos, aprendizados e qualidade de vida no âmbito espiritual.

Nos tempos dos "novos ricos", o incômodo se limitava à feijoadas e rodízios de churrascos, feitos nos pátios dos grandes condomínios, com a trilha sonora de sambrega (o dito "pagode romântico"), "funk carioca", brega "de raiz", forró-brega etc. Mas, de resto, não interferia nos privilégios das classes mais abastadas.

Hoje os tempos começam a mudar. E refletem num público cada vez mais exigente que, ainda que seja voltado ao consumismo, começa a ser aos poucos mais seletivo e criterioso. Aos poucos as classes populares se dão conta de que não podem mais ser marionetes da grande mídia nacional ou regional.

NOVOS VALORES SÓCIO-CULTURAIS

Isso preocupa porque os tempos de faturamento fácil das oligarquias comprometidas com o entretenimento começam a se encerrar. Programas que eram sinônimo de liderança absoluta de audiência começam a sofrer quedas humilhantes, como o Domingão do Faustão e o Pânico na TV.

O pedantismo de antigos ídolos da axé-music, do "sertanejo" e do "pagode romântico" de gravar covers tendenciosas de MPB dão lugar a nomes mais expressivos da MPB, como Seu Jorge, Vanessa da Mata, Mart'nália e Diogo Nogueira (este filho do falecido sambista João Nogueira) que, aos poucos, começam a sobressair aos ídolos neo-bregas "arrumadinhos".

Até os neo-bregas, que no auge da Era FHC brincavam de "fazer MPB" em tributos aos grandes mestres produzidos pela grande mídia conservadora (sobretudo as Organizações Globo), tentaram embarcar em duetos negociados com Seu Jorge, mas não conseguiram vinculá-lo à desgastada imagem dos mesmos. E nem as participações "especiais" em eventos da MPB FM e do Viola Minha Viola da TV Cultura fizeram os neo-bregas aumentarem a reputação.

Pelo contrário, hoje Viola Minha Viola dá continuidade aos caipiras autênticos, enquanto a MPB FM começa a mostrar talentos de MPB (isso mesmo) na favela. MPB com M maiúsculo de música, de pessoas que não estão preocupadas em lotar plateias em poucos minutos nem em fazer alarde de sua miséria, mas a fazer música brasileira de qualidade, como Djavan, Milton Nascimeno e Elza Soares.

Em outros âmbitos da cultura, a nova classe média também se afasta do humorismo grotesco, do jornalismo policialesco, da mesmice dos best sellers, do erotismo forçado e exagerado das popozudas, ou mesmo da exploração caricata do povo pobre, em estereótipos piores do que os das chanchadas dos anos 40 e 50.

A PSICOLOGIA DO TERROR

Com o povo pobre se sentindo mais gente, em vez de servir de marionetes para a grande mídia golpista, é evidente que reações das elites dominantes, apavoradas com o declínio de um mercado que lhes garantia privilégios exorbitantes através do controle social das classes economicamente inferiores, venham à tona.

Como se vê nas velhas manifestações das elites conservadoras, que, como na Marcha da Família Com Deus Pela Liberdade, em São Paulo, em 1964, clamavam que a ascensão social das classes dominadas era uma "afronta à liberdade e à democracia cristã", hoje vemos os mesmos apelos de quem vê a mediocridade cultural do brega-popularesco declinar, seja no desgaste de seus ídolos, de suas musas, de seus programas e de seus valores ideológicos.

Por isso as vozes alarmistas tentam manipular o discurso. Assim como a mídia golpista fala em "liberdade de imprensa", "democracia" e "liberdade de expressão", as vozes feridas do brega-popularesco tentam creditar as transformações sociais como "fruto de manifestações de puro preconceito e inveja da cultura da periferia".

Isso porque, para as elites, o povo só "é povo" quando desempenha seu papel subordinado de consumidor de símbolos e valores do brega-popularesco, a suposta "cultura popular" da grande mídia.

Se o povo pobre se comporta feito um misto de animal doméstico e criança pequena, para as elites "este é o povo". Mas se o povo passa a criar uma cultura de verdade, se manifestar de forma espontânea, sem o controle de oligarquias, de latifundiários, de barões midiáticos, dos senhores do "funk carioca" e do tecnobrega ou de qualquer capataz eletrônico do entretenimento, as elites tentam então culpar o "preconceito" por essa verdadeira libertação do povo escravizado pela mídia.

Tínhamos que ser politicamente corretos e aceitar a manipulação sócio-cultural das classes pobres sem que seu processo seja reconhecidamente admitido. Tínhamos que acreditar que as mulheres-frutas do "funk" eram "inteligentes" e até "feministas", que o funqueiros são "ativistas sociais", faltando a gente reconhecer no Big Brother Brasil um "salutar programa educativo".

É um discurso alarmista, paranóico, desesperador. Pessoas insensíveis com a necessidade de qualidade de vida, e que historicamente estavam acostumadas e felizes com o quadro de controle sócio-cultural da grande mídia desde os temos do regime militar. Pessoas acostumadas com a letargia sócio-cultural dos governos Collor e FHC, na "paz sem voz" em que o povo pobre praticamente fazia o papel de bonecos ventríloquos da grande mídia.

Agora, as transformações sociais cada vez mais chegam e a psicologia do terror pode ocorrer na Casa Branca, em Wall Street ou nos casarões de Cairo e palacetes de Roma, como pode ocorrer também num simples quarto de um apartamento nos Jardins, na Zona Sul paulistana. As elites não querem largar o osso, e até se passam por boazinhas para querer manter seus privilégios e as desigualdades sociais dentro de um discurso que pareça "favorável" às melhorias sociais que, no fundo, essas elites repudiam com energia.

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