sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A MÍDIA GOLPISTA REGIONAL NÃO PODE SER SUBESTIMADA


O PODERIO MIDIÁTICO VAI MUITO ALÉM DOS ESCRITÓRIOS DA AVENIDA PAULISTA.

Por Alexandre Figueiredo

O poderio da grande mídia só existe entre as grandes redes? Evidentemente que não. O poderio da grande mídia, dos grupos oligárquicos, vai muito além dos simples escritórios localizados na Avenida Paulista ou em outros elegantes endereços em grandes prédios, seja em São Paulo ou, em certos casos, no Rio de Janeiro.

Mas subestimar o poderio midiático regional soa bastante perigoso e incoerente. E também pode revelar um erro de dimensão no entendimento. Afinal, a nossa grande mídia, representada pelas Organizações Globo, Grupo Folha, Grupo Abril, Grupo Estadão, Grupo Bandeirantes e outros, é considerada "midia regional" se comparada com as grandes corporações que dominam a mídia nos EUA.

Por isso não faz sentido entender a grande mídia regional como um poder menor, que só ameaça quando casos de jornalistas assassinados ou em outros crimes cometidos pelos seus envolvidos diretos e indiretos são denunciados em âmbito nacional, ou, quando muito por algum articulista ou blogueiro regional com visibilidade para fazer repercutir suas denúncias para além das fronteiras de seu Estado.

É o que, no entanto, vemos. A grande mídia regional tem seu poderio subestimado, o que, para quem vive no Sul e no Sudeste, não faz a menor diferença. Mas, vendo que no interior do país, ou mesmo em capitais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, um clima de isolamento sócio-cultural, ainda que relativo, promovido pelo ferrenho controle coronelista nestas plagas, é algo que atinge seriamente quem vive nessas regiões.

Um povo que adoece sem sentir dor, pela força dos "coronéis" da região.

Mas como furar esse bloqueio da grande mídia? Como mostrar que, nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o poderio midiático é tão nocivo quanto aquele sediado na Avenida Paulista? E como denunciar esse poder em âmbito nacional, da mesma forma que tornou-se possível denunciar o poder do Egito e da Tunísia, ditaduras "regionais" patrocinadas pelo imperialismo dos EUA?

SITUAÇÕES RISÍVEIS

A abordagem da crítica midiática, viciado no paulistocentrismo, faz com que certos momentos constrangedores sejam vistos na Internet, tanto pelo lado provinciano, quanto pelo lado nacional, na abordagem ou nas citações referentes à abordagem da grande mídia.

Em Salvador, Bahia, o caso da Rádio Metrópole - cujo dono, Mário Kertèsz, foi um político baiano marcado pela corrupção, sendo uma espécie de equivalente local ao italiano Sílvio Berlusconi - , emissora que desponta como vedete da mídia golpista regional, pelo seu alto grau de tendenciosismo e pela linha ideológica "flutuante" que, nem por isso, a faz desvinculada do poderio oligárquico midiático da Bahia, chega a ser risível.

"Comprando" por atacado a intelectualidade baiana, jogando-a junto com os dirigentes esportivos e políticos do interior, além de latifundiários, que compõem a base de apoio do astro-rei da Rádio Metrópole, Kertész faz de sua rádio o paraíso do tendenciosismo midiático, em contraponto à atual postura "asséptica" da Rede Bahia, numa polarização que, em São Paulo, corresponde, em poderio, ao "tradicional" Estadão contra a "moderna" Folha.

Nesta comparação, a Metrópole seria a "Folha de São Paulo" baiana, num suposto ecumenismo ideológico - também retórica feita pelo Projeto Folha, sobretudo nas propagandas do jornal veiculadas na televisão - e, como o periódico paulista, também enganou a esquerda local, já que o ex-prefeito de Salvador nunca iria trair suas raízes direitistas que o fizeram novo-barão da mídia soteropolitana.

Vários aspectos risíveis aparecem na Rádio Metrópole, no entanto, devido ao tendenciosismo "imparcial" e supostamente receptivo à pluralidade de visões. Uma delas foi um entrevistado, um intelectual local, fazer críticas à "grande mídia" num programa da emissora, algo tão patético quanto ir à CNN para falar mal do imperialismo dos EUA.

Outro caso foi quando o cardeal Joseph Ratzinger estava para ser escolhido o novo papa, sob o codinome Papa Bento XVI, um cronista da Rádio Metrópole, a pretexto de criticar a reportagem da Rede Globo, começou com uma retórica imitando o discurso intelectual dos teóricos da Comunicação, num tom mais "empostado", para depois baixar o nível do discurso, primeiro como um Nelson Rubens, depois como um Ratinho, já disparando ataques à reporter Ilze Scamparini, sobretudo no modo dela se vestir e no penteado que ela usa.

Aliás, pretensas críticas ao PiG, muito grotescas e exageradas, são uma forma de certos barões da mídia, assim como de qualquer outro pseudo-progressista, de tentar impressionar a opinião pública com essa falsa aversão, muitas vezes motivada por interesses meramente concorrenciais, e não por uma ruptura ideológica com o poder dominante.

Daí ser perigoso subestimar o poderio da Rádio Metrópole como representante da mídia golpista baiana, só porque é "rival" da Rede Bahia. Isso pode fazer com que os incautos sejam pegos de surpresa, quando surtos reacionários da "moderna" emissora de rádio causarem um impacto similar ou até maior ao da "moderna" imprensa da famiglia Frias.

LATIFÚNDIO CULTURAL

O que dizer, também, quanto aos grandes "coronéis" do rádio FM que controlam o Norte, Nordeste (inclui Salvador), Centro-Oeste e até mesmo o interior de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina?

Será que eles só são considerados "coronéis" quando perseguem jornalistas e humilham ativistas sociais em seus programas? Ou quando se envolvem em corrupção municipal, como desvios de verbas públicas ou práticas de suborno?

Será que a cobra só é venenosa quando morde, e não porque tem o veneno guardado no seu organismo?

As oligarquias regionais da mídia, ligadas ao latifúndio e a políticos conservadores (até porque vários donos de mídia são também latifundiários e políticos), controlam, sem a menor dúvida, o entretenimento de suas regiões.

Daí uma grande ingenuidade afirmar que a suposta "cultura popular" ocorre sem qualquer intereferência dessas oligarquias.

A pregação ingênua de certos ideólogos do brega-popularesco, que atesta para o mito da "autossuficiência das periferias" para esconder as desigualdades sociais que atingem o povo pobre, chega a nos dar a impressão de que os excluídos que são incapazes de adquirir uma pequena porção de terra são capazes de montar gravadoras e rádios comunitárias, de um custo bem maior.

Quem vive no interior do país sabe muito bem que o poderio oligárquico domina a mídia e todo o mercado do entretenimento. Até seus capatazes montam canais no YouTube. Quanto mais uma emissora de rádio, mesmo parte das rádios comunitárias abocanhadas por políticos locais, ou serviços de auto-falantes. Que exibem compra de equipamento, uso de tecnologia, coisas que são relativamente muito caras para que pessoas pobres pudessem adquirir.

Como é que todo o esquema coronelista de entretenimento pode ser atribuído à "autossuficiência das periferias", só porque aparecem pessoas de origem pobre, mas já abastadas economicamente, nos palcos das boates, clubes e programas de TV?

OS RURALISTAS SIMBOLIZAM PODER OLIGÁRQUICO REGIONAL EM ÂMBITO NACIONAL

A julgar pela força dos representantes do latifúndio nas votações do Congresso Nacional, as oligarquias regionais não podem ser subestimadas.

Daí tamanhas "surpresas" que a indiferença dos analistas deixa passar, quando tentam mudar de assunto para não atingir certas "lideranças" regionais, ou simplesmente porque, vivendo longe, desconhecem o poderio desses "coronéis" regionais.

O que dizer do "progressista" Antônio Imbassahy, tão associado à modernidade urbana de Salvador e "rompido" com o carlismo, estar na lista de integrantes da bancada ruralista do Congresso Nacional?

E Marcos Medrado, que juntamente com Mário Kertèsz, "montou" o paradigma atual do rádio baiano, o "coronel" do subúrbio ferroviário que posava de "líder comunitário" e que tentou enganar os baianos migrando para o PDT (cujo núcleo baiano parece se esquecer que um dia existiu Leonel Brizola).

Isso sem falar de oligarquias como Sarney no Maranhão e Collor em Alagoas, entre outras que controlam não só a mídia como influem decisivamente no entretenimento e no padrão de "cultura popular" autorizado pelo coronelismo.

As oligarquias não investem só na maquiagem dos fatos, mas também na padronização dos comportamentos, na mediocrização do imaginário coletivo, condições cruciais para a prevalência de poder político e econômico dessas elites. Até o tecnobrega está inserido, claramente, nesse contexto. Nada de "anti-mídia" ou "anti-poder", porque tudo isso está bem acomodado no contexto do coronelismo de cada lugar.

Com isso, os "coronéis" investem em tudo que podem para estabelecer o controle social sobre as classes populares. Convém denunciar o poderio midiático regional sem medo, sem esperar que graves escândalos peguem os analistas de surpresa.

Afinal, é no interior do Brasil, ou nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, que existem os equivalentes a Hosni Mubarak, Ben Ali e Sílvio Berlusconi em cores verdes e amarelas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...