segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

LÚCIO FLÁVIO PINTO E O MITO DOS DOIS PARÁS



Por Alexandre Figueiredo

A opinião pública precisa aprender a jogar quebra-cabeça e ver a combinação de peças soltas que aparentemente não tem a ver uma com a outra.

O jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Jornal Pessoal - principal veículo da mídia alternativa do Pará - , está sendo processado pelos barões da mídia paraense por conta de reportagens que denunciam a corrupção que está por trás do coronelismo midiático de lá. Ele corre o risco de ser preso, se continuar divulgando a corrupção.

Pois bem. Lúcio Flávio Pinto também havia escrito um texto esculhambando o tecnobrega, ritmo popularesco paraense, que ele não se acanhou em definir como lixo. Em contrapartida, o jornal O Liberal, ícone da mídia coronelista paraense, foi um dos primeiros a exaltar o estilo, que, tido como "discriminado pela grande mídia", no entanto apareceu até na ranzinza Veja.

Enquanto isso, oficialmente se acredita que o tecnobrega é um "universo à parte" no território paraense, em que o povo pobre que não é capaz de comprar um sítio é capaz de montar equipamentos de som - as tais "aparelhagens" - , num festival de contradições cujo agravante é vir de gente intelectualizada que deveria pelo menos desconfiar das aparências, em vez de defender modismos comerciais como se fossem "manifestações sociais".

Ainda é lamentável que a excelente revista Fórum (ligada aos militantes brasileiros do Fórum Social Mundial) tenha colocado como capa Gaby Amarantos e seu reles comercialismo brega, atendendo o pedido do suspeitíssimo Pedro Alexandre Sanches, que, por mais que tente provar o contrário, continua sendo sempre o "crítico da Folha", sempre a defender a "ditabranda do mau gosto" como se fosse "a cultura das periferias".

DOIS PARÁS - O que existe, juntando a discurseria toda, é que existem o mito dos dois Parás. Um é o Pará político, sangrento, violento, marcado pela concentração do poder da mídia e dos grandes proprietários de terras, e cujo histórico de violência vitimou sindicalistas, agricultores, políticos, professoras, que gerou o massacre de Eldorado dos Carajás e a morte da missionária norte-americana Dorothy Stang.

O outro Pará é o do entretenimento, de uma "cultura" brega-popularesca que, em tese, não tem a interferência da mídia (apesar de sabermos que seu sucesso, naturalmente, depende decisivamente das emissoras FM locais), nem de terceiros e que é feita por gente pobre que está sem um tostão para comprar um pedaço de terra para plantar, mas investe sem sacrifício em tecnologia de ponta para seus espetáculos popularescos.

É como se criasse um maniqueísmo entre o céu e o inferno, o Pará político infernal e o Pará paradisíaco do tecnobrega. Ah, mas o mundo seria fácil se a realidade fosse assim. Não ter dinheiro para comprar terras para uns dois metros de plantação mas sim para adquirir equipamentos de som e de luz para produzir espetáculos de entretenimento brega.

SEM MITOS: O PARÁ É UM SÓ

Mas a verdade não é assim. Como não é a do "funk carioca", cujo discurso "socializante" foi todo em vão, não representou melhoria alguma para a periferia, a população pobre fluminense ficou refém dos funqueiros, enquanto os "paupérrimos" DJs de "funk carioca", com o dinheiro todo obtido através do "conto do movimento social" (pura lorota) foram comprar fazendas no interior do Rio de Janeiro e até Minas Gerais e põem essas propriedades no nome de terceiros, para evitar desconfianças. Mas tornam-se latifundiários de qualquer maneira.

No Pará, não existe a diferença gritante entre o "inferno" do coronelismo e o "paraíso" do tecnobrega. O tecnobrega é parte integrante de um mercado midiático - sim, o tecnobrega tem o apoio da grande mídia, e não é pouco - que envolve políticos, latifundiários, grandes empresários, a mesma gente que tenta intimidar a população com uma violência que custou a vida de milhares de paraenses e até de uma freira estadunidense.

É muita ingenuidade, coisa de otário mesmo, acreditar que as "redes sociais" da Internet já tenham poder suficiente para, sozinhas, definir o que vai ser o sucesso da temporada. O rádio FM e a TV aberta ainda têm esse poder, mas são estes mesmos que inventam que fulano fez sucesso porque botou vídeo no YouTube.

Mentira. Fulano virou sucesso porque, apesar de ter botado seu vídeo no YouTube e chamado a "galera" para vê-lo através do Twitter e do Facebook, também botou o mesmo sucesso nas FMs de maior audiência (muitas controladas por oligarquias locais) e mostrou o mesmo sucesso nos pleibeques no programa de maior audiência da TV aberta local.

Portanto, é lamentável que um Pedro Alexandre Sanches publica uma lorota baseada nas outras lorotas publicadas por Ronaldo Lemos e Oona de Castro e todo mundo aplaude, acredita, louva, elogia e assina embaixo.

Enquanto isso, vemos o caso do Pará e a máscara caindo solta no chão, quando se revela quem é que está realmente do lado do tecnobrega e das "aparelhagens" - a grande mídia golpista do Pará, capaz de mandar prender um jornalista pelo natural direito de informar, em defesa da verdadeira cidadania, em especial a do povo da periferia.

Mas o mesmo Lúcio Flávio que, na página da revista Fórum na Internet, tem um linque de vídeo de uma carta lida pelo filho dele, durante um encontro de blogueiros progressistas, se tivesse seu texto sobre o tecnobrega nas mãos de Ronaldo Lemos, este teria definido Lúcio Flávio como "um membro de retrógradas elites preconceituosas que agem contra o interesse do povo".

Vamos juntar as peças. Se o quebra-cabeça formar a imagem de um monstro, será essa imagem que virá com as peças reunidas. Não vamos inventar um quebra-cabeça novo com peças que nunca se encaixam.

Por isso não dá como creditar como "progressista" um discurso pró-brega que comunga com os interesses da mídia golpista e das oligarquias do entretenimento. Não há como provar que o tecnobrega está fora e longe do seu contexto regional de poderio midiático, de domínio do latifúndio, de politicagem e negociatas.

O tecnobrega faz parte desse cenário todo, faturando às custas do sangue derramado de muitos paraenses.

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