quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

FORRÓ-BREGA: A VIOLAÇÃO DE QUALQUER TIPO DE REGIONALIDADE


CALCINHA PRETA - O tipo de "música popular" que o Departamento de Estado dos EUA deseja para os brasileiros...

Por Alexandre Figueiredo

Quando o assunto é cultura popular, as manipulações da grande mídia conservadora tornam-se tão sutis que pouca gente percebe. Quando alguém no entanto tenta trazer à luz quanto a essas armadilhas, muita gente não gosta.

São pessoas de classe média, que querem agradar as empregadas domésticas que, por influência dessa mídia, ouvem as rádios "populares" controladas por grupos oligárquicos, e por isso adotam uma visão "da periferia" que não é mais do que uma forma distorcida de compreensão das classes populares. E que, certamente, cria um violento contraste entre a abordagem política e a abordagem cultural.

Afinal, nesses absurdos dignos de filme de Luís Buñuel, certos progressistas frágeis, no âmbito político, estão com o MST, mas, no âmbito da música, ficam com a UDR. Ignoram que as rádios FM que tocam os chamados "sucessos do povão" também são controladas por grupos oligárquicos, e por isso mesmo essa "música popular" que tão ingenuamente se associa ao povo pobre nada tem a ver com a música popular que tanto marcou história e faz parte do nosso rico patrimônio cultural.

O forró-brega - conhecido também pelos eufemismos de "forró eletrônico", "oxente-music" ou "neo-forró", e pela forma mais pejorativa de "forró-calcinha" - é um sintoma de como a ideia de cultura popular - é um desses símbolos da deturpação da cultura popular através de uma mídia controlada por oligarquias regionais.

FMS OLIGÁRQUICAS

Dissociar a ideia de cultura popular do contexto histórico, social e político em que se vive é manobra para que as elites invistam no controle social das classes pobres através do entretenimento. "Ora, não é política, tudo é universal", dizem, cinicamente.

Nunca devemos esquecer que as rádios FM que investem nos ditos "sucessos populares" são controladas por políticos e latifundiários. Graças a eles, o mapa da música associada às classes populares, no Brasil, é medíocre e tendencioso.

Por isso, não vale a pena bancar o politicamente correto e ignorar isso, e, para agradar as empregadas domésticas e os porteiros de prédios dos condomínios, se vá dizer que isso "é que é a verdadeira cultura popular", quando se vê que se trata de uma caricatura do que a mídia vende sob o rótulo de "cultura popular".

O forró-brega, exemplo do que as elites podem fazer com a cultura regional, depreciando e distorcendo ao máximo, é beneficiado pelo quadro oligárquico que está ligado tanto diretamente como de forma indireta no entretenimento regional do interior do país.

São rádios controladas por políticos poderosos locais. Que são respaldadas por casas de espetáculos, agências de talentos e "pequenas" gravadoras controladas por seus aliados. Todos também ligados aos grandes proprietários de terras locais, cujo poder exorbitante não poderia deixar o lado cultural de fora.

Pelo contrário, em lugares onde a ocorrência de conflitos de terra, em muitos casos verdadeiras batalhas sangrentas, chega ao ponto de criar um mercado "informal" de pistoleiros, dando no fenômeno da "pistolagem", as oligarquias precisam minimizar os conflitos sociais estabelecendo um controle maior no setor cultural.

NADA DE "ANTROPOFAGIA"

Ideólogos da "cultura" brega-popularesca fazem suas pregações dóceis que, no Brasil tomado pelo politicamente correto, faz as pessoas aceitarem de boa fé ideias tão discutíveis, que no fundo acobertam os problemas vividos pelas classes populares.

Fica mais confortável acreditar que o povo "está feliz" fazendo seu papel de bobo-da-corte do espetáculo midiático. O povo é incapaz de fazer seus movimentos sociais, mas, politicamente-corretamente se credita o espetáculo brega-popularesco como "movimento social", o que faz ignorar a sociedade de classes em que vive o Brasil. Afinal, os conflitos nem sempre são claros, mas escondê-los "não ofende" etc...

Um dos "argumentos" utilizados para a defesa do forró-brega - e isso vale para derivativos, como o tecnobrega, também de claro apadrinhamento latifundiário - é que seu "estrangeirismo" é expressão de uma suposta "antropofagia cultural", usando em causa própria ideias lançadas em 1928 pelo poeta modernista Oswald de Andrade.

Certamente a alusão é um grande exagero, fruto da imaginação fértil de cientistas sociais ou de críticos musicais cuja compreensão da periferia se dá pela televisão e por isso desconhece as relações de poder que estão por trás e os aspectos que, com toda a certeza, põem em xeque a "generosa" alusão ao pensamento modernista.

RETALHO DE MODISMOS ESTRANGEIROS

Isso porque, quando Oswald de Andrade falou das influências culturais de fora que, absorvidas por artistas brasileiros, os fortaleceriam na sua expressão local, o contexto sócio-cultural era outro.

Além disso, não é qualquer processo de veiculação de referenciais estrangeiros que fortalece necessariamente uma cultura local. Pelo contrário, em certos aspectos, quando interesses de dominação estão em jogo, os elementos estrangeiros só servem para enfraquecer culturas locais ou regionais.

É o caso do forró-brega, tendência de "sucesso" no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, cujo aspecto regional é muito fraco.

Não poderia ser um exemplo de "antropofagia cultural", porque o elemento nacional não se sobressai sobre o estrangeiro, não há uma forma local de pensar o elemento de fora, mas tão somente uma "macaqueação" do elemento estrangeiro dentro de um estereótipo "nacional".

O elemento estrangeiro é que sobressai sobre o nacional. E o forró-brega pouco tem de baiões, maxixes, carimbós, xaxados e outros ritmos regionais. Pelo contrário, ele se define por um retalho de modismos e tendências estrangeiras.

O forró-brega não passa de um cruzamento de disco music com country music, merengues e salsas, muitas vezes diluindo tão fragilmente o reggae e a juju music (tendência também apelidada aqui como "guitarradas").

Como espetáculos, muitas vezes os grupos de forró-brega, em cenários pomposos cheios de dançarinos, tentam simular o clima saloon estereotipado pelos filmes de faroeste transmitidos pela televisão.

Nem quando usa o som da sanfona o aspecto regional é salvo: o som remete ao estilo gaúcho de tocar a sanfona.

APOIO LATIFUNDIÁRIO É DECISIVO

As primeiras apresentações dos grupos de forró-brega ocorrem em festivais regionais promovidos pelas "classes produtoras" do Estado. "Classes produtoras" é o que por eufemismo se refere oficialmente aos grandes proprietários de terras de uma região.

Os eventos também recebem o patrocínio de políticos locais, alinhados com o poder coronelista dessas áreas. Vários desses políticos também são donos de rádios FM locais que divulgam esses "talentos".

Ideologicamente, nota-se o "valor cultural" desses ídolos, sem muita noção crítica nem autocrítica do meio onde vivem. Ingênuos e domesticados, os cantores de forró-brega não raro demonstram que, em muitos momentos, são orientados pelos seus empresários sobre o que dizer ou não nas entrevistas.

Um aspecto que derruba de vez o mito de "expressão natural das periferias" é que esses grupos são controlados pelos seus empresários, num processo que os classifica como "grupos com donos", literalmente liderados pelos seus empresários, que moldam a formação que bem entendem, até porque esses grupos não têm cara própria.

Imagine trocar os Beatles com músicos sem qualquer relação com a formação clássica. Ou, no caso brasileiro, imagine um empresário trocar os Mutantes, mudando os membros numa formação sem qualquer relação com a original.

Não dá para usar o caso de grupos veteraníssimos como Os Cariocas, Trio Nordestino, Demônios da Garoa, Trio Irakitan e outros para justificar os grupos de forró-brega porque, se esses grupos mudam suas formações, elas de alguma forma possuem relação com as formações anteriores, sobretudo no caso de integrantes falecidos.

Nada pôde disfarçar o caráter postiço, artificial e medíocre de tendências brega-popularescas como o forró-brega, sobretudo pelo seu repertório, marcado pela "avalanche" de versões de sucessos estrangeiros que se tornam seus "sucessos".

DESTRUIR A REGIONALIDADE

Não há como ignorar o abismo dos históricos artistas nordestinos com a "música regional" que hoje atinge grandes plateias.

Também não há como relativizar a eliminação de identidades regionais pela suposta tese de "recriação" daquilo que oficialmente se credita como "a periferia autossuficiente", um mito que esconde os conflitos e relações de poder existentes nas zonas rurais, subúrbios e cidades do interior, ou mesmo em certas capitais.

A falta de diversidade do forró-brega, apesar de tentativas de se dizer o contrário, é tanta que não há a menor diferença entre um grupo do gênero que surge em Belém do Pará, um outro que surge em São Luiz, outro em Aracaju ou Campina Grande ou então outro no Norte de Minas Gerais, porque são todos, essencialmente, a mesma coisa, a mesma "linha de montagem".

O repertório da quase totalidade de ídolos de forró-brega é calcado em versões de sucessos estrangeiros tocados nas rádios locais. Isso já derruba a tese de "cultura popular de verdade", já que os "valores" não são transmitidos pela comunidade, mas pelo poder das rádios locais, controladas por políticos poderosos e grandes fazendeiros.

Não que o rádio não possa ser um meio de transmissão de cultura, mas as relações de poder existentes no Norte e Nordeste, subestimadas por ideólogos como Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches, deixam evidente o quanto essa "cultura popular" tem seu sentido anulado quando seus valores são transmitidos não de comunidade em comunidade, mas do poder midiático para a comunidade.

A ideia é mesma de violar qualquer tipo de identidade regional que possa representar algum foco de mobilidade social. Inventa-se que "mobilidade social", nessas regiões, é ir para o galpão de espetáculos que tiver a apresentação de um "ídolo musical de sucesso".

"MOBILIDADE SOCIAL" QUE IMOBILIZA

O pessoal vai como gado, a TV aberta faz reportagem creditando o submisso rito à "natural expressão das periferias", algum crítico musical exagera achando que "se trata de uma rebelião popular" e todos, patetas feito focas de circo dopadas, aplaudem incondicionalmente.

Dessa maneira, cria-se uma ilusão de mobilidade para evitar que a verdadeira mobilidade aconteça.

Cria-se uma nova psicologia do terror, com seus "inocentes" intelectuais dizendo que um novo Luís Gonzaga, um novo João do Vale, um novo Tião Carreiro, novas Helena Meirelles e Marinês, ou um novo Jackson do Pandeiro iriam fazer o povo saquear supermercados, destruir sobrados, incendiar tratores, roubar gados.

O pior disso tudo é quando esses intelectuais, vestindo a capa de "progressistas", tentando arrumar brechas até para mandar artigos até para a Revista Fórum e Caros Amigos, defendem essa imobilidade enrustida, num discurso dócil, atraente mas altamente suspeito, que da forma mais explícita possível entra em absoluta concordância com o que a mídia mais reacionária veicula e quer fazer prevalecer.

Afinal, de que adianta Pedro Alexandre Sanches escrever na Revista Fórum, Carta Capital e Caros Amigos as mesmíssimas coisas que deixariam Ali Kamel, Otávio Frias Filho e Sandro Vaia sorrindo de um lado a outro da boca, com satisfatório entusiasmo?

Ignorar o poderio midiático regional faz com que aberrações como creditar o forró-brega, seu subproduto, o tecnobrega, e outras tendências da Música de Cabresto Brasileira prevaleçam como formas caricatas, estereotipadas e medíocres que deturpam, distorcem e padronizam para baixo o nosso rico patrimônio cultural, é simplesmente aceitar esse poder midiático, por mais que se façam críticas ao seu jornalismo e a outros aspectos da manipulação grão-midiática.

Afinal, o brega-popularesco, com suas músicas apátridas e estereotipadas, com sua "cultura" domesticadora e imobilizadora, age contra a verdadeira diversidade cultural e contra as verdadeiras identidades regionais. E usa o entretenimento, com claras alusões ao consumismo capitalista "regionalizado", para evitar a verdadeira mobilidade social que comprometeria os privilégios das famiglias oligárquicas que controlam o interior do país.

Paranóia nacionalista, o parágrafo anterior? Moralismo elitista? Saudosismo ranzinza? De jeito nenhum!

Só a título de comparação, quando o organismo de alguém é devorado por vermes mortais, ninguém vai dizer que se tratam de minhoquinhas inocentes dançando dentro de um corpo de alguém.

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