quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

É POR ISSO QUE A DIREITA DO BRASIL TEME OS MOVIMENTOS SOCIAIS



PROTESTOS NA ITÁLIA E NO EGITO - NADA DE GALPÃO "MEGA SHOW", NADA DE VAQUEJADA. LÁ MOVIMENTOS SOCIAIS SÃO COISAS SÉRIAS.

Por Alexandre Figueiredo

A direita brasileira está apavorada. E não se fala só nos editores de Folha, Veja, Estadão e O Globo/TV Globo, entre outros da mídia claramente golpista. O medo chega às espinhas também da direita enrustida, da direita dente-de-leite, da mídia "boazinha", dos pseudo-esquerdistas, quando surge a hipótese de revigoramento dos movimentos sociais.

Evidentemente, se houver algum protesto no pais, por parte das classes populares, ele não será direcionado à presidenta Dilma Rousseff, eleita legitimamente, de forma democrática e representante das forças progressistas no país. Haverá, quando muito, manifestações da oposição reunida em elites ou na discordância isolada de quem discorda naturalmente da política da chefe do Executivo federal.

Mas isso é outra história.

O temor que as elites brasileiras têm é que os movimentos sociais que ocorrem lá fora - cujo maior exemplo foi o grande protesto que reuniu milhões de pessoas em Cairo, capital do Egito, contra o ditador Hosni Mubarak, que se limitou a dizer que "não concorrerá à reeleição em setembro" - reflitam no Brasil nas manifestações contra o latifúndio e no aumento do senso crítico nas classes populares.

Durante muitos anos, a mídia golpista desenvolveu e promoveu um modelo de "cultura popular" que veio desde os rincões latifundiários - onde surgiu a primeira geração de cantores cafonas e jornalistas policialescos - , passou pela ditadura militar e se intensificou em governos conservadores como os de José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

Esse modelo de "cultura popular" se baseava na domesticação das classes populares e o enfraquecimento das raízes culturais brasileiras, reduzidas a arremedos meramente formais, feitos para turista ver.

A diferença é gritante entre a cultura popular do pré-64 e essa "cultura popular" que domina rádios FM e TV aberta. A rejeição pública é notória e grande ao brega-popularesco de hoje, e engana-se que se trata de preconceito, uma vez que aqueles que rejeitam suas tendências são os que conhecem as mesmas quando vão ao supermercado, às lojas de eletrodomésticos, passam perto de camelôs ouvindo rádio ou simplesmente têm um vizinho tocando tais músicas ou sintonizado em programas policialescos de rádio e TV.

Desde a crise do governo FHC, ideólogos foram escalados para dar uma "imagem positiva" ao brega-popularesco (que não era assim conhecido pelo nome). Três anos depois daquilo que o jornalista Mauro Dias, sabiamente, classificava como "massacre cultural sem precedentes), ou seja, em 2002, começou-se a campanha intensa para defender os ídolos que fazem os ditos "sucessos do povão".

DEFESA DO BREGA-POPULARESCO VISA PROTEGER O LUCRO DAS ELITES ENVOLVIDAS

Valorização da cultura do povo? Nem de longe, apesar de não serem poucas as vozes que insistam no contrário, até com irritabilidade muito suspeita. Afinal, quem é lúcido e tem opiniões coerentes nunca se enfurece quando contrariado, no máximo reage de forma enérgica.

Trata-se de uma campanha para evitar o prejuízo financeiro dos empresários do brega-popularesco, que investem dinheiro nos seus ídolos musicais, nas "musas popozudas", na imprensa policialesca, na mídia fofoqueira, em reality shows e em todo o processo lúdico voltado para a domesticação e anestesia mental das classes populares.

O processo parece tão gentil e alegre que as vozes defensoras - que no fundo escondem preconceitos elitistas ferozes - tentam dizer que "são elas é que gostam do pobre". Mas elas gostam apenas de ver o povo pobre cabisbaixo, tolo, quietinho assistindo à televisão e ouvindo o rádio, ou indo que nem gado para os eventos de brega-popularesco.

MUDANÇAS DE VALORES IRRITAM CERTAS PESSOAS

A reação dos defensores do brega-popularesco à blogosfera independente e progressista, mesmo sob alegações "politicamente corretas", vindas desde a direita dente-de-leite até os grandes "calunistas" da imprensa golpista, mostra o caráter alarmista das elites brasileiras quanto às transformações vividas pela sociedade no mundo inteiro.

Não é por acaso que o Mingau de Aço passou a ser espinafrado por tuiteiros de direita no exato momento em que explodiram as revoltas populares no Egito e na Tunísia.

Junta-se o desgaste dos valores brega-popularescos, que deixa o mercado e seus empresários e oligarcas em pânico, perdendo mais dinheiro do que a pirataria (até porque parte do empresariado brega-popularesco têm no comércio pirata a vitrine para seus produtos).

Junta-se, com isso, a transformação de valores sociais que faz decair as mulheres-objeto da linha de Solange Gomes, Valesca Popozuda, Karol Loren, Mulher-Melão e outras, em detrimento de atrizes, modelos e até jornalistas de televisão que expressam uma sensualidade mais elaborada e discreta que as popozudas.

Junta-se a tudo isso as manifestações populares que repercutem no exterior, como no Egito e Tunísia, ou no protesto de mulheres contra o cafajestismo do premier italiano Sílvio Berlusconi, e veja no que dá.

Dá no reacionarismo alarmista da direita em relação a mudanças naturais e inevitáveis. Um reacionarismo enrustido, de retórica confusa, ora persuasiva, ora ofensiva, de direitistas nem sempre assumidos, mas de claras intenções conservadoras.

Não é à toa que Pedro Alexandre Sanches, o menino-de-ouro de Otávio Frias Filho, que joga no time adversário para fazer gols contra e pontuar para a mídia golpista, falou da suposta "autosuficiência" das periferias, às custas de defender tendências claramente patrocinadas pelo latifúndio, como o tecnobrega e o "neoforró" (forró-brega).

Já citamos que esse mito da "autosuficiência" é trabalhado pelo poderio midiático para criar um conformismo nas classes populares e evitar o avanço de suas lutas sociais (vistas pela direita como "subversão") e jogar o povo pobre no consumo passivo de modismos elaborados pelos "coronéis" regionais do entretenimento, capatazes urbanos dos grandes proprietários de terra regionais.

MÍDIA GRANDE QUER ELITIZAR OS PROGRESSOS SOCIAIS

A mídia grande, por isso, quer elitizar no máximo os progressos sociais, contendo os avanços naturais que atingem o mundo. A mídia quer evitar que eles atinjam as classes populares, fazendo com que, por exemplo, moças pobres deixem de se espelhar em popozudas e "marias-coitadas" - moças de personalidade piegas e infantilizada que vão a eventos de "sertanejo" e "pagode romântico" - e passem a adotar uma postura crítica em relação ao mundo em que vive.

Os movimentos dos trabalhadores rurais, assim como as passeatas de favelados pedindo melhorias de vida, apavoram as elites, deixando-as assustadas. Elas, realmente preconceituosas, temem que isso leve o país à desordem. Acham que a volta de uma cultura popular tal qual conhecíamos antes de 1964 venha a jogar o Brasil num caos, o que não é verdade.

Caos é o que existe agora, quando um discurso confuso e hipócrita dessa direita nem sempre reconhecida como tal tenta nos fazer acreditar que o povo "é melhor naquilo que ele tem de... glup... ruim, ou o que a gente entende como ruim", esse discurso dotado do mais puro cinismo.

O que está em jogo, nisso tudo, é o prejuízo de um mercado que só atende aos interesses das elites regionais, o desgaste de valores "populares" retrógrados, o desgaste da mídia associada (só o Domingão do Faustão, nos últimos meses, sucumbiu à sua pior audiência em 22 anos), o risco do povo pobre deixar o comportamento domesticado e quase infantil para reivindicar qualidade de vida.

É bom deixar claro que o coronelismo continua muito forte no interior do país e em capitais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país. E que os latifundiários exercem, não raro, influência direta em rádios FM que lançam e promovem os ídolos popularescos. Incluindo as tendências tidas como "expressão das periferias".

Além disso, todo esse modelo de "cultura popular", cheio de cantores cafonas, musas popozudas, tipos pitorescos, piadas de duplo sentido, jornalismo policialesco, só agrada mesmo a uma classe média preconceituosa, que só "gosta do povo pobre" porque ri dela, feito um praticamente de bullying. Porque acha que o povo pobre "tem que ser ruim mesmo", ideia camuflada em argumentos politicamente corretos.

Mas o que está por trás disso é o medo de que o povo pobre venha a derrubar as velhas oligarquias que desde 1964 ainda resistem no poder nas entranhas de nosso país.

Um comentário:

  1. E o espaço dado ao brega-popularesco nas festas de 1º de Maio promovidas pelas centrais sindicais, mesmo as mais progressistas? Falta abordarmos este assunto.

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...