domingo, 27 de fevereiro de 2011

A DIREITA SE PROSTITUI NO CENTRO-ESQUERDISMO


HERÓDOTO BARBEIRO E GILBERTO KASSAB - PiG e demos agora em atitude "governista".

Por Alexandre Figueiredo

Ser de esquerda não significa, necessariamente, ser sectário ou adotar a postura acrítica à própria esquerda. Ser acrítico e temeroso mesmo nas atitudes mais mesquinhas, mesmo na esquerda, é uma atitude condenável, porque põe-se as causas de luta originais no lixo em nome de vantagens corporativistas ou fisiológicas.

Não é de hoje que o PT, por exemplo, percorre um caminho perigoso, que ameaça sua reputação. O partido já era de centro, tendo sido uma verdadeira torre-de-babel política com suas diversas facções divergentes, das quais a Articulação era dominante. Mas pelo menos seu projeto reformista na Era Lula, se não realizou a tão prometida mudança, pelo menos efetivou conquistas sociais que deveriam ir adiante, e não virarem reféns do pragmatismo politiqueiro.

O novo quadro político, a se anunciar confuso, está preocupando vários analistas progressistas, como Altamiro Borges, Raphael Garcia, Rodrigo Vianna, Luiz Carlos Azenha e Luís Nassif. Até Carta Capital já citou a guinada política anunciada pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. E mostra o quanto o adesismo de pessoas ligadas à direita ideológica ao quadro governista podem agora ameaçar, pra valer, o projeto progressista lançado pelo governo do PT.

ANTES, O OPORTUNISMO TINHA ALGUM CONTEXTO

Hoje a adesão anunciada de Gilberto Kassab - cuja "dedicação" aos movimentos sociais se deu com a repressão policial aos estudantes que protestavam contra os aumentos das passagens de ônibus - , que levará junto a "musa" dos latifundiários, a senadora Kátia Abreu, é um imprevisto que mostra o quanto a adesão de conservadores, não aos movimentos sociais, mas ao bloco político aliado do governo petista, atinge seu grau extremo.

Isso não é novidade, pois o próprio governo Lula se compôs com base conservadora. Não só na política, como também na mídia, no entretenimento, na intelectualidade. Mas, em que pese o alto grau de oportunismo em certos casos, havia pelo menos algum contexto para isso.

No primeiro governo Lula, partidos pequenos deixados de lado pelo demotucanato, como PP, PL (atual PR) e outros, passaram a ser da base aliada. O direitista baiano Mário Kertèsz passou a "apoiar" Lula por causa das ligações do pseudo-radialista com o publicitário Duda Mendonça, que bolou a campanha petista.

Havia também José Sarney, presidente do Congresso Nacional, um direitista "híbrido" que, apoiando Lula, reviveu os tempos em que o senador maranhense integrava a chamada "bossa nova" da União Democrática Nacional (UDN), grupo de políticos udenistas menos alinhados ao conservadorismo do partido, há 50 anos atrás.

Havia também os empresários do entretenimento brega-popularesco, dos donos do forró-brega do Norte/Nordeste aos "joviais" empresários do "funk carioca", que outrora alimentaram seu mercado em cenários políticos conservadores, que passaram a apoiar o governo lulista e usar uma retórica "social" (incluindo o rótulo de "patrimônio cultural" forjado por parlamentares simpatizantes, sem passar pelo caminho de cientistas sociais sérios) que só serviu para perpetuar seus ídolos no mercado da mediocridade cultural.

E havia também os jovens pseudo-esquerdistas, que defendiam de rádios pseudo-roqueiras até bandas de axé-music, pelo simples fato de que era quase um protocolo para quem tem menos de 35 anos ser "de esquerda", baseado em clichês de rebeldia muito conhecidos.

No segundo governo Lula, o cafajestismo ideológico crescia, mas ainda tinha seu quê de verossimilhança, afinal havia os louros do primeiro governo Lula, as conquistas de ordem econômica, que soaram como um milho jogado para os pombos de asas tucanas.

Na segunda fase do governo Lula, vieram adesões mais explícitas dos antigos desafetos de Lula, Paulo Maluf e Fernando Collor (este sob a proteção de Domingos Alzugaray, da Editora Três, que edita a revista Isto É), além da migração do tucano carioca Eduardo Paes para o PMDB, dentro da cartilha do fisiologismo político-ideológico.

Fora da política, vemos a suspeitíssima adesão do professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, que mais parecia um Diogo Mainardi metido a analista cultural, ao centro-esquerdismo. Também há o caso do jornalista Pedro Alexandre Sanches, que ainda no primeiro governo Lula gozava feliz do posto de principal crítico musical da Folha de São Paulo, mas depois deixou seu padrinho Otávio Frias Filho para defender na mídia esquerdista a visão de "cultura popular" ditada pela FSP. Sem despertar suspeitas em viva alma.

HOJE, A TURMA DO MORDE-E-ASSOPRA

Ivete Sangalo havia sinalizado a nova onda. A cantora baiana, em 2006, havia integrado o movimento Cansei, promovido pela OAB, que era uma espécie de versão compacta das antigas marchas Deus e Liberdade que aconteceram em 1964, durante a crise do governo João Goulart. O Cansei, por sua vez, tinha como alvo os escândalos nos bastidores do governo petista, e contou com o apoio de celebridades e da mídia golpista para pedir o impachment de Lula, que acabou não acontecendo.

Depois, num ensaio de puro oportunismo, aproveitando a memória curta dos fãs, a cantora baiana que pediu a saída de Lula deu aparente apoio à Dilma Rousseff, durante a campanha de 2010. Poucos perceberam a pegadinha de "dona Ivete", mas quem se lembrou do Cansei deve se lembrar que a declaração de apoio a Dilma não foi incondicional.

Agora vemos a adesão ao centro-esquerdismo, no plano político, do malufista e demotucano Kassab, que manda a polícia bater nos estudantes, e da "Miss Motoserra de Ouro" Kátia Abreu, que defende a concentração de terra, a escravidão, a grilagem, o desmatamento e outros abusos dos grandes proprietários de terras que ainda controlam o interior do país.

No âmbito midiático, a adesão fica por conta de Heródoto Barbeiro, antes filiado da temível ARENA (o partido da ditadura que também tinha Jaime Lerner, Mário Kertèsz, Fernando Collor e Paulo Maluf como filiados) e que tinha chocado a opinião pública com o súbito e crescente conservadorismo da rádio CBN, proveniente não apenas da turma da Rede Globo (como Arnaldo Jabor e Miriam Leitão) mas de "emergentes" como Roberto Nonato e Carlos Alberto Sardenberg, originários do grupo "independente" de Barbeiro, por sua vez dotado de visões por demais tecnocráticas sobre a mídia radiofônica.

Heródoto Barbeiro, "traído" na TV Cultura por ter feito perguntas "polêmicas" ao então presidenciável José Serra, o que o fez ser demitido da emissora pública, hoje em séria crise, vai trabalhar na Record News, e deve conseguir algum assento na TV Record.

Desse modo, são lançadas as perguntas.

Será que o arqueoconservador Heródoto terá um blog e conseguirá algum "coleguismo" entre os blogueiros naturalmente progressistas, Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna, que aliás integram o Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, que tem por tradição combater a grande mídia na qual se insere a Rede CBN?

E quanto ao apoio de Kátia Abreu e outros demotucanos ao governo Dilma? Será que o PT terá que se afastar dos movimentos sociais para não perder o apoio de uma "base aliada" que não é mais do que uma mera gordura nociva dentro de seu inchado bloco político?

E a oposição, parte indispensável do jogo democrático autêntico? Será que a tendência brasileira é de oposicionistas reais ou potenciais se valerem de uma pseudo-solidariedade à centro-esquerda - ou mesmo a outros setores da esquerda, como o PSOL de Marcelo Freixo e Chico Alencar, entregue aos ricos barões do "funk" - , em vez de assumir seu direitismo associado a valores, muitas vezes retrógrados, de poderio político, econômico e midiático?

Em certos aspectos, 1964 deixa saudades.

Naquela época, pelo menos, a direita era bem mais sincera nos seus propósitos. Era assumidamente conservadora, não tapeava seus valores retrógrados com falsas alusões a "movimentos sociais", "causas progressistas" ou qualquer outro pretexto. Eram muito cruéis em seus princípios, mas pelo menos eram mais sinceros na sua oposição aos projetos de reformas sociais.

Agora ver que parte da direita social, política e econômica brasileira, do DJ Marlboro a Gilberto Kassab, de Ivete Sangalo a Kátia Abreu, de Mário Kertèsz a Pedro Alexandre Sanches, tenta se alinhar no centro-esquerdismo, é muito preocupante. Todos eles poderão atrapalhar a construção de um país mais progressista, em busca de vantagens pessoais e visibilidade entre a sociedade esquerdista.

Melhor seria que eles atrapalhassem as reformas sociais na condição de oposicionistas de direita. Seriam cruéis, mas pelo menos seriam mais sinceros e honestos.

3 comentários:

  1. O amigo Alexandre Figueiredo é dos poucos sujeitos de esquerda com quem ainda tenho estômago para conversar. O outro talvez seja o Zé Carlos, o gaúcho colorado e lulo-dilmista do Contexto Livre. O resto, francamente, eu deixo na mesma vala comum dessa esquerda caótica que eu deixei desde 2003. Na verdade, eu sempre fui antidireita, não propriamente um esquerdista. Aderia à esquerda para combater o PiG, combater o demo-tucanato e combater essa direita lulo-dilmista, quase toda citada na sua postagem. Hoje descobri que é possível NÃO ser reacionário, NÃO ser direitista e NÃO ser neoliberal, e mesmo assim se opor a essa decadente esquerda brasileira (seja a extrema-esquerda, o PSOL ou o PT e demais partidos lulo-dilmistas), que torço francamente para que entre no mesmo estado de putrefação em que se encontra o demo-tucanato. Obviamente, teremos que esperar a saída do PT do Governo. Como não sou dondoca golpista, posso esperar esse momento, quando provavelmente estarei na fase dos quarenta, a primeira da era dos –enta.

    Estou repercutindo este texto nas redes sociais. Tou pensando até em criar um banner para o Brasil, um País de Tolos.

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  2. Alexandre,
    Este partido de direitas envergonhados pode nem sair. Hoje para criar um novo partido tem que ter pelo menos 1 milhão de assinaturas. Para o PSOL e o PRB foi realtivamente fácil, pois o primeiro tem uma militância forte e conta com apoio de parte da população. Eu mesmo na época assinei sua criação. O PRB se criou as custas dos membros da IURD. E este partido, como eles vão conseguir as assinaturas? De que forma? Eles não tem militantes tradicionais fortes (não estou citando os músicos da Musica de Cabresto Brasileira e nem artistas vendidos), como vão conseguir? So se mudarem a legislação eleitoral, fora isso o partido não poserá ser criado.

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  3. Eu até comentei este assunto com o Leo Ivo. Tem um terceiro partido a ser criado: o Partido Nacionalista Democrático - PND, criado em 12 de janeiro de 2001, e que conta com alguns membros egressos do MV-Brasil, a começar pelo atual presidente Gama e Silva. O MV-Brasil mesmo começou bem, fazendo campanhas contra o governo entreguista de FHC e pichando cartazes da campanha do Serra em 2002. O PND parece ser a versão partidária do MV-Brasil. O PND tentou se registrar em 2009 para disputar a eleição de 2010, pedindo pra completar a lista de assinaturas de apoio pela Internet, mas o TSE negou. Os dirigentes do partido juram que estão perto de completar a lista para registrar o partido. Também, estão juntando assinaturas desde 2001...

    Para um partido que não tem militância tipo a do PSOL, não tem máquina midiática, não tem guarita de nenhum Instituto Millenium da vida nem tem uma igreja por trás, as coisas são difíceis, mesmo.

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