quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

DEFENDER O BREGA-POPULARESCO É DEFENDER OS PODEROSOS


"É FESTA DE RODEIOOOO..."

Por Alexandre Figueiredo

É preocupante o lobby que envolve a dita "cultura popular" do brega-popularesco. Formado nos últimos dez anos, esse esquema de compadrismo, corporativismo e respaldo ao que é "estabelecido" na mídia, ainda hoje prevalece na opinião pública.

Nem mesmo o IPES juntou um esquema tão poderoso assim. E que, mesmo integrado aos interesses da mídia golpista, tenta penetrar na mídia de esquerda ou nos meios acadêmicos através de uma retórica confusa, mas verossímil e sedutora. Uma retórica que, pelo menos, deixa a classe média preconceituosa com a impressão de que "também tem sua consciência social".

Mas sabemos que, por trás desse discurso confuso, esquizofrênico - tenta medir o valor dos "sucessos do povão" pela rejeição que ele causa nas "classes tradicionalistas" (?!) - , está todo um pavor de que a antiga música popular do pré-64 volte a ressoar nos morros, favelas e sertões, tirando aquele gostinho de privilégio de uma classe média que pegou o sabor de "conhecer mais de cultura popular" do que a empregada doméstica e o porteiro de prédio.

Em primeiro lugar, temos uma "cultura popular" formada e estimulada por períodos político-midiáticos conservadores, como a ditadura militar, ou os governos neoliberais como os de Sarney, Collor e FHC. É uma grande inverdade, por exemplo, que Paulo César Araújo creditou o sucesso da música brega a uma reação ao AI-5. Pelo contrário, a música brega fez sucesso porque foi tocada por rádios que apoiaram o regime militar.

Afinal, essa "cultura popular" que vemos hoje, de ídolos submissos, resignados, de uma música medíocre que não serve para ser ouvida mas que todos empenham que ela seja aceita sem críticas pela intelectualidade - afinal, "é o que a maioria do povo gosta, é o que o povo sabe fazer", diz a cartilha elitista politicamente correta - , sempre se alimentou de uma mídia conservadora e por causa dela esse tipo de "música popular" ou de "cultura popular", para citar outras esferas culturais, se fez aparecer e crescer.

RECUSA DE VER O ÓBVIO

Como é que agora a intelectualidade recusa-se a ver o óbvio? A associação da Música de Cabresto Brasileira - que temos que reconhecê-la apenas sob o "inocente" nome de "cultura popular contemporânea" - com os barões da grande mídia é histórica e evidente, principalmente quando passou a desenvolver uma visão idealizada do povo da periferia que seduz a intelectualidade pelo seu mais doce sabor de mel.

Só que essa visão de uma periferia supostamente "autosuficiente", de uma "cultura inocente e inculta", essa abordagem romântica do povo pobre de contos de fadas, mais próximo da Gata Borralheira do que da periferia real de hoje, é um discurso que, mesmo parecendo generoso e gentil, vai contra a luta do povo pobre por melhorias de vida.

Só que essa idealização do povo pobre é o que predomina no discurso intelectual de hoje, e, o que é pior, vende uma falsa imagem de "progressista" pela sua suposta generosidade às classes populares, uma visão que ainda prevalece mesmo com suas sérias e preocupantes contradições.

Afinal, de nada adiantou Pedro Alexandre Sanches, crítico formado pela Folha de São Paulo, tentar convencer os editores da Revista Fórum a colocar o tecnobrega na capa de uma de suas edições, na tentativa de "apavorar a grande mídia", pois até a ranzinza revista Veja se rendeu ao ritmo. Mera coincidência?

"MERA COINCIDÊNCIA"?

Será apenas "mera coincidência" que a mídia golpista aceita o brega-popularesco, quando na verdade foi ela que o criou, que o fez crescer, principalmente através das concessões de rádio promovidas pelos grãos-coronéis do Nordeste, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, na década de 80?

Pois a quase totalidade dessas rádios foi responsável, dos anos 90 até hoje, pela determinação do que vai fazer sucesso entre o grande público brasileiro. Como o era nos tempos do regime militar, e não é "mera coincidência" que a música cafona passou a fazer sucesso no Brasil a partir de 1968.

Isso se deve porque, na época, o governo militar havia feito uma legislação específica para as Comunicações, em 1967, e havia "mexido as varetas" da mídia, enfraquecendo os veículos que haviam reagido contra a "Revolução".

Por isso não é coincidência que, enquanto os ídolos cafonas passaram a fazer mais sucesso em 1968, o Correio da Manhã e a Folha da Tarde encerraram seus períodos oposicionistas, a revista Realidade se acomodou (claro, ordens da "revolução"), a TV Excelsior entrou em falência.

Enquanto isso, rádios ligadas a grandes fazendeiros se fortaleceram quando passaram não só a tocar os sucessos cafonas, como a patrocinar seus ídolos e a formatar um tipo de "cultura popular" (não só a música, mas também em outros aspectos) baseada na domesticação do povo pobre e na eliminação de referências locais, só "resgatadas" como um pastiche depois de 1974.

Por isso é que, depois que tivemos uma música cafona claramente entreguista - onde a prevalência de elementos estrangeiros aparece não como acréscimo, mas como elemento dominador e enfraquecedor das culturas locais - , numa aplicação da lógica de Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões na cultura popular, vieram então, durante a Era Geisel e depois dela, arremedos de "culturas regionais" que hoje a intelectualidade etnocêntrica aceita como se fosse "genuína".

DISCURSO CAETÂNICO

Enquanto víamos surgir arremedos estereotipados e até um tanto entreguistas de "sertanejos", "pagodeiros", "forrozeiros" etc, que em 1942 teriam saído tranquilamente dos escritórios dos birôs de Washington e Nova York, os intelectuais que defendem o brega-popularesco hoje eram muito crianças para compreender as contradições e as relações de poder por trás desse processo.

Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Bia Abramo e outros eram crianças quando houve o AI-5 e eles eram moleques vendo a televisão. O discurso de "cultura popular" era monopolizado, mesmo nas fileiras oposicionistas, pelo delírio retórico de Caetano Veloso, capaz de um palavreado modernoso que tente "explicar" nulidades.

Portanto, embora essa geração consiga alguma visibilidade na intelectualidade de esquerda, sua lógica mais parece discordar daquela que os analistas políticos de esquerda no Brasil, como Altamiro Borges, Raphael Garcia e outros, desempenham. Sem falar que a luta de Venício A. de Lima contra os abusos da grande mídia se choca perfeitamente com muitos ídolos que Pedro Alexandre Sanches defende, até com certo entusiasmo.

Em contrapartida, a defesa do brega-popularesco encontra real concordância com os interesses da grande mídia, à qual interessa haver um contraste entre os movimentos sociais que existem longe de nós, como nas populações dos Andes ou no povo do Oriente Médio, e na situação brasileira, onde existem movimentos sociais, mas eles são trabalhados ideologicamente pela mídia para se tornarem apenas "casos isolados" ou "excepcionais".

CONSUMISMO NÃO É CIDADANIA

Por isso a defesa dessa "cultura popular" estabelecida pelos meios de comunicação, em que pesem teorias modernosas ou politicamente corretas que tentam atribuir a esse espetáculo brega-popularesco teorias e ideais que não existem - seja a "antropofagia" em relação ao tecnobrega, seja o "feminismo" em relação às musas "popozudas" - , sempre significa concordância com o poderio da grande mídia.

Essa visão não pode ser definida como "radical" ou "extremista", uma vez que é essa mesma a realidade que está por trás, sobretudo nos bastidores de rádios, casas noturnas, emissoras de televisão. Não fosse assim, então seríamos igualmente "radicais" ou "extremistas" se enxergássemos direitismo até nas vírgulas de Arnaldo Jabor ou nas caretas de Marcelo Madureira.

O Big Brother Brasil também não é questionado pelos analistas da mídia, sem qualquer risco destes serem tidos como "radicais", "extremistas" ou "panfletários"?

Defender o brega-popularesco, portanto, significa defender todo o poderio de emissoras de rádio e televisão que promoveram e sustentam seus ídolos, e todas as relações de poder que estão por trás desse "sadio entretenimento do povo moderno".

Questionar o brega-popularesco, por outro lado, significa acreditar na cultura popular não como uma gororoba, um vale-tudo imposto pelas "circunstâncias" (ou interesses dominantes em jogo?), mas um processo de verdadeira emancipação social do povo pobre, cuja luta pela qualidade de vida não se resolve na mera inclusão do mercado consumista do entretenimento.

A verdadeira cultura popular envolve produção de conhecimento, de valores sociais que possam fazer o povo superar sua condição de pobreza, com cidadania e não meramente com inclusão econômica. Mais do que um apartamento ou um acesso em shopping centers ou em faculdades, o povo pobre quer ser considerado gente, e não uma massa de manobras da grande mídia.

Cidadania não é sinônimo de livre mercado.

6 comentários:

  1. em relação ao q é produzido no meio cultural, é cada vez mais difícil separar o joio do trigo... será q tudo do q a mídia se apropria é imprestável ou a mídia, ao se apropriar, reelabora os discursos e pinça da "obra total" do artista apenas o q lhe é conveniente para ser reproduzido? As rádios só veiculam, do cd "Luz negra", da Fernanda Takai, aquela cuja letra trata de uma mulher submissa, por isso será que a Fernanda Takai é reacionária? Sinceramente não sei se essa artista tem algum ponto de vista crítico consistente, e, caso tenha, a mídia também não o veiculará...

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  2. A questão da música funciona da mesma forma que ocorre na grande imprensa. Certo que há ilhas de revelação e lucidez, sobretudo quando há notícias ligadas à saúde e a cuidados tipo lidar com o trânsito, ser gentil com as pessoas etc. Ou alguma notícia sobre corrupção, que mesmo a imprensa reacionária não pode omitir.

    Na música, há poucas coisas decentes que rolam. Há até uma cota obrigatória de MPB que é tocada até em rádios popularescas, desde que se destaquem em trilhas de novelas de grande audiência.

    Isso até é vantajoso para os ídolos popularescos que, numa entressafra criativa, podem pegar carona num nome emergente da MPB para se autopromover. Vide o cantor sambrega Alexandre Pires, no dueto com Seu Jorge.

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  3. e qd o Tom Zé elogia "Atoladinha", vc acha q ele é um "revolucionário q caiu na armadilha"? Pq o Tom Zé, q aliás quase não é veiculado na grande mídia, é revolucionário (vide o documentário "Fabricando Tom Zé" e sua entrevista na Caros Amigos)

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  4. Ninguém é perfeito. O pós-moderno cria armadilhas para pessoas que outrora tiveram senso crítico. Além do mais, Tom Zé é um dos nomes que fizeram o Tropicalismo, e com o tempo ele acabou sucumbindo ao mesmo deslumbramento com a indústria cultural de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

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  5. mas o Tom Zé é bem menos "vendido" que Caetano e Gil... nem se compara!

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  6. Eu até não sei se Tom Zé está sendo irônico com isso. Eu não sei. Ás vezes tem que se esperar para tudo. Vide Bono Vox com seus negócios milionários e sua fuga do IR britânico... Quase todos os meus antigos heróis do BRock oitentista deram também suas mancadas. Quem imaginaria Dado Villa-Lobos tocando com Chimbinha?

    Nem com a cover do Menudo isso se compara, porque Renato Russo fez uma doce ironia e transformou uma balada chinfrim numa bela canção, sobretudo com o potente vocal do falecido cantor.

    Ainda não tenho uma posição a respeito do Tom Zé. Aquilo que escrevi foi apenas uma hipótese, com base no background artístico do baiano. Mas oficialmente, eu acredito que tenha sido uma ironia. Até que se prove o contrário.

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