domingo, 20 de fevereiro de 2011

CULTURA POPULAR VERSUS "CULTURA POPULAR"


LUIZ GONZAGA, GRAÇAS À MÍDIA, CAIU NO ESQUECIMENTO DO PRÓPRIO POVO.

Por Alexandre Figueiredo

Os comentários recentes que certos internautas fazem sobre a suposta "cultura popular" que é o brega-popularesco preocupam pela sua raiva e pelo reacionarismo retórico que tenta inverter a atribuição da postura elitista, passando da parte deles para a nossa.

O brega-popularesco já começa a sofrer desgaste, mas ele ainda é pequeno. Mas indica a perda de espaços nobres, porque os verdadeiros conhecedores de cultura - gente que não está aí para bajular os "sucessos" do momento - reagiram diante da ameaça da MPB de perder até mesmo os espaços que restam, devido à hegemonia absoluta dos ídolos neo-bregas.

Estes ídolos, que para a MPB seriam como a maioria dos integrantes do Big Brother Brasil em geral é em relação aos atores de cinema, teatro e TV, têm que se contentar com os espaços já conquistados, já que não conseguiram convencer a opinião pública quando "brincavam de fazer MPB" gravando covers em tributos caça-níqueis arranjados pela grande mídia. E que impedia o "povão" de ouvir a MPB autêntica. Afinal, para que ouvir Milton Nascimento e Djavan, se suas músicas são gravadas pelos ídolos neo-bregas...

Num país de transformação de valores, a perda de espaços nobres do brega-popularesco - ou a desqualificação de antigos espaços de vanguarda que ainda insistem em tais atrações, como a Fundição Progresso, o Circo Voador e o festival Rec Beat - , ainda que praticamente restrita ao Sul e Sudeste, já causa pânico naqueles que apoiam essas atrações e veem o declínio de valores e ídolos supostamente associados à cultura do povo pobre.

Só que esse reacionarismo, que parte de internautas ligados a profissionais liberais ou executivos da mídia, mostra como a falta de discernimento é o motor que move o mercado da mídia, e isso vale tanto para a imprensa em si quanto para o âmbito do entretenimento.

O MITO DA "LIBERDADE DE EXPRESSÃO"

O reacionarismo que reclama do declínio dos valores brega-popularescos - sejam os cantores, grupos e duplas neo-bregas, sejam as "boazudas", seja a imprensa jagunça, etc - tem paralelo exato com o reacionarismo da grande imprensa que se enfurece com o declínio dos seus, lá deles, valores sócio-políticos e econômicos.

Em outras palavras, o declínio do Domingão do Faustão é o declínio do Jornal Nacional. O desgaste do Pânico na TV é o desgaste de Bóris Casoy. Não há diferença fundamental entre Chitãozinho & Xororó e Ronaldo Caiado, assim como tanto faz ver Alexandre Pires como José Serra falando com George W. Bush. Pedro Alexandre Sanches não é menos tucano que Henrique Meirelles. O jornal Meia Hora, no fundo, é capanga da revista Veja.

Mas mesmo o reacionarismo paranóico, que não mede palavras para disparar xingações ou comentários furiosos, mostra o quanto a direita dente-de-leite que defende, por exemplo, uma Solange Gomes, não difere em coisa alguma da direitona que defende a privatização das universidades federais, por exemplo.

Afinal, quando eram mais jovens, também Diogo Mainardi, Eliane Catanhêde, Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo e Otávio Frias Filho também eram "inocentes moleques" defendendo valores conservadores que eles atribuíram como "modernos".

Alegações como a "liberdade do corpo", "diversidade cultural", entre outras, são tão vagas e falsas quanto as ideias de "liberdade de imprensa" e "democracia" defendidas pela mídia golpista. E, se na cultura somos "preconceituosos", na política somos "suversivos" e na economia somos "desordeiros".

O VERDADEIRO PRECONCEITO CONTRA O POVO

O que poucos sabem é que os valores tão "sadiamente" associados à cultura das classes populares, na verdade, são visões estereotipadas e, essas sim, preconceituosas, que transformam o povo pobre numa multidão domesticada, ingênua, resignada, patética e caricata.

O temor desses reacionários faz até sentido, porque no Oriente Médio as manifestações de rua, sem qualquer vínculo com entidades ou facções de quem quer que seja, repercutem pelo mundo. Os reflexos que tais manifestações populares podem causar no Brasil podem derrubar vários totens da manipulação da sociedade, de Wagner Montes a Reinaldo Azevedo, de Jader Barbalho a Geraldo Alckmin.

Por isso as vozes alarmistas falam que os opositores do brega-popularesco "sentem nojo de pobre", quando são os alarmistas que sentem nojo. De maneira demagógica, falam que as mulheres-frutas "só têm essa opção" de mostrar o corpo para a mídia, como se isso fosse uma coisa digna. Ou falam que o "pagode romântico" é assim, o "sertanejo" é assado, porque "é o que seus músicos sabem fazer".

Esquecem eles que até mesmo as vedetes do teatro de revista eram muito mais dignas, discretas e respeitosas que as mulheres-frutas, "popozudas" e outras pretensas musas "populares". E que, com toda a certeza, uma Solange Gomes ou Valesca Popozuda da vida nunca iriam aparecer numa lista de Certinhas do Lalau, e sim no Febeapá do mesmo Stanislaw Ponte Preta, se vivo ainda fosse.

PINGOS NOS "ÍS"

A falta de discernimento entre as ideias de cultura popular verdadeira e falsa, na medida em que é desmascarada, enfurece os interessados. Afinal, a mediocridade cultural e a domesticação do povo pobre são mecanismos de controle social que garantem os lucros exorbitantes e o poderio de executivos de mídia, dos empresários do entretenimento e dos políticos e intelectuais associados.

Até o pré-64, tínhamos a prevalência de uma cultura do povo pobre marcada pela qualidade, pela busca do bom senso, mesmo dentro de um quadro de analfabetismo e miséria. O sertão nordestino podia ver surgir uma figura potente como o Rei do Baião, Luíz Gonzaga, de personalidade forte e talento indiscutível.

Lamentavelmente, Gonzagão tornou-se desconhecido da maioria do público pobre atual, e, o que é pior, o baião autêntico tornou-se, ideologicamente, proibido de ser feito pelas classes populares.

Parece um absurdo kafkiano aplicado à nossa realidade, mas o que se vê é que hoje o "som nordestino popular" consiste num engodo caricato que mistura imitações de disco music, country music e ritmos caribenhos mais a sanfona gaúcha. Em contrapartida, o baião autêntico, na prática, tem mais chances de ser feito por universitários de bairros nobres de Curitiba ou Porto Alegre.

Por isso contestar o brega-popularesco tem o mesmo preço da contestação que envolve a grande imprensa. A trilha sonora não existe independente do seu filme, e nem poderia existir contrária a ele.

Os valores machistas das "popozudas", a subordinação musical do brega-popularesco, a imprensa policialesca que não forma cidadãos, mas antes desqualifica o povo pobre, tais valores não podem ser defendidos a pretexto da "saudável defesa dos costumes do nosso povo".

O povo é vítima de uma exploração deturpatória de sua imagem. O brega-popularesco, com seus ídolos, musas, jornalistas, celebridades, destrói a natureza autêntica do povo pobre, que é lutador, é crítico, e que sabe se safar na vida mesmo diante da pobreza e do analfabetismo.

Por trás dessa defesa hipócrita da "cultura popular", está por trás todo o medo das elites de que o povo se desperte e deixe de virar marionete da suposta "mídia popular". Medo que chega ao ponto da paranóia, do pânico, do pavor.

Um comentário:

  1. Já estou me referindo à "cultura popular" como incultura popular. Fiz isso há alguns dias atrás.

    Fico contente em ver o nome do Wagner Montes no meio dos nomes dos picaretas da mídia de massa. Pensei que o blog ficaria a vida toda denunciando só os notórios picaretas a serviço do Partido da Imprensa Golpista. Mas agora o blog se volta também contra os picaretas do Partido da Imprensa Governista (o Grupo Record-IURD e a Caros Amigos não são outra coisa).

    Fiquem aqui meus cumprimentos ao Alexandre.

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