quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

CULTURA POPULAR: OS MAIS JOVENS AINDA PRECISAM APRENDER


JOSÉ RAMOS TINHORÃO: O PESADELO PERSONIFICADO, PARA QUEM ACREDITA NO BREGA-POPULARESCO.

Por Alexandre Figueiredo

Um dos maiores obstáculos para o progresso social do Brasil, e que mostra a persistência dos últimos resíduos do cenário político do pós-64, é a hegemonia do brega-popularesco.

As tendências brega-popularescas são vistas por uma classe média paternalista e etnocêntrica - cujo conceito de "povo" é visto, mesmo sob aparente generosidade, segundo o ponto-de-vista de burocracias acadêmicas ou mesmo os interesses da grande mídia - como a pretensa "verdadeira cultura popular".

Essa classe média, tão "certa" de entender "sem preconceitos" a cultura das classes pobres, chega ao ponto de dar justificativas bastante duvidosas que na prática, avaliam apenas aspectos quatitativos, sobretudo quanto à facilidade de atrair grandes públicos em menos tempo. Uma justificativa que está muito mais próxima de avaliações da teoria neoliberal da Economia.

Essa classe "sem preconceitos" na verdade têm seus preconceitos, embora esteja apressada em mostrar que "têm consciência social" para impressionar amigos ou transformar seus blogues em "fenômenos da Internet". No entanto, a classe está mais preocupada em obter visibilidade, e se indigna quando é contrariada nos seus pontos-de-vista que, muito discutíveis, no entanto são defendidos com radical convicção.

Vemos a diferença de enfoque entre os mais velhos e os mais jovens - sobretudo nascidos depois de 1963 - quanto às contradições referentes à suposta "cultura popular" que está na mídia. Os mais velhos, que conheceram as manifestações culturais mais autênticas de perto, mantém os pés no chão.

Já os mais jovens preferem "tirar os pés do chão", seguindo as ordens da axé-music, um dos estilos do brega-popularesco que defendem. Suas memórias curtas criam uma compreensão da realidade cultural brasileira que soa o mesmo do que entender a nutrição humana pelo ponto de vista de um CEO da McDonald's.

Vejo por exemplo a lucidez de um Benvindo Sequeira comparando a brutalidade "proibidona" do "funk carioca" com a poesia humanista de Chico Buarque e Milton Nascimento.

Vejo a lucidez de Ruy Castro alertando o mal da mediocrização cultural brasileira.

Vejo Mauro Dias, numa sensatez aparentemente cruel mas coerente, prever a hegemonia do brega-popularesco como "um massacre cultural sem precedentes".

Vejo Deoclécio Luz, muito antes de suas polêmicas sobre a Turma da Mônica, dizer, ainda no ocaso da Era FHC, de que não se fará revolução social com o coronelismo musical da suposta "música sertaneja".

Vejo Ricardo Alexandre lamentar a escalada do brega-popularesco rumo à hegemonia já nos anos 90, nos alertando sobre esses ídolos sem vontade própria dominarem o mercado cultural brasileiro.

E vemos o "temível" José Ramos Tinhorão reprovar o "sertanejo" e a axé-music, expressões do mais terrível neoliberalismo musical, enfraquecendo e não enriquecendo nossas raízes culturais. Evitando criar mais polêmicas, Tinhorão não enfatizou suas críticas ao "brega de raiz", ao forró-brega e ao "funk carioca", mas sabemos de sua posição contrária.

Mas os mais velhos nos devolvem à realidade. Nos tiram do sonho dourado. Tiram muitos marmanjões das fantasias sexuais com popozudas funqueiras e com cantoras de forró-brega. Tiram muitos da "paz sem voz" da periferia, quando a classe dominante diz o que o povo deve fazer, o povo faz sem reclamar e todo mundo sorri tolamente na tranquilidade forçada que move as fortunas das elites no nosso país.

Por isso, vivemos a utopia popularesca que ideólogos como Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches (este o astro da temporada) oferecem como um sonho. É muito mais cômodo ver a cultura popular transformada numa sub-Disneylândia da periferia do que lutar contra o analfabetismo e contra os mais delicados problemas resultantes da miséria.

Esse pessoal não conheceu os grandes sambistas, os grandes sanfoneiros, quem se deslumbra com o sonho brega-popularesco foi educado pelo rádio, pela televisão. Os mais jovens, ainda, nem sequer o Vila Sésamo conheceram, foram educados por Xuxa Meneghel e outras babás eletrônicas.

É um pessoal que não conheceu as melhores coisas da vida. Mas pensa que conhece. Acha que, por assistirem muito à televisão e usarem muito a Internet, são dotados da mais sábia inteligência. No entanto, não aprenderam sequer um milésimo do que dizem saber. Tornam-se arrogantes na sua estupidez, na medida em que esta quer ser mais sensata do que a sensatez.

Numa época de anti-intelectualismo, esse pessoal chega até mesmo a desqualificar pensadores, cientistas sociais e jornalistas que não compactuam com o espetáculo popularesco de rádios e TVs e da "visão oficial" que se tem da população da periferia.

Escrevendo mal e pensando pior ainda, querem ser "mais jornalistas" que Leandro Fortes, "mais cientistas políticos" do que Noam Chomsky, mais "antropólogos" que Claude Levi-Strauss. Para eles, os mestres não importam, são desprezíveis. Eles não respeitam os mais velhos, no máximo os toleram com aversão silenciosa só para não prejudicar a boa visibilidade que possuem.

Por isso Pedro Alexandre Sanches, pupilo de Otávio Frias Filho, prefere não criticar José Ramos Tinhorão - que ele, ainda na Folha, entrevistou em 2004 - nem Dioclécio Luz. Prefere se ascender na mídia transmitindo na imprensa esquerdista, sem admitir, conceitos típicos de Roberto Campos e Francis Fukuyama aplicados à cultura brasileira.

Claro, os mais jovens são menos esclarecidos, não digo que todos careçam de esclarecimentos. Até porque, entre eles, aparece um e outro com maior nível de esclarecimento. O problema é o mainstream de internautas, intelectuais e jornalistas que domina na chamada opinião pública é que faz travar todo o debate em torno de cultura popular.

Sem o senso crítico necessário - já que o senso crítico é tido como "anti-social" e até "preconceituoso" - , os menos esclarecidos desprezarão grandes lições, preciosos alertas. Iludidos com o que a grande mídia (apesar de se posarem "críticos" dela - o que mostra o quanto muitos estão nessa de carona) veicula como "oficial", até mesmo os valores retrógrados, quando podem, são vistos como "progressistas". Como o "funk carioca", as popozudas etc.

A falta de esclarecimento também cria arrogantes, porque a pior ignorância é aquela que desqualifica qualquer lição, qualquer questionamento.

Já dá para perceber que o grande filósofo e cientista René Descartes, um dos grandes defensores do senso crítico, teria sido alvo de chacotas numa micareta. Pior: Descartes teria sido linchado num "baile funk". Isso é cidadania e inteligência? De jeito nenhum.

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