segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

COMO SER UM INTELECTUAL ETNOCÊNTRICO


DE ONDE A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA CONSEGUE VER A PERIFERIA? DOS RICOS CONDOMÍNIOS, ASSISTINDO À TV PAGA.

Por Alexandre Figueiredo

Você é pequeno burguês, apreciador da mídia golpista, tem uma visão elitista da sociedade, mas precisa de algo que pudesse lhe fazê-lo ter um destaque na sociedade. Quer ser um intelectual etnocêntrico, que difundisse uma visão politicamente correta de "povo", numa concepção ao mesmo tempo elitista mais generosa, certamente para agradar empregadas domésticas e porteiros de prédio de seu condomínio.

Mas você é de classe abastada, gosta do PiG, se educou muito vendo a Rede Globo e lendo a Folha de São Paulo (se você é jornalista, acrescenta-se ao termo "lendo" o termo "fazendo") e quer ser admirado até mesmo pela mídia esquerdista.

Você nunca viu de perto a periferia, a não ser em pequenos comércios nas ruas de sua cidade, ou através de alguns empregados que trabalham no seu condomínio. Mas quer ser considerado entendedor da periferia. E agora?

Certamente, há um manual básico sobre como ser um intelectual etnocêntrico, que o fará badalado e tratado como se fosse um semi-deus. Pode escrever a besteira que for, que a essas alturas seu blog estará lincado com muitos outros blogues bacanas e você atingiu uma reputação que anula qualquer crítica.

COMO SER UM INTELECTUAL ETNOCÊNTRICO

1) Tenha alguma experiência como intelectual ou como jornalista.

2) Tenha bons contatos na imprensa e/ou na faculdade onde se graduou e pretende fazer pós-graduação.

3) Tenha algum conhecimento de pesquisa que o faça entender a história da cultura popular, através de uma bibliografia selecionada.

4) Faça boas amizades entre músicos e celebridades.

5) Veja documentários sobre periferia na televisão paga, para que tenha uma noção básica, ainda que distanciada, do povo pobre.

6) Tenha um conhecimento básico, ainda que superficial, do pensamento de esquerda, ainda que seja por intermédio de antigas entrevistas de Caetano Veloso.

7) Tenha espírito conciliador, que o faça um dia ser astro da mídia conservadora, e, noutro, um verdadeiro penetra na festa midiática da esquerda.

8) Escreva um discurso envolvente, ainda que cometa desinformações no meio do caminho, como dizer que a MPB dos anos 60 hoje só aparece em Caras ou na Rede TV!.

9) De vez em quando, brinque com frases de MPB para intitular alguns artigos. Como transformar a música de Belchior, "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais", em pergunta, ou usar o primeiro verso de "Brasil Pandeiro", de Assis Valente, "Está na hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor", como um dos títulos de seu artigo.

10) Ponha, mesmo que seja como palavras soltas, alguns clichês da retórica esquerdista em seu artigo. Como citar as palavras-chave "Che Guevara" e "reforma agrária", que poderão ser pesquisadas junto com o nome de você na busca do Google. E faça comentários, ainda que forçados, contra a mídia golpista, tipo "Nunca a Globo promoveu tanto aquele sucesso das rádios paraenses", nada muito sérios, mas o suficiente para deixar o leitor esquerdista médio feliz.

Pronto. Você já tem um conhecimento básico que o faça ter penetração na mídia de esquerda. Sua compreensão elitista das classes pobres ganhou um verniz politicamente correto e supostamente generoso, suficiente para ver o "outro" de forma paternalista e cordial.

Você tem formação direitista, mas tem contatos que o façam circular pela intelectualidade de esquerda como se fizesse parte delas. E, mesmo com vários equívocos informativos, você tem um discurso envolvente que possa se tornar queridinho entre os leitores em geral e ver o seu blog lincado em uma porção de blogues bacanas e bastante visitados.

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