segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

BREGA-POPULARESCO TAPA O SOL COM A PENEIRA


AXÉ-MUSIC E COMÍCIO DO PSDB: TUDO A VER.

Por Alexandre Figueiredo

Durante muito tempo, a suposta "cultura popular" do brega-popularesco se promoveu, cresceu e se consolidou sob o apoio, muitas vezes direto, de cenários político-midiáticos conservadores.

Um dos marcos que pouco se discute, mas que é um dos fatos decisivos e evidentes, é a concessão de rádios FM dada por fins politiqueiros pelo então presidente da República, José Sarney, e seu ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.

Isso influiu no crescimento das rádios popularescas e definiu o mapa de "cultura popular" que hoje tão cinicamente se atribui às periferias de nosso país.

Os defensores, sejam nos argumentos que eles ainda podem utilizar, diante de uma opinião pública deslumbrada e pouco esclarecida - surpreende negativamente a visibilidade que ronda nomes como Hermano Vianna, Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches, propagandistas do establishment musical brasileiro - , sejam nas demonstrações de irritabilidade que eventualmente expressam (como muitos internautas), fazem vista grossa para as relações de poder que, historicamente, envolve a música brega e todos os seus derivados, incluindo a axé-music e o "funk carioca".

Isso porque o sucesso comercial dessas tendências, de valor artístico duvidoso, se deveu sempre aos pesados investimentos do empresariado que sempre está por trás de seus ídolos e que certamente nunca poderiam ser confundidos com o público pobre comumente associado a tais ídolos e tendências.

Afinal, empresários de "aparelhagens" do tecnobrega, os DJs-empresários de "funk carioca", os empresários de blocos de axé-music na Bahia, os empresários que sustentam os medalhões do "pagode romântico" e do "sertanejo" e mesmo os donos de rádios FM que promovem esses sucessos, todos eles, e mesmo os donos de serviços de auto-falantes e de "pequenas" gravadoras que lançam ídolos emergentes, todos eles já constituem numa oligarquia que sempre apoiou o poderio político de suas regiões.

Ignorar tal realidade e creditar, por exemplo, um poderoso empresário de forró-brega, praticamente "dono" do conjunto que ele sustenta, incluindo a propriedade intelectual do nome desse conjunto, como se esse indivíduo fosse "tão pobre" quanto um vendedor de feira livre, é uma incoerência absurda. É tapar o sol com a peneira diante de uma realidade que salta aos olhos.

E as primeiras apresentações de grupos de forró-brega e cantores "sertanejos", muitas vezes, ocorrem em eventos patrocinados por deputados estaduais ligados ao poder oligárquico, gente que assumidamente integra ou apoia a bancada ruralista do Congresso Nacional, que vota sempre com os coronéis do latifúndio.

Mas se percebermos muito bem, até mesmo os "modernos" empresários da axé-music e do "funk carioca" estão longe de se confundirem, como classe, com as populações pobres que lhes servem de plateia, uma vez que tal empresariado - que, evidentemente, evita o máximo possível aparecer vestindo terno e gravata, o típico uniforme empresarial - possui até mesmo grandes propriedades de terras, agindo como verdadeiros latifundiários no interior de seus respectivos Estados.

Mesmo a banda Chiclete Com Banana, um dos ícones famosos da axé-music, é em si mesma um grupo de grandes magnatas, empresários de si mesmos, proprietários de muitos apartamentos de luxo (em um dos edifícios, eles são donos de um andar inteiro) e Bell Marques é um dos grandes fazendeiros da Bahia, tendo havido uma reportagem na revista Contigo (do grupo Abril), que apoia explicitamente a axé-music, prova do respaldo da mídia golpista às tendências brega-popularescas.

Por isso, se não faz sentido algum separar o carlismo, a "doutrina" política de Antônio Carlos Magalhães, com a axé-music, como queriam certos incautos, também não faz sentido separá-la do coronelismo baiano e das relações com a mídia golpista, que são muito mais do que explícitas. Até porque praticamente TODOS os grandes donos do rádio baiano apoiam claramente os interesses do latifúndio, até porque vários deles também são latifundiários.

Na dita "música sertaneja", a associação de seus ídolos com os latifundiários, sobretudo com a UDR e suas estrelas, o deputado federal Ronaldo Caiado e a senadora Kátia Abreu, é explícita e foi assumida em outras instâncias, mas ultimamente ela não é desmentida nem admitida, mas o que se nota é que dissociar uma e outra é tarefa praticamente impossível. Daí o silêncio.

Os defensores do brega-popularesco são incapazes de desmentir essa associação. Tentam fazer vista grossa. No máximo, dizem vagamente que "isso nada tem a ver". Com medo, se limitam a dizer que "não se deve misturar música com política", para proteger os privilégios políticos e econômicos que os barões do entretenimento obtém através dessa "verdadeira (sic) cultura popular".

Tentam não somente minimizar a mercantilização quase absoluta da "cultura popular" como fazem até mesmo a defesa de seus princípios. Parecem secretários de cultura de governos demotucanos. Mas, com cínica hipocrisia, ainda querem se passar por "progressistas", só por causa do cenário político corrente.

Enfim, é um rol de mentiras, de meias-verdades, de omissões que escondem as relações de poder que estão por trás do brega-popularesco. A irritabilidade de certos adeptos, na Internet, também mostra, na verdade, que o que eles defendem não é o suposto zelo de um "patrimônio cultural do povo", mas o faturamento do empresariado associado, que declina na medida em que as tendências popularescas se desgastam.

Isso ocorre porque a irritabilidade é a reação do medo, e quem deve teme. Quem defende a verdadeira cultura popular - não é o caso dessa moçada de pavio bem curto - não iria reagir com uma fúria suspeita e reacionária.

Até porque a verdadeira cultura popular, hoje, está à margem de qualquer mídia (não confundir isso com a demagogia pretensamente "sem mídia" que de forma mentirosa cerca o "funk" e o tecnobrega), condenada a ser peça de museu ou ao usufruto restritivo de alguns intelectuais discretos e generosos.

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