sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

BREGA-POPULARESCO: RETÓRICA NÃO VALEU


TECNOBREGA - NEM NO PARÁ O RITMO DEIXOU DE RECEBER O APOIO DOS BARÕES DA MÍDIA GOLPISTA.

Por Alexandre Figueiredo

Há dez anos, prevalece nos meios intelectuais e nos espaços culturais da grande mídia um discurso condescendente a um tipo de "cultura popular", ou ao menos de "música popular" marcado pela mediocridade, pelo comercialismo e pelo tendenciosismo.

É a ideologia brega-popularesca, a moderna "cultura do cabresto" composta por cantores, duplas e grupos bregas e neo-bregas, imprensa fofoqueira ou policialesca, musas "popozudas" e humorismo malicioso cheio de bordões e grosserias.

Durante uma década, esse tipo ao mesmo tempo caricato e preconceituoso de "cultura popular" foi defendido por críticos musicais, intelectuais e celebridades como se fosse "a verdadeira cultura popular", num padrão retórico engenhoso, que invertesse o tom preconceituoso e paternalista atribuindo como "preconceituosos" e "paternalistas" quaisquer posicionamento contrário a esses subprodutos da indústria cultural brasileira.

Essa retórica era desenvolvida em teses acadêmicas, ensaios também acadêmicos, resenhas jornalísticas, documentários, reportagens de TV, cinebiografias, especiais na TV paga e tudo o mais. É uma retórica que, da imaginação fértil de seus autores, evocava referenciais que inexistem, na prática, nos fenômenos brega-popularescos, variando do modernismo de 1922 ao punk rock inglês de 1976.

São três tipos gerais de música brega-popularesca.

O mais antigo, "de raiz", que vai de Waldick Soriano a Gretchen, passando por Odair José, Paulo Sérgio, Benito di Paula. Predomina a perspectiva entreguista, como se fosse uma tradução musical do modelo econômico de Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões.

Há o pretensamente sofisticado, o "brega light", uma facção do neo-brega representado, a partir dos anos 80, não só pela fábrica de sucessos de Michael Sullivan & Paulo Massadas, mas também em tendências que podem se tornar "simulacros de MPB", como o "sertanejo", o "pagode romântico" e a axé-music, através de cantores, grupos e duplas surgidos desde 1985 e sobretudo nos anos 90.

E há o neo-brega mais grotesco, "rudimentar", representado pelo "funk carioca", porno-pagode baiano, forró-brega (ou "forró eletrônico", oxente-music e forró-calcinha), arrocha, tchê-music e outros, que se valem de um perfil estético, musical e espetacular "polêmicos".

O brega-popularesco esteve no auge do sucesso entre 1990 e 1997, quando vieram reações da crítica e do público mais intelectualizado. Independentemente do plano ideológico, nomes como Mauro Dias, Arnaldo Jabor, Ruy Castro, Dioclécio Luz, José Arbex Jr., Artur Dapieve (que depois virou a casaca) e outros passaram a reprovar essa evidente queda de qualidade dessa "cultura popular".

Eram vozes preocupadas com a decadência da música brasileira e dos "valores culturais" a ela associados, simbolizados por dançarinas de porno-pagode, apresentadores de "telejornais" policialescos, humoristas sem graça mais preocupados com piadas de duplo sentido e celebridades que só saem para noitadas, sem qualquer outra preocupação relevante na vida.

O DISCURSO QUE ENGANOU A ESQUERDA

O discurso de defesa do brega-popularesco se sucedeu à onda revoltosa contra a queda de qualidade exercida por essa pseudo-cultura "popular". O jabaculê musical, cada vez mais perdendo espaço no rádio FM - que, como uma verdadeira "Feira de Acari" radiofônica, fechou seus ouvidos ao público ouvinte através de uma gororoba que reúne sobretudo o pior do radialismo jovem e até da programação tipo "rádio AM".

Por isso os programadores de rádio FM foram, aos poucos, deixados para segundo plano, enquanto a indústria jabazeira se servia de antropólogos, historiadores e sociólogos que criassem um discurso que defendesse o brega-popularesco da decadência.

De artigos de jornais a documentários, de teses acadêmicas a reportagens de TV, tudo foi feito para defender do supostamente tradicional "sertanejo" (ou breganejo) ao supostamente arrojado "funk carioca".

Lançando mão de uma retórica dotada de muito etnocentrismo, no fundo uma campanha para manter o povo na imobilidade social pelo entretenimento ditado pela grande mídia, os intelectuais faziam um discurso confuso, nem sempre dotado de coerência nem de objetividade, mas que era feito de forma convincente, sobretudo pela visibilidade com que certos autores passaram a ter na opinião pública, forjando-lhes um prestígio quase inabalável.

Tudo era feito para defender o brega-popularesco: até mesmo recursos obtidos da História das Mentalidades (abordagem histórica que enfatiza fatos e atividades relacionadas ao povo) e do New Journalism (narrativa jornalística em que reportagens são feitas em linguagem de romances literários) eram adotados.

Comparações das mais insólitas também eram feitas, como atribuir o modernismo de 1922 como influência do tecnobrega - tão risível quanto atribuir a revolta dos jacobinos na França de 1789 como influência para os membros do Big Brother Brasil - ou atribuir um falso feminismo para as funqueiras, só porque elas falam mal dos homens.

As caraterísticas básicas da retórica de defesa ao brega-popularesco são essas:

1) MARKETING DA REJEIÇÃO - Consiste em dar ênfase à rejeição que determinado ídolo ou personalidade recebem, como se fosse um meio, por sinal tendencioso, de fazer com que o suposto "injustiçado" seja levado a sério pela intelectualidade. É uma publicidade estranha, que tenta medir o valor de um ídolo ou personalidade pela rejeição que ele recebe da sociedade "tradicionalista".

2) EXPLORAÇÃO EXCESSIVA DA PALAVRA "PRECONCEITO" - Como elemento-chave do marketing da rejeição, usa-se a palavra "preconceito" como forma de explorar a imagem de "injustiçados" de ídolos ou personalidades que já fazem sucesso entre o grande público. Em certos casos, dizer de onde parte esse "preconceito" pode variar em quantidade ou posição social, indo de uma suposta intelectualidade "academicista" até supostos grupos sociais conservadores. Ou de uma minoria de críticos musicais ou de uma maioria de pessoas numa plateia de um evento mais credenciado.

3) ASSOCIAÇÃO À "PERIFERIA" - Pode ser um grupo de forró-brega ou porno-pagode inventados por um empresário, que controla todos os passos de cada grupo muitas vezes com mão de ferro, que a discurseria intelectual sempre vai atrubuir tais tendências como "expressões legítimas da periferia". Uma associação que pode ser formal, pela origem pobre de muitos cantores ou dançarinos, mas que não pode ser levada a sério, até porque se trata de músicas mercadológicas, cuja concepção é combinada nos escritórios das empresas de entretenimento.

4) FALSAS ALUSÕES SOCIOLÓGICAS - Outra manobra é atribuir todo esse espetáculo mercadológico como se fosse "o novo folclore brasileiro". Dessa maneira, atribui-se como "movimento social" o ato passivo de uma simples ida para um clube noturno do subúrbio (controlado por um grande empresário local), para consumir os "sucessos populares" do momento.

5) GLAMURIZAÇÃO DA MISÉRIA - A campanha pró-popularesco também chega à ostentação pura e simples da miséria, fazendo a tal "cosmética da fome", enfatizando demais o fato de que determinadas funqueiras, por exemplo, foram domésticas ou lavadeiras, ou que os ídolos breganejos eram plantadores de milho no passado. Ou então um ídolo, em pleno auge da carreira, dizer, com mal disfarçada vaidade, que já passou fome no começo de carreira. Casas de parentes de ídolos popularescos, geralmente barracos ou casas situadas em subúrbios, eram ostentadas com a presunção de celebridades exibindo suas mansões em Caras.

INCOERÊNCIAS DO DISCURSO

Evidentemente, o discurso vale mais por tocar no ponto fraco de uma classe média complexada, querendo disfarçar o máximo seus preconceitos elitistas, do que por uma suposta objetividade ou pretenso realismo.

Por isso o discurso valeu mais pela verossimilhança, mas não pela visão coerente. Nem sequer significou a reabilitação do brega-popularesco como um "novo folclore popular". Pelo contrário, a campanha significou uma propaganda oportunista, hipócrita, que apenas fez prolongar por alguns anos o sucesso comercial dos ídolos popularescos.

Mas isso nem de longe significa que haverá garantia de posteridade para esses ídolos ou para seus valores e tendências.

Primeiro, porque no aspecto comportamental, uma "cultura popular" que se baseia mais no mero consumismo (sobretudo de bebidas alcoólicas), na mera subordinação à indústria cultural, na domesticação das classes populares, no culto ao "deus mercado", na ridicularização da imagem do povo pobre (que, numa desculpa politicamente correta, apenas evoca "sua alegria") e nos baixos valores morais e sociais, não deve ser legitimada como autêntica.

Primeiro porque, diante de uma exploração do sexo e do lazer que soam agressivos até para as mentes mais liberais, essa "cultura popular" nada contribui na produção de conhecimento e de valores que permitam a evolução social das classes pobres.

É o caso do "funk carioca", onde há a pornografia exagerada, com ênfase na pedofilia mais escancarada, e letras que estimulam o banditismo ou que, na "melhor" das hipóteses,

Segundo, porque, no atual estágio do brega-popularesco, em que ídolos chegam a gravar sucessivos discos ao vivo, a máscara cai quando essa "cultura", tida como "viva e atuante", se acanha, depois do auge do sucesso, em produções cada vez menos autorais, num imobilismo que contraria o que seus defensores dizem.

Afinal, os "grandes criadores" da música "sempre viva e evolutiva", no momento em que deveriam provar mais como autores em evolução, acabam mostrando o que realmente são, meros crooners de luxo que só gravam covers, regravam velhos sucessos e apenas fazem às pressas novas músicas para atender às demandas das rádios.

Como também não valeu vender as "popozudas" como "feministas" nem fantasiá-las de Betty Boop ou Marilyn Monroe, nem vender o telejornalismo policialesco como "jornalismo verdade". O imaginário brega-popularesco é a retaguarda da cultura brasileira, não pode ser a vanguarda, porque sua ligação com os valores retrógrados é explícita.

Por isso, não valeu essa campanha retórica que, sobretudo, tentou vender o "funk carioca" e o tecnobrega como "vanguarda". Tanto se falou que tais tendências estavam "fora da mídia" que elas entraram na mídia golpista pela porta da frente, o que dá mostra dos interesses escusos que estão por trás.

Por enquanto, os defensores do brega-popularesco conseguem convencer com esse discurso por conta da visibilidade que possuem. Não houve até agora alguém com a visibilidade dos "semideuses" Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches, entre outros, para questionar com energia seus pontos de vista.

Mas, diante do desgaste que o brega-popularesco, com toda a campanha favorável que possui, pessoas com visibilidade para questionar a campanha pró-brega podem surgir a qualquer momento. Até pelo descontentamento do povo quanto a funqueiros, forrozeiros-bregas e tecnobregas que, por sua hegemonia, sufocam as tradições regionais antes existentes.

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