quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

TRANSPORTE DE CURITIBA: DESGASTE DE UM MODELO CRIADO PELA DITADURA MILITAR


DITADURA MILITAR SOBRE RODAS - Modelo tecnocrático do transporte coletivo de Curitiba está desgastado e decadente, mas resiste.

Por Alexandre Figueiredo

O tendenciosismo político-ideológico de certas forças sociais faz com que valores retrógrados, tradicionalmente vinculados à ditadura militar ou a governos conservadores como os dos Fernandos, Collor e Henrique Cardoso, prevaleçam até mesmo sob o verniz da esquerda.

São valores que, no entanto, não vão contra os interesses do PSDB, do DEM ou das forças reacionárias que volta e meia assombram nosso país, e que, em muitos aspectos, deixariam o falecido Roberto Campos muito orgulhoso.

É sabido o caso da cultura, já que a hegemonia brega-popularesca tramada pela ditadura militar e reforçada pelos governos dos Fernandos. Mesmo com uma base de apoio bastante conservadora, a suposta "cultura popular" que rola nas rádios FM, na TV aberta e na imprensa policialesca-fofoqueira tenta se passar por "progressista" por mil pretextos, tão persistentes quanto falsos.

Mas a busologia também tenta vender valores retrógrados como "progressistas", como o lobo mau da história de Chapeuzinho Vermelho que se disfarça de vovozinha.

Diante da péssima repercussão do projeto de transporte coletivo imposto pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes - político originário do PSDB e famoso por defender e adotar medidas de cunho elitista e anti-social - , ancorado pela padronização visual dos ônibus (que coloca empresas diferentes com um mesmo visual, confundindo os passageiros, sobretudo das camadas mais pobres), esse projeto também mostra desgaste em São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte, onde muitos acidentes, protestos de passageiros, greves de rodoviários mostram o que há de mais óbvio: o desgaste de um modelo lançado pela ditadura militar.

Pois esse modelo, baseado numa hipotética supersecretaria de Transportes, na padronização visual, no poder concentrado do Estado e outros princípios de ordem político-tecnocrática, se encontra em avançado desgaste, até mesmo na sua cidade de origem, Curitiba. Isso apesar do mesmo modelo ser vendido como "novidade" no Rio de Janeiro.

Isso porque ele foi lançado pela ditadura militar, numa lógica que tem mais a ver com a mentalidade do regime. Ele foi implantado por Jaime Lerner, enquanto prefeito de Curitiba, em 1974, auge do período ditatorial (nessa época se intensificaram as perseguições, prisões, torturas e mortes de acusados de envolvimento com ações contra o regime militar).

Vendo o jeito bonachão de Jaime Lerner e sua filiação tendenciosa ao PSB, ninguém tem ideia do quanto o arquiteto e ex-político prestou de serviços para a direita que tão abertamente apoiou o regime militar, incluindo o Golpe de 1964 e o AI-5.

Udenista durante a juventude, aluno da Universidade Federal do Paraná enquanto comandada pelo reitor Flávio Suplicy de Lacerda, depois ministro da Educação do regime militar e artífice do acordo MEC-USAID (pivô da revolta estudantil dos anos 60), Lerner era vinculado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA), quando iniciou sua carreira política.

O que significa que Jaime Lerner era do partidão da ditadura militar, quando implantou seu modelo "moderno" para o transporte coletivo. Lerner chegou a fazer parte do DEM, mas entrou no PSB como mero disfarce ideológico, para não assustar investidores estrangeiros nem autoridades interessadas.

A conduta política de Lerner, como prefeito e governador paranaense, entre outros cargos, é digna do mais ferrenho defensor do neoliberalismo. Se na busologia e no setor de transportes e urbanismo em geral, Lerner nem sempre é reconhecido como notório direitista, em outros aspectos o arquiteto demonstra claras ideias neoliberais, sendo tão privatista quanto José Serra e inclinado a medidas anti-populares voltadas para as elites.

Mas, numa observação cautelosa porém não muito difícil, Jaime Lerner pode ser definido, com toda a segurança, como uma versão busóloga do economista Roberto Campos, pois as analogias são exatamente afins entre um e outro.

O modelo "moderno" de Lerner, tão "moderno" quanto o jornalismo do "Projeto Folha" da Folha de São Paulo, hoje reconhecido como um periódico retrógrado e colaborador da ditadura militar e suas forças hoje remanescentes, se define por medidas anti-populares e por uma disciplina estatal ao mesmo tempo rigorosa demais e ineficiente, que no entanto também envolve o poderio da iniciativa privada, que perde o poder para operar linhas de ônibus de forma autônoma, mas ganha poder até para eleger seus candidatos próprios e demolir comunidades populares para construção das chamadas "pistas exclusivas" para ônibus.

O projeto consiste em uma empresa paraestatal, controlada pela Secretaria de Transportes (municipal ou metropolitana), que reúne todas as empresas particulares, reduzidas a meras sócias e sustentadoras do esquema. O padrão visual é ao mesmo tempo uma propaganda política do poder controlador e um indicativo do controle paraestatal através de termos como "Metropolitano" ou "Cidade tal".

Medidas impopulares como redução de ônibus em circulação, são adotadas. Há também as renovações de frota decididas pela prefeitura, que prolonga até demais a vida útil dos veículos, demorando em renovações cada vez mais raras e tendenciosas, como meros rituais propagandísticos. A livre iniciativa, mesmo em seus pontos mais positivos, é eliminada, enquanto o poder político, concentrado nas linhas de ônibus, torna o transporte mais complicado e oneroso de se administrar.

Por isso há o desgaste avançado do transporte. A utopia do rigor administrativo das secretarias de transporte torna-se algo impraticável, e a cada defeito seus responsáveis tentam jogar a culpa uns nos outros, e atribuir os problemas a pequenos deslizes, quando o modelo está desgastado, ineficaz, além de ser politiqueiro e anti-democrático.

Seria muito longo dizer quais os deslizes que acontecem em Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e, agora, no Rio de Janeiro, que fazem o transporte coletivo não raro sucumbir ao colapso e à corrupção. Mas isso mostra o quanto o modelo que ainda se vende como "futurista" e que ainda tem a pretensão de se mostrar para autoridades esportivas nos próximos anos, está decadente, velho, ineficaz.

Além do mais, um país que extingue bancos públicos estaduais e que não tem tradição de valorizar a saúde e educação públicas em detrimento de suas formas privadas, não pode perder tempo concentrando seu poder no transporte, apenas com as contas pagas pelas empresas particulares. Isso se torna um elefante branco, que irrita os passageiros e em nenhum momento contribui para o real interesse público nas políticas de transporte coletivo.

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