quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

REDE GLOBO TENTOU "EMEPEBIZAR" A MÚSICA BREGA


MICHAEL SULLIVAN & PAULO MASSADAS - O PiG queria "lapidar" a música brega para ganhar o apoio da classe média na domesticação das classes populares.

Por Alexandre Figueiredo

A música brega tem seu histórico ligado às emissoras de rádio AM controladas por oligarquias latifundiárias do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e difundidas por grupos oligárquicos ligados a lojas de departamentos sediadas em São Paulo.

Por mais que o badalado mas discutível Paulo César Araújo - o queridinho da classe média pseudo-moderna e pseudíssimo-progressista - tente negar em lágrimas de crocodilo, a música brega foi respaldada, sim, pela ditadura militar, e foi tocada pelas rádios que apoiaram claramente o regime, além dos próprios ídolos terem adotado posturas claramente direitistas.

Não dá para mudar a História, mas talvez dê pra ocultar o lado direitista de Waldick Soriano, por exemplo. Mas não dá para esconder os fatos por muito tempo, e já não faz sentido insistir que o brega e todos os seus derivados que compõem a música brega-popularesca - ou Música de Cabresto Brasileira - hoje são discriminados pela grande mídia, porque esta praticamente se comportou como uma verdadeira mãe para seus ídolos. E até agora, ninguém enche a barriga porque apareceu num vídeo no YouTube.

Associar o envolvimento do brega-popularesco à grande mídia não é difícil. É até fácil, por mais que incomodem os intelectuais "paçoqueiros", os blogueiros-patolinos e outros da fauna pseudo-progressista que formam uma "panelinha" à parte.

Mostramos isso em outras ocasiões, mas hoje falaremos apenas da Rede Globo. Sim, a vedete do maior império midiático do Brasil, as Organizações Globo, aliada da ditadura militar e de outros movimentos calcados no neoliberalismo, principalmente na última campanha demotucana à Presidência da República.

Pois hoje o culto à memória curta tenta insistir que o brega-popularesco está fora da mídia, a ponto de intelectuais etnocêntricos se sentirem ofendidos com qualquer associação de seus ídolos à mídia golpista, apesar da realidade gritante em que até o mundo mineral e o reino fungi sabem dessa associação.

Mas, nos anos 80, os grãos-coronéis José Sarney e Antônio Carlos Magalhães distribuíram rádios FM para seus amiguinhos, contribuindo para o crescimento quase absoluto da música brega-popularesca - afinal, 90% das chamadas "rádios do povão", para quem não sabe, são controladas por oligarquias regionais, coisa que um etnólogo ou crítico musical badalados não podem desmentir, se até uma criança de cinco anos pode estar a par dessa realidade mostrada a olhos vistos.

A Rede Globo também estava assim com Sarney e ACM, sobretudo no caso NEC - que Roberto Marinho recebeu em 1987 do Governo Federal, de presente, como sócio acionário - , que por sua vez resultou na troca de representação da Rede Globo na Bahia, saindo do Grupo Aratu de Joaci Góes para a atual Rede Bahia dos hoje herdeiros de ACM.

E a Rede Globo que sonegou durante um bom tempo a reportar os movimentos de redemocratização do Brasil - que, podem garantir, não contava com qualquer ídolo da música cafona nos palanques nem sequer nas ruas, praças, largos ou vales - é a mesma que recrutou os músicos Michael Sullivan e Paulo Massadas para dar um verniz de luxo na música brega que tomava conta das regiões controladas pelo coronelismo regional do país.

Sullivan e Massadas tornaram, assim, para a música brasileira, o equivalente, ainda que tardio, da dupla economista Roberto Campos e Otávio Bulhões, nos primórdios da ditadura militar. Sullivan e Massadas tentaram subordinar a música brasileira ao neoliberalismo, juntando tanto a música brega original quanto a forma pasteurizada da MPB do final dos anos 70 (quando a MPB autêntica subordinou-se a regras de mercado impostas pela indústria fonográfica).

Dessa forma, Michael Sullivan, ex-Fevers, e Paulo Massadas, ex-Lafaiette & Seu Conjunto, tiveram a missão de transformar a música brega - que, regionalmente, já havia forjado sua brasilidade com o sambão-jóia da Era Médici e nas tendências "regionais" do Norte e Nordeste, além da diluição gradual da música caipira - em algo "digerível" para a classe média, em algo "acessível" a toda a família.

Não precisamos dizer quais os cantores e grupos que participaram do esquema de Sullivan & Massadas e seu jabaculê de luxo. Incluiu desde cantores de MPB autêntica cooptados pelas regras do mercado até ídolos bregas esquecidos. A assinatura "Michael Sullivan - Paulo Massadas" assustava e fazia qualquer apreciador sério de música brasileira boicotar o disco com uma faixa composta pela dupla.

Mas o sucesso de Sullivan e Massadas foi decisivo para efetivar a domesticação das classes populares, e estimulou todo o inconsciente coletivo que permitiu a vitória eleitoral de Fernando Collor de Mello. Além do mais, a dupla de compositores era presença obrigatória no cardápio das "rádios do povão" que, em sua maioria esmagadora, foram apadrinhadas por Sarney e ACM na sua farra de concessões.

Não bastasse isso, foram Sullivan e Massadas a influência direta das tendências do brega-popularesco que vieram depois, principalmente o "pagode romântico" (sambrega), o "sertanejo" (breganejo) e a geração da axé-music dos anos 90.

MEMÓRIA CURTA - É de assustar que hoje ainda prevalece o fenômeno da "memória curta", com o agravante de que parte de uma intelectualidade muito badalada é que comete mais uma traição à verdade histórica.

Não se sabe se é para rir ou chorar, mas é coisa digna de um Febeapá. Assim como Waldick Soriano é agora promovido a "subversivo esquerdista", quando seu passado direitista, para quem o conheceu, era muito mais do que explícito, Michael Sullivan, durante muitos anos o protegido das Organizações Globo e o todo-poderoso do mercado fonográfico mais influente, agora é visto como "injustiçado", "discriminado pela mídia".

Quem viveu os tempos de Sullivan e Massadas sabe muito bem que isso não é verdade. Esse papo de que Sullivan é "artista injustiçado" é conversa de burguês inseguro querendo agradar a empregada doméstica. E sabemos que há gente assim escrevendo blogs, fingindo odiar o PiG, porque precisa agradar também o cientista social para ele clonar o linque do blog burguês.

Afinal, vivemos o auge do politicamente correto. A classe média agora elogia os "sucessos do povão" com medo de desagradar o povo pobre. Sem saber que o povo pobre é vítima dessa "cultura popular de mercado", cujos valores neoliberais, fundamentados na domesticação das classes pobres, servem ao enriquecimento das elites através do entretenimento.

Pois não adianta maquiar a música brega, transformando-a numa "MPB de mentirinha", porque isso não resolve o comercialismo que tomou conta da MPB autêntica no final dos anos 70.

Pelo contrário, é essa fase da MPB a fonte de pretensas mudanças artísticas de "sertanejos", "pagodeiros", axézeiros e qualquer outro neo-brega que tente bancar "artista sério". Com a visão esquizofrênica de que, para serem "cultura popular de verdade", eles têm que apelar para muita pompa, muito luxo, como se a burguesia lhe pudesse dar atestado de qualidade.

Cá para nós, isso nada tem a ver com a verdadeira cultura popular.

Um comentário:

  1. Puxa, Alexandre. Procure por aí a imagem de um LP-coletânea da Som Livre lançado há uns 20 anos atrás, com capa azul e músicas de Sullivan & Massadas. Ou então procure o LP original, pra tirar uma foto da capa. Não era um LP da dupla, tanto que nem tinha foto deles. Era um LP de músicas compostas por eles mas gravadas por intérpretes diversos, como os emepebistas Tim Maia, Fagner, Gal Costa e Sandra de Sá, e representantes da Música de Cabresto, como José Augusto e Chitãozinho & Xororó. Você poderá escrever um artigo só sobre esse LP.

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