quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

REACIONARISMO ATRAPALHA O PROGRESSO DO BRASIL


NADA COMO UM PHOTOSHOP PARA A "GALERA" REAÇA TRANSFORMAR SEU ÍDOLO CABO ANSELMO NUM FALSO GUEVARISTA.

Por Alexandre Figueiredo

O Brasil é um país emergente. Mas é escravo e refém das forças sociais do atraso, que geram hordas de reacionários que, em diversas instâncias de nossa História, tentaram pôr a perder muitas iniciativas em prol do progresso social de nosso país. E, em várias ocasiões, conseguiram.

O que tem em comum os escravagistas do século XIX, os golpistas de 1954-1968 e os defensores da "cultura" brega de hoje em dia? Simples. Todos eles se fundamentam num conservadorismo de interesses e privilégios, da prevalência de valores retrógrados que, na visão deles, garante o que eles chamam de "equilíbrio social" mas que o músico Marcelo Yuka descreveu sabiamente como "paz sem voz", quando ele era integrante da banda O Rappa.

O reacionarismo escravagista do século XIX chegava ao ponto de desafiar a intensa pressão da Grã-Bretanha para extinguir o regime escravo brasileiro. Sabemos que a pressão britânica estava longe de ser humanitária, até porque a marinha do Reino Unido era ordenada a bombardear navios negreiros, com escravos junto, para reprimir o tráfico escravo.

Em todo caso, o atraso escravagista num mundo que, então, conhecia os primeiros surtos de industrialização e o nascer da teoria marxista, era combatido com muita dificuldade pelos militantes abolicionistas.

A extinção do trabalho escravo era uma ideia cogitada já em 1823 por José Bonifácio de Andrada e Silva, mas somente em 1888 foi efetivada a abolição, mas de forma bem precária, sem que um programa sério, forte e permanente de reinclusão educacional e profissional dos escravos libertos, além da detenção de escravos vingativos (que anunciavam querer exterminar os brancos).

O poder político brasileiro, seja proposital ou acidentalmente conforme as circunstâncias, acabou por fazer desenvolver-se uma classe pobre cheia de infortúnios, já que a política orbitava no jogo pessoal das elites, que não gostaram da abolição, porque queriam ser indenizados pela iniciativa.

CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS É COISA ANTIGA

Ao longo do século XX, o lazer dos pobres era visto como caso de polícia. Assim como as manifestações de trabalhadores. Falava-se que "a questão social era um caso de polícia", e não só no Brasil como no mundo inteiro os trabalhadores protestaram contra as péssimas condições de vida do sistema capitalista emergente. O dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher, surgiu em memória a muitas tragédias que vitimaram mulheres operárias em várias partes do mundo.

A efetivação de várias conquistas sociais, ao longo das décadas, encontrou muitas barreiras, e elas se davam não somente no poderio político propriamente dito, mas na sua base social de apoio, através de grupos ou pessoas reacionários.

Não tenho a pretensão de fazer todo um histórico de forças reacionárias que se empenharam em dificultar e até banir conquistas e manifestações sociais. Mas, num passado recente, vale relembrar toda a campanha feita pelas várias facções conservadoras e reacionárias contra o projeto reformista do então presidente brasileiro João Goulart.

Reunidas em instituições como o IPES, CAMDE, CCC, GAP, entre tantas outras, esses setores retrógrados da sociedade, descendentes das elites que mal começaram a se resignar do caráter superado da República Velha (período marcado pelo poderio hegemônico das oligarquias), queriam derrubar na marra o governo João Goulart, que então fazia um governo parecido com o que o presidente Lula, com as devidas diferenças de contexto e alguns detalhes.

O golpe militar de 1964 fez destruir todo um processo de construção de uma sociedade justa e causou sérios danos ao país. E, o que é pior, criou condições para o novo reacionarismo que está por aí, sobretudo na Internet.

O REACIONARISMO ENRUSTIDO: UM PROBLEMA GRAVE

Superada parcialmente a fúria demotucana nas campanhas eleitorais, um novo tipo de reacionarismo, tão perigoso quanto aquele que impulsionou o golpe de 1964, ocorre nos bastidores da realidade digital.

São internautas que, com um comportamento variando entre as pregações pseudo-progressistas de Cabo Anselmo com a raiva ao mesmo tempo sarcástica e vingativa do Comando de Caça aos Comunistas, aparecem aos montes, geralmente em atitudes isoladas, mas em outras vezes em grupos, camuflando seu reacionarismo com gírias, linguagens coloquiais, visual arrojado.

Aparentemente, eles não se reúnem em grupos como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que demonstrou continuar existindo, ainda que possam muito bem consistir num hipotético Comando de Caça aos Conscientizados. Mas adotam o mesmo comportamento do CCC, com o agravante de alguns usarem a capa de "progressistas" para obter vantagens pessoais ou minar a mobilização de seus "aliados" (ou vítimas).

Só que não é preciso analisar muito para ver que esse esquerdismo de araque não passa de um direitismo mal disfarçado. O caso histórico de Cabo Anselmo fala por si só.

São internautas que se chamam Adriano, Carla, Olavo, Eugênio, Carlos, José, Mayara, Gustavo, ou então Mestre Lineu, Noquia, Filho do Criador, Zé Ruela, Bolão, para não dizer pseudônimos que usam avatares famosos como Kurt Cobain, Ceará do Pânico, Eddie (a caveira-símbolo do Iron Maiden), entre outros.

Este blog recebeu mensagens de um internauta que "não gostou muito dos meus textos". Tudo bem, nem todo mundo pode concordar com o que é publicado, mas a convicção reacionária do sujeito mostra o quanto o ramo do entretenimento brega-popularesco é um ninho profícuo de neocons enrustidos mas perigosos.

De repente, as vozes reaças passaram a defender um modelo de "cultura popular" que trata o povo pobre feito uma caricatura. Mas seu discurso, a exemplo da direita que se diz "democrática" e "amante da liberdade", tenta inverter o sentido reacionário para um pretexto falsamente "progressista".

Dessa forma, essas vozes definem como "feminismo" e "liberdade sexual" a vulgaridade grotesca das popozudas, que, numa observação nem muito sacrificada, constata-se que, sim, elas expressam valores próprios do lazer machista.

Esses patrulheiros do reacionarismo politicamente correto - que, cinicamente, criticam a "ditadura do politicamente correto" e nos acusam de moralistas - também vieram para defender veículos da imprensa populista - como o jornal Meia Hora - , fazendo todo um clamor sentimental "pela liberdade de expressão".

Pior é que esses caras tentam se inserir num contexto "progressista" porque sabem que são extremamente reacionários, mas precisam obter vantagens pessoais e minar a esquerda por dentro, bancando os "amigos da onça".

Por isso eles também dizem "odiar a Rede Globo" (ainda que afirmem gostar do Domingão do Faustão, por exemplo), "abominar o PiG" e ler os blogs Conversa Afiada, Brasilianas e Viomundo, mesmo quando fogem do Blog do Miro e do Angry Brazilian como o diabo foge da cruz.

E nem é porque morrem de amores por Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif e Luiz Carlos Azenha. É porque, consumidores de televisão, assistem à Rede Record (que não é uma TV de esquerda, mas apenas abriga tais blogueiros jornalistas, dando-lhes autonomia) e, ouvindo falar que os jornalistas fazem blogs, pegam carona e viajam na garoupa.

Afinal, esses reaças usam a tática da camuflagem ideológica, para apunhalar a esquerda pelas costas. Meio como Cabo Anselmo em março de 1964. Usam a fachada "moderna" ("é só questão de idade", advertia Renato Russo em "A Dança") para esconder o perfil reacionário, que eles talvez só possam assumir quando estiverem com as vidas resolvidas depois dos 40 anos.

Enquanto isso não acontece, eles parecem "tão progressistas" quanto nós. Ironizam quando são chamados de reacionários - sobretudo com o antipático "huahuahuahuahuahuahuah" - e tentam dotar suas ideias reacionárias com um discurso doce.

Dessa forma, eles tentam creditar a imbecilização do povo pobre pela grande mídia como um "fenômeno cultural saudável". Acham que as popozudas são "femininas" porque ganham seu próprio dinheiro com isso. Acham que a "imprensa expreme-sangue" é "divertida" e "engraçada". Acham que os "sucessos do povão" são a "expressão da periferia" e outras teses mentirosas.

Atacam supostos moralismos, tentando forjar "humanismo libertário", quando seu conceito de "liberdade" não é muito diferente daquele difundido pela Marcha da Família Unida Com Deus pela Liberdade, ocorrida em São Paulo em 19 de março de 1964 e que pediu a ditadura militar. Como também não difere do conceito de "liberdade" e "democracia" em nome do qual o Ato Institucional Número Cinco e todo o seu sistema de tortura e repressão se autopromoviam como "remédios necessários".

Essa "multidão solitária" reacionária, que às vezes atua em separado, noutras em comunidades de redes sociais, é muito traiçoeira e é necessário que se reaja a ela com sabedoria, prudência e desconfiômetro. Muitos, na primeira instância, se dizem nossos "parceiros de causa". Até surgir uma divergência e eles armarem o bote.

DISCURSO DÓCIL, INTENÇÕES MALIGNAS

São eles que dizem defender a "cultura do povo" mas desejam sua degradação.

Louvam a vulgaridade feminina como um pretenso feminismo, mas depois chamam as manifestantes femininas de "feminazis".

Acham legal haver uma imprensa grotesca que banalize o sexo e a violência, e a defendem em nome da "liberdade de expressão". Mas condenam a imprensa alternativa que fala em movimentos sociais e lutas dos trabalhadores, e pedem desesperadamente seu banimento.

Acham ótimo haver a "cultura" brega-popularesca que supostamente fale em nome da periferia. Mas se irritam quando o povo se manifesta sem o controle da mídia, do latifúndio e dos barões do entretenimento, através de passeatas, abaixo-assinados e outras manifestações realmente espontâneas.

Condenam o intelectualismo, mas se acham "inteligentes" por coisa nenhuma.

Dizem defender a justiça social, mas sua visão de justiça não é muito diferente da dos maiores déspotas da humanidade.

São machistas chamando os outros de "machistas", preconceituosos chamando os outros de "preconceituosos", fascistas condenando o "fascismo" dos outros, quando o que está em jogo é o desespero desses reaças que seus valores retrógrados percam a validade e a hegemonia.

Eles parecem "progressistas". Dizem que são "da paz". Só que eles defendem a "paz sem voz", a "democracia" do medo e do conformismo, a "democracia" da mordaça, porque o "sistema" fará "algo" pela sociedade.

Dizem que são independentes e contrários ao imperialismo. Mas ficam felizes com as conquistas imperialistas e defendem os grandes detentores do poder, chamados apenas de "sociedade" e "democracia".

É só questão de idade. Passada essa fase, tanto faz eles irem para o Instituto Millenium ou para o comando do Comando de Caça aos Comunistas. Enquanto estão na faculdade ou parecem garotões arrojados, seu papel é o de Cabos Anselmos modernos, a pregar seu reacionarismo fantasiado de "progressismo" nas redes sociais, nos e-mails e fóruns de Internet.

Mas a vida deixa marcas. E não há garantias dessa "galera irada" tomar cuidado, como não tomou cuidado a horda demotucana nas campanhas de 2010. Um dia eles vão dançar não o "créu", o "rebolation", o "axé", o "sertanejo", o tecnobrega e por aí vai.

Eles vão dançar a dança amarga das desilusões pela máscara caída antes da hora, quando nosso senso crítico puder desmascará-los a tempo. E vamos desmascará-los, para salvar nosso país de mais um retrocesso.

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