domingo, 2 de janeiro de 2011

RAUL SEIXAS E MARCELO NOVA PREVIRAM ONDA POPULARESCA NO PAÍS


Falando do presente (o Rock Brasil), Marcelo Nova (E) e Raul Seixas, na verdade, previram o império da suposta "cultura popular" que tomaria conta do país após 1989.

Por Alexandre Figueiredo

Em 1987, a banda Camisa de Vênus, junto ao cantor Raul Seixas, gravou "Muita Estrela, Pouca Constelação", que Raul compôs com o então cantor do grupo, Marcelo Nova, antecipando uma parceria que resultaria, dois anos depois, no disco A Panela do Diabo, derradeiro trabalho do autor de "Ouro de Tolo".

Embora "Muita Estrela, Pouca Constelação" falasse sobre o Rock Brasil, a letra poderia ser vista como uma previsão da onda brega-popularesca que tomaria conta de todo o Brasil a partir de 1989, pouco após a morte de Raul Seixas. Essa onda brega-popularesca hoje enfrenta um processo de decadência, que nem a mais empenhada intelectualidade etnocêntrica, mesmo a infiltrada na imprensa esquerdista, é capaz de reverter.

Portanto, é uma mensagem subliminar que previu em 1987 a hegemonia quase que absoluta dos ídolos popularescos, alguns já fazendo sucesso naquele ano, como Chitãozinho & Xororó, Sullivan & Massadas, Wando e Fábio Jr..

Nova e Seixas eram declaradamente contra a música brega-popularesca, ainda que esse termo não houvesse existido (o termo "brega-popularesco" surgiu em 2003). Mas seus comentários contra a dita "música sertaneja" e contra a axé-music eram bem notórios. Tanto que a viúva e parceira de Raul, Kika Seixas, teve que mover um processo judicial para banir um disco-tributo oportunista da axé-music ao roqueiro baiano.

A letra de "Muita Estrela, Pouca Constelação" surpreende porque, em algumas passagens, há a citação da periferia e da crítica musical, e, se trocarmos os estilos roqueiros pelas tendências popularescas "equivalentes", veremos a profecia contundente quanto ao império da mediocridade cultural que dominou o país nos últimos vinte anos.

A profecia é contundente porque vai da festa midiática de 1990 (aludida na primeira estrofe) à retórica intelectualóide dos últimos anos (aludida na última), prevendo a sequência da retórica da "cultura da periferia" e seu discurso intelectualóide cheio de referenciais intelectuais inexistentes nas tendências popularescas (o "pós new old").

MUITA ESTRELA, POUCA CONSTELAÇÃO

(Raul Seixas / Marcelo Nova)

A festa é boa tem alguém que tá bancando
Que lhe elogia enquanto vai se embriagando
E o tal do ego vai ficando nas alturas
Usar brinquinho pra romper as estruturas (1)

E tem um punk se queixando sem parar
E um wave querendo desmunhecar
E o tal do heavy arrotando distorção
E uma dark em profunda depressão (2)

(refrão)
Eu sei até que parece sério, mas é tudo armação
O problema é muita estrela, prá pouca constelação (3)

Tinha um junkie se tremendo pelos cantos
Um empresário que jurava que era santo
Uma tiete que queria um qualquer
E uma sapatão que azarava minha mulher (4)

Tem uma banda que eles já vão contratar
Que não cria nada mas é boa em copiar
A crítica gostou, vai ser sucesso, ela não erra
Afinal lembra o que se fez na Inglaterra (5)

(refrão)

E agora vem a periferia (6)

O fotógrafo, ele vai documentar
O papo do mais novo big star
Pra'quela revista de rock e de intriga
Que você lê quando tem dor de barriga (7)

E o jonalista ele quer bajulação
Pós new old é a nova sensação (8)
A burrice é tanta, tá tudo tão à vista
E todo mundo posando de artista (9)

(refrão)


(1) Os versos podem remeter ao oba-oba da grande mídia, da TV aberta, rádios FM até revistas como Caras, à onda brega-popularesca. O "brinquinho" pode muito bem ser substituído pelos grosseiros piercings que "enfeitam" os umbigos das musas popozudas. O primeiro verso é uma alusão ao jabaculê ("tem alguém que está bancando").

(2) "Punk" poderia ser substituído pelo "funk carioca", devido à pretensa analogia que os intelectuais do brega-popularesco fazem para o ritmo carioca. O wave pode ser substituído tanto pelo brega juvenil (Gilliard, Nahim, Gretchen, Dominó) quanto pela lambada (Kaoma, Beto Barbosa) ou seu derivado forró-brega (Calcinha Preta, Aviões do Forró, Banda Calypso). Pela analogia "machista", o "heavy" pode ser substituído tanto pelo "pagode mauricinho" (sambrega) quanto pelo porno-pagode (É O Tchan, Parangolé). O "dark" pode tanto ser o "brega de raiz" (Waldick Soriano, Amado Batista, Odair José) quanto pela dita "música sertaneja" (breganejo), pela alusão à "tristeza extrema" de suas letras.

(3) No brega-popularesco, o surgimento de milhares de ídolos num só modismo - que o próprio Marcelo Nova definia como "monocultura" - não garantia sucesso a todos. Daí a pequena constelação do sucesso para muitos aspirantes a astros. Por isso a manobra malandra de alguns se dizerem "vítimas de preconceito" ou, mesmo no auge de seu sucesso, "discriminados pela grande mídia". O primeiro verso do refrão pode ser visto como uma alusão à obsessão dos ídolos brega-popularescos em serem considerados "artistas sérios".

(4) Junkies existem em qualquer tendência musical. No brega-popularesco, o cantor Rafael Ilha é um exemplo. O empresário de brega-popularesco geralmente se autoproclama um "modesto produtor cultural", um "singelo caçador de talentos". Há a tiete fanática por qualquer ídolo empurrado pela grande mídia, sobretudo aquelas que ficam histéricas nas plateias de nomes como Exaltasamba, Alexandre Pires e Bruno & Marrone. E a boazuda que prefere beijar outra mulher a ter um marido.

(5) A mediocridade nesta estrofe pode se associar a todo o brega-popularesco, mas aqui a ênfase é para os "sofisticados" ídolos da dita "música sertaneja", do "pagode romântico" e da axé-music, que nada criam, mas são hábeis em copiar clichês da fase "burguesa" da MPB (1977-1988). Nomes que nenhum crítico musical iria falar mal e que parecem ser sucesso certo. A falta de criatividade pode ser aludida também aos sucessivos discos ao vivo ou de covers que esses ídolos gravam depois de cinco anos de sucessos. Substitua "o que se faz na Inglaterra" por "O que se fez na música brasileira do passado" e se entenderá a analogia com breganejos, pagodeiros e axézeiros.

(6) A dupla previu que o brega-popularesco, num dado momento, teria que se autoproclamar "cultura da periferia". Sobretudo com o "funk carioca", com o tecnobrega e com tendências "curtidas" por camelôs e empregadas domésticas, por exemplo. É a apelação da suposta "cultura popular" de mercado em se autodefinir como "cultura da periferia" para assim garantir seu sucesso comercial por mais tempo.

(7) Essa estrofe alude à campanha para promover a tal "cultura da periferia": documentários (sentido do verbo "documentar"), "revistas de rock e de intriga" (sentido que pode ser substituído por "revistas de música, periódicos acadêmicos e imprensa esquerdista"), em defesa de ídolos rejeitados pela intelectualidade mais séria ("que você lê quando tem dor de barriga"), acusada pelos apologistas do brega-popularesco de "preconceituosos".

(8) Os dois primeiros versos da estrofe remetem ao clima de badalação em torno dos críticos musicais, cientistas sociais, artistas e celebridades que defendem qualquer tendência brega-popularesca. O termo "pós new old" é uma alusão à falácia "pós-moderna" de intelectuais atribuírem um monte de referenciais intelectuais em tendências da mediocridade como o "funk carioca" e o tecnobrega (que, na verdade, desconhecem e ignoram quaisquer desses referenciais), referenciais que vão de Antônio Conselheiro a Malcolm McLaren, passando por Oswald de Andrade, Zé Celso Martinez Correa, Glauber Rocha, Hélio Oiticica, Che Guevara, Leila Diniz etc. Exemplo dessa retórica delirante é o artigo "A índia negra branca do Pará", de Pedro Alexandre Sanches.

(9) O sentido desses dois versos pode ser este: a mediocridade cultural é gritante e explícita ("a burrice é tanta, tá tudo tão à vista"), nessa "cultura popular" que aparece no rádio FM e na TV aberta, mas graças à campanha de seus defensores, tudo é considerado "arte", tudo é considerado "verdadeira cultura popular" ("e todo mundo posando de artista").

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