domingo, 23 de janeiro de 2011

PRECONCEITO POLITICAMENTE CORRETO É O QUE APOIA O "JORNALISMO POPULAR"


INTERNAUTAS TAMBÉM USAM A MESMA ALEGAÇÃO DE "LIBERDADE" DA MÍDIA GOLPISTA.

Por Alexandre Figueiredo

"Orgulhosamente, faço parte do grupo de brasileiros que lê a Folha e agora descubro que faço parte do PIG. Mas afinal o que é ser PIG (Partido da Imprensa Golpista)? Ser PIG é respeitar o princípio da isonomia e ter a cabeça erguida quando te chamam de jumentinho. Ser PIG é não ter medo da imprensa. (...) Ser PIG é apoiar o pluralismo que possibilita que, na mesma semana, Clóvis Rossi ataque um general e a Folha revele que Lula e seus filhos se acham donos do Brasil. Ser PIG é enxergar que num verdadeiro Estado de Direito respeitam-se também os deveres."

A frase do leitor da Folha de São Paulo, Paulo de Tarso Guimarães, mostra o quanto a sociedade conservadora adota um tom "humanitário" e "conscientizado" para seus pontos de vida retrógrados. Falar é muito fácil, e, passados 47 anos, a "liberdade" das marchas político-religiosas de direita, que pediram o golpe militar de 1964, ainda continuam ecoando nos dias atuais.

O episódio do jornal Meia Hora, em manifesto escrito por Raquel Melo, mostra o quanto a "liberdade" ainda serve de pretexto para abusos e injustiças. E o quanto a desinformação desses internautas é enorme, daí a confusão do Meia Hora com o Pasquim, já mencionada aqui.

Falam os adeptos do Meia Hora - aqueles que acham o jornal "muito divertido" - que a "ditadura do politicamente correto" é que reprova "expressões" como a linha editorial do referido veículo da mídia jagunça, baseados na banalização da violência, na exploração do pitoresco e na depreciação de mulheres e homossexuais.

Para começar, quem está sendo "politicamente correto" são esses caras cujas mensagens foram reproduzidas pela figura acima. Acham que tão comente o "moralismo" e a "patrulha dos bons costumes" é que condenam o "jornalismo" de baixo calão que trata o povo pobre que nem idiota.

Esses caras é que são preconceituosos. Mas dá para mascarar preconceitos verdadeiros com um verniz "social" e "libertário". Como justificar a existência desses periódicos com a pura alegação de que "nada é ofensivo, tudo é só humor".

Só que, por trás disso tudo, há o preconceito maior, vindo desses "libertários" de classe média, contra o povo pobre, porque, para esses internautas que pregam a "liberdade", o pobre é admirável naquilo que tem de ridículo, de pitoresco, de exótico.

Eles é que fazem a ditadura do politicamente correto. Para eles, pobre não pode fazer protesto, e sim fazer o "rebolation". A moça pobre não pode ser professora, mas pode ser prostituta. O trabalhador não pode se interessar por literatura, política, cidadania, mas tão somente em aberrações e criminalidade.

Claro, dentro do seu condomínio confortado, dá para fazer "cidadania de plástico" e fazer mil teses "comprovando" que o povo é melhor assim, através do grotesco e do vulgar, porque "é mais divertido", "faz a gente rir de nós mesmos", "o povo fica mais simpático assim".

Não é preciso detalhar exemplos de valores "libertários" no Segundo Império, de tribunos, políticos e jornalistas que achavam melhor manter o regime escravista, que não viam nos negros sequer a condição de cidadãos, e muito menos de simples gente.

Ou então as teses "científicas" do nazi-fascismo, que eram feitas para justificar seus próprios preconceitos sociais, dentro de justificativas supostamente pertinentes.

Hoje, fala-se em "liberdade" como sinônimo de libertinagem. Mas ignora-se que a supervalorização das chamadas popozudas, por exemplo, causa sérios problemas nas jovens moças da periferia, porque elas são tidas como "modelo de sucesso". A "superioridade" de pretensas musas, que só vivem para explorar midiaticamente o corpo (e há intelectuais que ainda falam bobagens pós-modernas para justificar essa "sensualidade" oca), é o recurso da mídia para desestimular as moças pobres a quererem qualidade de vida, ou, quando muito, apenas lutar no mercado de trabalho dentro das limitações ou pequenas brechas do "sistema".

A desinformação desses internautas é tal que eles pensam que o Meia Hora é igualzinho ao Pasquim. Não devem ter lido sequer os volumes que reúnem as principais edições do Pasquim publicadas nos seus primeiros anos. Não sabem que o Pasquim não era só piada, eram ensaios culturais e históricos de primeira, entrevistas substanciais e dicas culturais.

Certamente esses "flanelinhas" digitais não sabem a diferença de uma entrevista com Leila Diniz - uma jovem que pensava e opinava de forma independente e decidida - e uma entrevista com uma mulher-fruta, que só fala bobagens.

Eles também não entendem que veículos desse "jornalismo expreme-sangue" como o jornal Meia Hora são dirigidos a um público intelectualmente desqualificado (por razões que até mesmo vão contra a vontade do povo pobre, que, em boa parte, quer Educação e não tem escola pública de qualidade e funcionando), que é incapaz de pensar e ter opinião própria. Nesse sentido, há um enorme abismo separando Meia Hora e Pasquim que os "informadíssimos" internautas ignoram.

Já encontrei também adeptos de rádio que só querem saber de programas para rir. É gente que não tem alegria própria, gente cheia de preconceitos, de neuroses, mas que escreve bonitinho nos fóruns de Internet. Daí os preconceitos politicamente corretos.

Porque é através desse "livre humor" - que esconde muitas vezes neuroses machistas, homofóbicas e até racistas - que esse pessoal extravasa seus sentimentos de forma descontraída. Seus preconceitos se diluem na "ironia saudável", o ridículo é a segregação transformada em sorvete, é a discriminação social disfarçada em algo descontraído.

Para esses caras, é "maravilhoso" que as mulheres sejam conhecidas apenas pelos seus glúteos enormes e que os homossexuais apareçam em fantasias espalhafatosas. Imagine se eles virem certos atores de TV estrangeiros, com aparência viril e trajes masculinos, mas que declararam explicitamente sua homossexualidade e namoram homens que igualmente se vestem e se comportam de forma masculina?

BULLYING - Também tais reações haviam quando valentões de escolas faziam seus rituais de humilhação. Podiam pegar o colega mais frágil, virá-lo de ponta-cabeça e jogá-lo numa lata de lixo, que tudo isso é tido como uma "saudável manifestação de descontração e humor".

Por isso é que, tão somente, o bullying (que eu chamava de "implicância", nos anos 80), foi uma prática tolerada socialmente durante séculos. O mundo adulto entendia a vida infanto-juvenil como se fosse um universo homogêneo, sem conflitos de classes. A juventude e a infância eram até confundidas entre si, e seus respectivos indivíduos vistos como totalmente iguais.

Durante anos essa falta de discernimento fez com que o bullying - que significou traumas violentos em suas vítimas, mas também expressava neuroses e outros traumas nos agressores - fosse visto como uma "descontração infanto-juvenil", como algo sem importância.

Isso ocorreu até que atentados ou suicídios envolvendo vítimas de bullying chamassem atenção para o grave problema. Eu mesmo fui vítima de bullying e, ainda adolescente nos anos 80, já entendia questões que só hoje muitos psicólogos expõem em seus artigos, livros e palestras.

A tradução brasileira da "cultura trash" através do brega-popularesco, a nivelação por baixo dos valores sócio-culturais oficiais, faz com que pessoas usem a "liberdade" para defender manifestações baixas dos meios de comunicação, e acusarem quem combate isso de "moralismo", de "ditadura do politicamente correto".

Quando, na verdade, politicamente corretos são os defensores de jornais como Meia Hora e similares. Porque adota uma forma politicamente correta de expressar seus preconceitos, mascarando-os para serem socialmente tolerados.

Assim como eles tentam se desculpar dizendo que "biba" e "piriguete" são linguagens "das ruas", os antigos racistas também faziam o mesmo quando chamavam negros de "macaquinhos". Se bem que os símios em geral são muito mais dignos e respeitosos com os negros do que muitos desses racistas que, certamente, se escondem na "saudável defesa" da esculhambação sócio-cultural das classes pobres, das mulheres, dos negros e dos homossexuais.

Essa moçada que se diz "libertária" ao defender o Meia Hora está muito mais próxima de Joseph McCarthy em tons politicamente corretos do que de qualquer manifestação pela verdadeira liberdade da Contracultura, que, acima de tudo, mostrava a luta que homossexuais, mulheres, negros e pobres exerciam pela defesa e conquista de seus direitos.

Uma Contracultura que inspirou a criação do nosso Pasquim. Um jornal que era mais inteligência e bons textos do que meras piadinhas irônicas. Estas eram apenas a cobertura do bolo.

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