quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A PERIFERIA QUE O BREGA-POPULARESCO NÃO QUER MOSTRAR


PERIFERIA DE TERESÓPOLIS DEPOIS DA TRÁGICA CHUVA NA REGIÃO SERRANA FLUMINENSE.

Por Alexandre Figueiredo

A cultura popular não precisa ser sempre de protesto ou lamentação.

Mas dá para perceber a diferença entre uma cultura popular de verdade, que produz conhecimento, valores sociais e é transmitida pela comunidade, dessa "cultura popular" que só quer saber de lotar plateias e é transmitida pelos donos de rádio e TV e pelos barões do entretenimento, do atacado e do varejo.

A cultura popular legítima é humanista, busca animar as pessoas em momentos de alegria, numa alegria que não se enfurece à menor contrariedade. E busca consolar as pessoas na tristeza e no sofrimento.

Nada há de humanista nessa pretensa "cultura popular" que consiste nos "sucessos do povão".

Quando há surto de violência, ou tragédias como as enchentes causadas pelas chuvas, o brega-popularesco se cala, indiferente. Se omite, porque nada dessa "cultura popular", que tem o atrevimento de se autoproclamar "verdadeira", tem de humano, nada tem de relacionado ao interesse público.

Seus ídolos, só depois, vão fazer campanha filantrópica para dizer que são bonzinhos.

A situação é muito mais complicada. E o povo pobre sente isso na carne.

É muito fácil o intelectualóide de plantão, trancado no seu condomínio de luxo, escrever que o "funk carioca", o tecnobrega e o "rebolation" são "legais", achando que vai agradar o povo pobre e ganhar prêmios acadêmicos por isso.

Mas o "funk carioca", tão tido como "a nossa música de protesto", ficou lá ocupado com a contratação de Ronaldinho Gaúcho no Flamengo.

E a tragédia da Região Serrana? Lá a chuva destruiu tudo, até aparelhos de rádio e TV, meios de consumo dos sucessos e dos referenciais popularescos que as elites empurram para o povo da periferia consumir, e depois atribui essa pseudo-cultura a esse povo que nem sabe da real ideia do que está consumindo da mídia.

É preciso dizer que essa pseudo-cultura faz parte da grande mídia? Ou será que temos que crer na lorota mais falada da atualidade, que os "sucessos do povão" que rolaram no rádio FM "nunca fizeram sucesso no rádio", que os "sucessos do povão" que alimentaram a grande mídia "nunca deram as caras na grande mídia", é tudo questão de Twitter ou YouTube?

Seca no sertão. Enchentes nas cidades banhadas por rios. Coronelismo promovendo violência.

Isso não está na "periferia legal". Não está nos filmes sobre "funk" e "sertanejo".

A intelectualidade "sem preconceitos" é preconceituosa. Numa situação como a das tempestades regionais, choram-se lágrimas de crocodilo, porque o "povão", a que se atribui cinicamente uma "alegria até na dor" ou "uma autosuficiência da miséria", pede socorro e essa intelectualidade foge correndo para se isolar em suas monografias.

Até hoje as cicatrizes do niteroiense Morro do Bumba não foram fechadas. As dores até hoje não foram totalmente superadas. A lembrança do deslizamento do morro de Niterói ainda é muito fresca.

E aí vem as dores de São Paulo, Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e outras cidades.

E as autoridades mais ocupadas com Copa e Olimpíadas.

E os barões do entretenimento preocupados se seus galpões "mega shows" estarão inteiros para mais um festival de ídolos popularescos para o "povão" pagar ingressos e ver.

O povo pobre está cansado de ser ignorado pelas autoridades e de ser tratado como bobo alegre pela grande mídia (sem excluir a imprensa populista, as "rádios do povão", a TV aberta "não-global").

São situações assim que a gente toma conhecimento do drama do povo pobre.

Que perde tudo, e perde até seus entes queridos. Perde os amigos que, há poucos dias, estavam ao lado deles, rindo e contando causos e piadas.

É preciso que se tenha sentimentos realmente humanistas, porque a cidadania não serve para alimentar o circo de consumo alienante, mas sim para se esforçar para estabelecer a qualidade de vida para toda a sociedade.

Ainda se tem muito que fazer neste país.

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