quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A PEDAGOGIA MIDIÁTICA DA REDE GLOBO E FOLHA ILUSTRADA


CAETUCANO RECOMENDOU, FAUSTÃO DISSE, TAVINHO FRIAS ESCREVEU, PEDRO ALEX SANCHES ENDOSSOU E A CLAQUE DITA "PROGRESSISTA" ACREDITOU.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade de esquerda, no geral, está engatinhando. Numa frente ampla em que se misturam adesões espontâneas com outras tendenciosas, é natural que o caminho de pedras mostre muitas vezes o background ideológico de direita, num tempo em que o poder da mídia conservadora era quase que absoluto.

Afinal, a natureza não dá saltos. Tivemos 38 anos de governos calcados no pós-udenismo, do golpe militar de 1964 à saída de Fernando Henrique Cardoso do seu segundo mandato. Isso praticamente influiu na formação de nossa sociedade, bombardeada com muitos valores sociais, políticos, econômicos e culturais próprios da direita neoliberal, e que eram lançados como se fossem "valores naturais" à nossa sociedade.

Por isso é natural que haja tanto esquerdistas de primeira viagem quanto falsos esquerdistas, uns querendo conhecer um universo novo, outros querendo se aproveitar dele. E isso se manifestou durante todos os oito anos de governo Lula, em que o jogo sócio-ideológico foi marcado não apenas pelo reacionarismo aberto da direita, junto às tardias adesões ao demotucanato, mas também ao reacionarismo maldisfarçado da falsa esquerda, herdeira do antigo oportunismo pré-golpe de Cabo Anselmo (que pode ser considerado "patrono" dos pseudo-esquerdistas).

Por isso, entre um momento ou outro, pessoas aparentemente inclinadas aos movimentos sociais exibiam seus preconceitos machistas, elitistas, privatistas ou coisa parecida. Outras, mesmo na melhor das intenções, expressavam sua postura esquerdista frágil, desconhecendo as contradições acerca das armadilhas do neoliberalismo, ainda que dentro do ramo do entretenimento.

FOLHA DE SÃO PAULO E REDE GLOBO INFLUENCIARAM A OPINIÃO PÚBLICA

Durante muitos anos, a Rede Globo de Televisão reinava absoluta na mídia brasileira. No decorrer desse tempo, seus valores e seu modelo de país foram difundidos para o povo brasileiro, sem que este fosse autorizado a contestar seu poder. Afinal, era a ditadura militar e qualquer contestação ao regime e seus valores associados era visto como um ato potencialmente criminoso.

Pouco depois, no alvorecer da democracia neoliberal, logo após o ocaso do regime militar, em 1985, a Folha de São Paulo tornou-se o padrão de veículo "moderno", cuja linha editorial, em vários de seus cadernos, era tido como modelo de pensamento a ser seguido pela sociedade.

Antes da Folha de São Paulo ser desmascarada por setores esquerdistas da opinião pública - de Paulo Henrique Amorim a Lino Bocchini, passando por Altamiro Borges, Raphael Garcia e eu mesmo - , ela era sinônimo de "jornalismo moderno" e seus articulistas e editores eram considerados a mais alta definição em intelectualidade brasileira.

Essa definição, já exagerada e discutível, era no entanto respaldada pelo leitor comum, sobretudo de classe média, que exibia seu exemplar da Folha de São Paulo com uma vaidade e um ar de superioridade.

A Folha ostentou durante anos essa reputação, o que valeu a Otávio Frias Filho um status de pretenso intelectual, namorando até atriz da Globo e por aí vai. E, com isso, o periódico transmitiu uma visão "oficial" de "cultura em geral" que pegou muita gente desprevenida, gente que passou a defender o entretenimento barato e os "sucessos do povão" como se fossem "a verdadeira cultura do povo pobre".

INFLUÊNCIA NA MÍDIA PROGRESSISTA

O legado da Folha de São Paulo e da Rede Globo nesses setores da opinião pública faz com que até mesmo a mídia esquerdista ou progressista fosse tomada de condutas ou mesmo posturas duvidosas para uma mídia que estabelece uma posição definida em assuntos como o Oriente Médio, por exemplo.

Nota-se que a Caros Amigos, só para citar o principal veículo e o mais conhecido no mercado, iniciou seu caminho de pedras tentando encontrar uma cara esquerdista. Hoje ela conseguiu estabelecer um perfil esquerdista, no âmbito dos assuntos políticos e econômicos, mas no âmbito cultural encontra sérios problemas, como a presença de MC Leonardo e Pedro Alexandre Sanches no quadro de colaboradores.

MC Leonardo é um dirigente funqueiro, e no "funk carioca" a postura "esquerdista", além de ser bastante duvidosa - afinal, o gênero investe em valores retrógrados, vários deles ligados ao machismo - , é muito tendenciosa. Além disso, os funqueiros normalmente fazem jogo duplo porque, assim que tentam aliciar a imprensa esquerdista com um discurso "socializante", exibem-se triunfantes em veículos da grande mídia de direita, como a própria Rede Globo e a Folha de São Paulo.

Pedro Alexandre Sanches é sabido. Sua formação é explicitamente na mídia direitista. Portanto, é um jornalista de direita que escreve na imprensa de esquerda. Em vários de seus artigos e ensaios, Sanches demonstrou que ainda transmite a visão de seu antigo periódico, a Folha de São Paulo, nas páginas de Caros Amigos, Carta Capital e Fórum.

E de nada adiantou ele fazer lobby para botar Gaby Amarantos na capa da revista Fórum, como se isso fosse causar pavor e medo na mídia golpista. Nada disso. Pelo contrário, o que vemos foi que o tecnobrega aprendeu a jogar o jogo duplo do "funk carioca" e não tardou a se exibir entusiasticamente no palco do Domingão do Faustão e nas páginas de TODA a imprensa golpista. Até a Veja, a mais retrógrada da mídia golpista, se rendeu ao tecnobrega. Adiantou toda aquela lorota de "fenômeno dos sem-mídia"?

Outra postura estranha é quanto ao apoio entusiasmado ao historiador Paulo César Araújo, um típico direitista enrustido, cujo apoio a Waldick Soriano (tido falsamente como um "subversivo") o fez, junto com Patrícia Pillar, criar um lobby que impede que se conheça a verdade sobre o falecido ídolo brega, que nunca escondeu suas ideias ultraconservadoras e claramente direitistas. Mas hoje escondem esse passado, tirando vídeos digitalizados pelo portal G1, da Globo, que tem Patrícia Pillar como contratada.

Em vários blogs, nota-se que houve abordagens condescendentes ao brega-popularesco, à alienação futebolística, à exploração machista da mulher-objeto, evidentemente sem esses nomes. Tudo era "cultura popular", "paixão esportiva", "feminismo sensual", expressões que mascaram todo o preconceito de uma facção social que além disso foi pega desprevenida diante do casamento por conveniência de Michel Temer e sua jovem esposa.

São preconceitos e omissões - como o fato de ninguém estranhar a presença de Pedro Sanches na Caros Amigos - que mostram o quanto parte do pessoal "progressista", entre esquerdistas de primeira viagem e pseudo-esquerdistas, ainda sofrem da antiga pedagogia da grande mídia.

Seu envolvimento com a mídia esquerdista é muito recente, e por isso seus equívocos aparecem, seja por boa fé, no caso dos esquerdistas iniciantes, seja pelo puro cinismo, como nos falsos esquerdistas.

Felizmente eles não se misturam com blogueiros, jornalistas e demais internautas de esquerda autênticos. Não dá para colocar Pedro Alexandre Sanches no mesmo balaio de Altamiro Borges, por exemplo. Impossível. Mas colocar o colunista-paçoca ao lado de seu ex-patrão e ainda mestre Otávio Frias Filho continua fazendo sentido.

Afinal, a verdadeira intelectualidade de esquerda mantém os pés no chão. Pode não ser santa e pode cometer um erro aqui ou ali - como Luís Nassif, quando aceitou publicar um comentário machista de um internauta - , mas sua atitude progressista mantém-se coerente e crítica, mesmo em relação à esquerda, e não sucumbe a ilusões.

A Rede Globo e a Folha de São Paulo criaram na classe média, mesmo a aparentemente progressista, uma visão de "povo pobre" que normalmente não engana os mais velhos, que conheceram o CPC da UNE, a Bossa Nova, a Era do Rádio e ídolos da música popular autêntica dos anos 40, 50 e começo dos 60, gente que veio das classes pobres e nem por isso deixava de ter neurônios, opiniões próprias, postura crítica e autocrítica e força artística.

Os mais novos, porém, educados pela Ilustrada, pelo Domingão do Faustão, pelo Fantástico, ou mesmo pelo Xou da Xuxa e pelas novelas globais, caiu na tentação de adotar uma visão de "povo pobre" ou "periferia" dignos de um Ali Kamel, embora temperados de uma desculpa "socialista" aqui ou ali.

Nunca viram a periferia ao vivo, fugiam dela com medo, mas insistiam que aqueles astros musicais que lotam plateias e aparecem fácil, fácil na grande mídia são "a natural expressão do povo pobre".

É uma visão claramente preconceituosa de um pessoal "sem preconceitos". Adotada ora por boa-fé - foi a Ilustrada que disse e grudou no seu inconsciente - , ora por puro cinismo, quando se elogia um Alexandre Pires ou Daniel da vida para tentar agradar o que ele entende por "zé povinho", para não dizer os elogios aos funqueiros, tecnobregas, pagodeiros "sensuais" etc, esse pessoal não se dá conta de que a visão que adota é puramente de acordo com a grande mídia que esse mesmo pessoal diz criticar. Com todas as letras, pontos e vírgulas. Não adianta reclamar.

Cabe os esquerdistas iniciantes verificarem seus conceitos, analisando se muitas de suas visões convencionais não são herança de muitos anos lendo Ilustrada, vendo Jornal da Globo, lendo o Segundo Caderno. Que mídia de esquerda teremos se as pessoas defendem valores sócio-culturais próprios da mídia dominante, por mais que se use pretextos aparentemente favoráveis às classes populares?

O joio do trigo será separado, como em todo fenômeno que se inicia como um balaio de gatos. O contexto político, aos poucos, desmascara falsos esquerdistas que, sem outra opção, se convertem em neocons convictos. Porque, mais cedo ou mais tarde, os preconceitos direitistas vêm à tona, e os falsos esquerdistas voltarão à direita, quando sentirem seus privilégios de classe serem ameaçados.

E aí esse pessoal todo se consolará assistindo ao Jornal Nacional, venerando Galvão Bueno e Fausto Silva e folheando a Ilustrada com seu velho orgulho esnobe.

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