domingo, 16 de janeiro de 2011

PAULO CÉSAR ARAÚJO NÃO MERECE O CRÉDITO QUE TEM


UM DIA PAULO CÉSAR ARAÚJO PASSARÁ A RASTEIRA NA INTELECTUALIDADE DE ESQUERDA E VAI SER SÓCIO DO INSTITUTO MILLENIUM.

Por Alexandre Figueiredo

Estranha adoração têm certa intelectualidade de esquerda - incluem também os bastardos, como os colonistas-paçocas e os blogueiros-patolinos que só estão de carona, mas no fundo a-do-ram o PiG - ao escritor Paulo César Araújo.

Eu tinha visto ele num evento no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, e não vi credibilidade alguma no cara. O sujeito tem aparência sinistra, desses que se revelam vilões no final dos livros de suspense, e o discurso dele é muito mais persuasivo do que convincente. Convence as plateias mais pela reunião de belas palavras do que pela coerência de ideias, que no caso de PC Araújo, é item bastante discutível.

Paulo César Araújo nem se assume de esquerda. Também não se diz de direita. Mas neste caso até Reinaldo Azevedo, da Veja e do Instituto Millenium, não se diz de direita. Araújo lançou seu livro Eu Não Sou Cachorro Não, pela Editora Record, que adotou uma postura direitista num evento literário e condenou a premiação a Chico Buarque (pelo livro Leite Derramado) por questões de "cunho político-ideológico".

Eu folheei o livro de PC Araújo sobre o brega, cujo título remete ao sucesso de Waldick Soriano (que eu, aos três anos de idade em 1974, já não levava a sério, achava a música ridícula), e, na boa, não vi mais do que um grande relatório de teses conspiratórias lançadas pelo autor.

Contraditoriamente, PC Araújo diz no seu parágrafo que os ídolos cafonas, como Waldick, Odair José e Paulo Sérgio (o falecido cantor do risível "Minhas Qualidades, Meus Defeitos"), eram despolitizados, mas o mesmo autor tenta insistir, em "argumentos" que beiram ao achismo ou a ideias vagas e suposições, que os ídolos bregas "no fundo eram cantores de protesto".

Chega a ser ridículo. Paulo César Araújo gasta páginas e páginas só para comparar "Eu Não Sou Cachorro Não", de Waldick, a "Opinião", a música de protesto composta e cantada por Zé Kéti na peça do mesmo nome, em 1964. Sem falar que, usando um suposto estudo de universitários mineiros, tentou tomar como verdade uma mera suposição. Araújo disse mais ou menos assim: "Está certo que a música (de Waldick) fala de desilusões amorosas, mas quem sabe a letra não poderia ser dirigida para o patrão, o policial etc?".

Realmente não dá para admitir.

Mas para uma intelectualidade que se alimentou de delírios caetucânicos demovelosos, foi culturalmente alfabetizada pela Ilustrada da Folha de São Paulo e visualmente amestrada pelo Programa Sílvio Santos, pelo Cassino do Chacrinha fase terminal e pelo Domingão do Faustão, as palavras de Paulo César Araújo soam como mel.

Claro, é um pessoal que só viu o povo pobre pela televisão, que mal consegue chegar perto de uma feira livre, que tem que pagar salários para a empregada e dar bom dia para faxineiros e porteiros. Que viu as favelas, os badameiros, os pescadores, nos documentários estrangeiros sobre a periferia brasileira.

Enquanto Paulo César Araújo, Patrícia Pillar e asseclas choramingam porque seus ídolos cafonas foram censurados - e nem foi por muita coisa, até porque, no fundo, a música brega nunca foi ameaça ao regime militar, e, de certa forma, foi aliada do regime no processo de domesticação das classes populares - , eles mesmos vetaram a veiculação de vídeos com Waldick Soriano demonstrando todo seu conservadorismo.

Mal comparando, é como se alguém vetasse a experiência política de José Serra nos últimos anos e só relembrasse dele como líder estudantil progressista entre 1962 e 1964 e como economista recebendo os militantes estudantis em 1978.

Waldick Soriano sempre foi um figurão conservador. Aliás, ele só, não. Toda a música brega é conservadora. Odair José também é conservador. Se até Roberto Carlos, cantor que inspirou a segunda geração de ídolos cafonas, também é conservador, como é que parte da intelectualidade de esquerda vai derramar-se de elogios a Paulo César Araújo?

Se ele entrou em conflito com o cantor capixaba por conta da biografia não-autorizada, é outra história. Pedro Alexandre Sanches também escreveu sobre Roberto Carlos. Nada contra, pessoalmente, o "Rei", que foi de fato um grande artista entre 1959 e 1976, mas depois foi amestrado pela Rede Globo. Imaginem se um colunista da Agência Carta Maior escrevesse uma biografia elogiosa de Roberto Marinho?

Mas, voltando ao perfil de Paulo César Araújo, sem dúvida alguma ele é objeto daquilo que Nelson Rodrigues chama de "unanimidade burra". Ele ainda goza de aplausos ingênuos daqueles que se deslumbram com as "maravilhas" da mediocridade cultural redescoberta. Aí vem sempre aquele refrão: "Eu não gostava de música brega, mas li o livro de Paulo César Araújo e revi os valores". Parece depoimento de comercial de sabão em pó, e o discurso é quase sempre igualzinho a todos que aplaudem PC Araújo.

Enquanto isso, ninguém quer debater os Centros Populares de Cultura da UNE. Ninguém quer debater os rumos da MPB autêntica. A moçada "sem preconceitos" acaba tendo preconceitos bem maiores, discriminando os grandes mestres, as grandes músicas, enquanto todos aplaudem ídolos medíocres que deveriam estar no esquecimento.

E pensam que Paulo César Araújo estará de braços abertos para saudar a intelectualidade esquerdista.

Engano. Quando ele conseguir o que quer, vai arrumar as malas e ir com Pedro Alexandre Sanches e Eugênio Arantes Raggi criarem suas carteirinhas de sócios do Instituto Millenium, sendo generosamente recebidos e orientados por Marcelo Madureira.

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