quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A ORIGEM DA DEPRECIAÇÃO FEMININA PROMOVIDA PELA GRANDE MÍDIA


PROGRAMA SÍLVIO SANTOS - Um dos primeiros a apostar na domesticação do povo, sobretudo da mulher brasileira.

Por Alexandre Figueiredo

O duplo processo de domesticação da mulher brasileira pela grande mídia, que influiu na hegemonia das chamadas "marias-coitadas" e das "popozudas", tem raiz nos anos 70, durante a ditadura militar, mais especificamente durante a Era Geisel.

Foi a Era Geisel que formatou o Brasil brega-popularesco da forma como conhecemos. Investiu pesado na domesticação das classes populares ou mesmo da classe média baixa, como forma de neutralizar a revolta causada pela crise econômica vivida no país, consequência do colapso causado pelo aumento do preço do petróleo no Oriente Médio.

Esse processo de domesticação sócio-cultural foi tramado em associação com a grande mídia, com a indústria do entretenimento, o latifúndio e com as empresas de atacado e varejo (que em muitos casos complementam o rádio como divulgação de ídolos musicais brega-popularescos).

Entende-se a grande mídia não apenas os veículos abertamente reacionários, como a Rede Globo (que, naqueles anos 70, não era popularesca), mas também as emissoras de TV aberta e os grandes jornais em geral, dotados de poderio econômico dentro do regime militar.

A TV Bandeirantes, os programas de auditório (como os de Chacrinha pós-1976 - quando o programa tornou-se popularesco - , Raul Gil, Bolinha e Sílvio Santos), as emissoras de rádio AM e até mesmo a TV Record (que havia passado da fase áurea) e TV Tupi (em processo avançado de decadência), formataram o padrão de comportamento das classes populares que envolvia pieguice, de um lado, e grotesco, de outro.

Muita gente hoje tem medo de contestar a hegemonia brega-popularesca, construída na Era Geisel e intensificada em governos civis conservadores (Sarney, Collor, FHC). Acha que essa hegemonia é a "vitoriosa expressão cultural do povo da periferia" e a intelectualidade, em seus preconceitos de classe média etnocêntrica, confunde o perfil domesticado do povo pobre com a natural alegria das classes populares.

Intelectuais como Noam Chomsky e o finado John Kenneth Galbraith questionam a domesticação do povo pobre dos EUA. Galbraith, no seu livro A Cultura do Contentamento, questiona sobretudo o mito da autosuficiência que os poderosos tentam promover ao povo pobre, um verdadeiro puxão de orelha para os pensadores que apostam na "periferia legal" aqui no Brasil.

Mas não é preciso entender de ciência política para ver o contraste do povo tido como "patético" e "bobo" nas lentes da grande mídia, garantindo o sossego dos paternais intelectuais da nação, e as tragédias que o povo pobre sofre no dia-a-dia, como nas enchentes ocorridas em São Paulo e na Região Serrana do Rio de Janeiro, na semana passada.

Somem os idosos embriagados e idiotas, que causam deleite na intelectualidade paternal. Somem os adolescentes com risos de pangaré, as donas-de-casa piegas, os vaqueiros abobalhados, as mocinhas tolas e outros estereótipos de carne-e-osso trabalhados pelos barões da mídia tida como "popular".

Isso porque a fantasia trabalhada pelo rádio e pela TV aberta somem quando os dramas sociais são expostos.

"MARIAS-COITADAS" E BOAZUDAS

A manipulação das classes populares, sejam as classes pobres e a classe média baixa, pela grande mídia, é um recurso utilizado pelas elites dominantes para que o povo não se manifeste de forma autônoma, ameaçando o sistema de privilégios entre os detentores do poder.

No caso da mulher, visa dar um freio nas conquistas feministas, de forma que apenas as necessidades formais, ligadas à sobrevivência sócio-econômica, sejam permitidas.

Por isso é que a grande mídia investiu, por um lado, na promoção de um padrão de comportamento ao mesmo tempo piegas e infantilizado, e, por outro, ao mesmo tempo grotesco e estúpido, para a mulher das classes populares.

Reforçou os antigos aspectos da antiga mulher submissa do século XIX, como a religiosidade exagerada, a pieguice sentimental e uma visão ingênua e infantilizada da realidade em sua volta, privando a mulher de desenvolver um senso crítico.

Na televisão, o exemplo das "colegas de trabalho", a plateia feminina do apresentador e empresário Sílvio Santos (de perfil notoriamente conservador), e as fãs de música brega-romântica (sobretudo Fábio Jr., Odair José, Alexandre Pires, Exaltasamba e Bruno & Marrone, entre outros), são exemplos desse perfil piegas das "marias-coitadas", dotadas também de baixa auto-estima e de falta de discernimento até mesmo na escolha de homens para a vida amorosa.

Enquanto isso, as chacretes já na fase brega dos programas de Chacrinha, assim como a cantora Gretchen, tornaram-se matrizes de um outro estereótipo, que hoje alimenta as chamadas "boazudas", mulheres que só se projetam na mídia através de roupas sumárias, corpos exagerados (os chamados "turbinados") e um erotismo ao mesmo tempo forçado, obsessivo e bruto.

Junta-se a isso a obsessão dessas mulheres por noitadas e pela vitrine certa dos ensaios de escolas de samba, além de outros aspectos como a personalidade temperamental ou, em alguns casos, a aversão da leitura de livros (ou, quando muito, a leitura apenas dos best sellers mais rasteiros), e temos o "mercado" das mulheres "boazudas", que incluem as "mulheres-frutas" do "funk carioca", as dançarinas de "pagode pornográfico", algumas integrantes "descoladas" do Big Brother Brasil e outras celebridades indefiníveis que não são mais do que meros corpos que "mostram demais" na grande mídia.

Todo esse problema vem à tona quando uma mulher ligada aos movimentos progressistas - e que, naqueles idos dos anos 70, foi sobrevivente de uma geração de revoltosos dizimada pelos órgãos de repressão ditatorial - simboliza um novo contexto social, por mais que haja como contrapeso o modelo conjugal arcaico, dos tempos do Segundo Império, formado pelo vice-presidente e sua jovem esposa.

Isso porque, em que pesem esses contratempos conservadores, o Brasil progride e novos valores vêm à tona, desafiando a validade daqueles que até uns dez anos atrás pareciam definitivamente hegemônicos.

É evidente que essas facções conservadoras ligadas ao entretenimento tentam a todo custo camuflar seus valores retrógrados - não muito diferentes do que o PSDB/DEM defendem no cunho político-econômico - com a retórica "progressista", na tentativa de manter intato o Brasil brega-popularesco promovido e alimentado pelas forças políticas, midiáticas e empresariais do retrocesso.

Por isso vende-se a pieguice de "marias-coitadas" e a vulgaridade das "boazudas" como se fosse o "moderno feminismo". O discurso pró-popularesco já deu muitas desculpas, como a tal da "ruptura de preconceitos", ou da "modernidade pop", em retóricas delirantes que se atrevem a se passar por "científicas". Mas o que se vê por trás disso tudo é a reafirmação do machismo.

Afinal, como parte do processo da grande mídia e das oligarquias associadas em domesticar o povo pobre, deixando-o à margem do debate público nacional, a depreciação da figura feminina tem por objetivo elitizar as conquistas do feminismo, dificultando o desenvolvimento de uma personalidade crítica e atuante das mulheres da base da pirâmide social.

Daí o desespero da mídia de celebridades, da imprensa populista, das rádios FM "populares", dos programas de auditório da TV aberta, em fazer de tudo para que o avanço do feminismo se dilua tão somente em aspectos formais, como o mercado de trabalho, sem que a "colega de trabalho" tenha chances de aprimorar-se culturalmente, nem de desenvolver uma consciência crítica da realidade.

Porque personalidade crítica e culturalmente forte é sempre um risco para a concentração de poder das elites em nosso país.

Um comentário:

  1. Eu só espero que a eleição de Dilma Rousseff não sirva para os otários ou mal intencionados dizerem que não há mais o problema da depreciação da mulher na sociedade brasileira.

    E esse "minhas colegas de trabalho" de Silvio Santos sempre me incomodou. Por acaso ele não tem também "meus colegas (homens) de trabalho"?

    Ainda sobre Silvio: será que ele ainda está no DEMo?

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...