terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O "ULTRAROMANTISMO" DE MERCADO


O CORONELISMO MIDIÁTICO DETURPOU O ROMANTISMO DE POETAS COMO CASIMIRO DE ABREU.

Ter sido Casimiro de Abreu pode ser um fardo. Além do mais famoso crime passional ocorrido no Brasil ter acontecido nas vizinhanças da terra do poeta (o assassinato de Ângela Diniz por Doca Street no atual município de Búzios, vizinho a Barra de São João, antigo distrito da cidade que leva o nome do poeta - que, no entanto, está enterrado nesta atual cidade), num episódio que expressa um machismo oposto e hostil à personalidade dos poetas ultraromânticos, há também a exploração oportunista do legado ultraromântico, que consiste nas atuais letras da música brega-popularesca, de um romantismo caricato e sem sinceridade.

Pois, no decorrer do século XIX, houve um movimento romântico surgido na Europa chamado Ultraromantismo. Influenciado tanto pela poesia de Lord Byron quanto pela obra Werther, de Goethe, a poesia romântica se baseava na melancolia pessimista, na solidão dos poetas, nos protestos sociais, numa expressão puramente sincera e autêntica.

O Ultraromantismo, na verdade, era uma forma extrema do Romantismo, movimento literário surgido depois da Revolução Francesa. No Brasil, ele é associado tanto aos versos sobre solidão amorosa quanto às saudades da infância e ao pessimismo existencial.

Seus principais nomes foram Álvares de Azevedo - que só teve sua obra divulgada postumamente, por iniciativa de seu pai - , Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire, curiosamente um baiano, porque era o mais sombrio desses poetas. Quase todos morreram jovens, sendo Fagundes o mais longevo deles, falecido aos 34 anos.

Casimiro, no entanto, foi o mais popular. Sua popularidade rivalizava-se à do poeta romântico Castro Alves (que não foi ultraromântico e marcou-se por sua poesia de cunho abolicionista), sobretudo pelos poemas que falam sobre saudade da infância.

Não farei amostra da poesia de Casimiro neste texto. Não é difícil procurar por suas obras, havendo, em várias bibliotecas do país, uma boa coletânea em pequena brochura lançada pela Editora Agir. A própria Internet também mostra vários poemas do autor, reproduzidos ora em resenhas, ora em blogs. Por isso prefiro aqui estimular a curiosidade e o espírito de garimpagem do internauta, convidando-os a "pescar" ao invés de oferecer o "peixe pronto".

Sabe-se que o romantismo de Casimiro, no entanto, criou uma tradição poética de letras românticas que, cruzando-se com um ou outro referencial romântico - seja Castro Alves, seja a prosa de Gonçalves Dias e José de Alencar, por exemplo - , determinou o imaginário romântico brasileiro, principalmente dedicado a falar de carência amorosa, de saudade, de perda.

O Ultraromantismo, tal como o Romantismo, ambos no caso brasileiro, também marcaram pela busca de uma identidade nacional, a partir da imagem do povo indígena, como da própria ansiedade do fim da escravidão e da consolidação da independência que fez o país recusar-se a manter a condição de colônia portuguesa.

Com o tempo, esse romantismo foi moldado e adaptado na sua expressão artística. É certo que muitas vezes não era um romantismo baseado na vida pessoal de seus cantores, mas mesmo assim era artisticamente elaborado, como os cantores de serestas que poderiam ser muito bem casados na vida pessoal, mas podiam cantar sobre carências amorosas. O contexto permitia.

Atualmente, porém, o imaginário romântico sucumbiu à pieguice, num processo que se deu há mais de 40 anos. Se observarmos as letras das canções de música brega, ou de seus ritmos derivados como o "pagode romântico" e o "sertanejo" - no fundo músicas bregas fantasiadas de "samba" e "música caipira" - , elas são de um exagero sentimentalóide que chega a ser brutal.

Seja Waldick Soriano, Sullivan & Massadas, Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Alexandre Pires e Belo, a "poesia" desses cantores expressa o "ultraromantismo" de mercado moldado pela indústria de "sucessos" brasileira, cuja associação entre mídia, indústria fonográfica e casas de espetáculos envolve oligarquias coronelistas, grupos empresariais midiáticos e empresários regionais do entretenimento.

Portanto, um claro interesse das elites em produzir um "romantismo" para consumo, que não corresponde sequer à expressão artística natural dos antigos seresteiros, nem a vivência pessoal dos poetas ultraromânticos.

Esse "romantismo", umas vezes piegas, noutras risível, acabou viciando o imaginário do público feminino, sobretudo das chamadas "marias-coitadas", tipos de mulheres de formação conservadora, meio donas-de-casa descasadas, meio beatas, de personalidade infantilizada condicionada pelo poderio da grande mídia sobretudo no interior no país.

São moças solteiras que, nos seus perfis do Orkut, Facebook e Twitter, mostram seu gosto musical cafona com orgulho, sem se dar conta de que suas personalidades são condicionadas dentro de uma ideologia machista transmitida por rádios FM locais, pela TV aberta e pelas revistas "populares" de entretenimento.

A exploração midiática desse "romantismo" acaba por promover a baixa autoestima, o que não pode ser confundido com o pessimismo que, entre os ultraromânticos, era expressão de ceticismo e um desabafo que nada tinha de resignado.

O "ultraromantismo" de mercado, isso sim, é feito para promover a resignação social das classes pobres, promovendo seu conformismo com a inferioridade social, alienando homens e mulheres do debate político e da busca pela melhoria da qualidade de vida.

Quanto a este ítem, a ideologia brega-popularesca sempre pede para o povo pobre esperar que outro lhe ofereça qualidade de vida, a pretexto de uma falsa esperança.

Hoje é certo que temos um quadro político mais generoso com as classes pobres, mas, por outro lado, o atual quadro sócio-político significa a perda de sentido daquela campanha brega de transformar o povo numa massa infantilmente resignada, através de um romantismo ao mesmo tempo grotesco e caricato, que em nada enobrece as classes populares.

Essa mentalidade brega não desenvolve identidade regional alguma - por mais que os delirantes intelectuais tomados de devaneios "pop" tentem sugerir o contrário - , não enobrece a figura humana, não transforma a vida das classes pobres e muito menos traz qualidade de vida e esperança para o povo. Só alimenta um mercado conduzido por latifundiários, barões do atacado e varejo e dos grãos-senhores do entretenimento regionais.

Só que a intelectualidade comprada pela indústria popularesca ainda quer associar a imagem brega ao povo pobre, como se ela fosse sua natural vocação. Não é. Tudo isso foi construído, idealizado, pelo mercado. Nós é que parecemos nos acostumar com essa caricaturização das classes populares, mas que é um problema grave para ser discutido, isso não podemos nos recusar a fazê-lo.

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