
O JABACULÊ SÓ NÃO EXISTE, DE FATO, EM PROFISSIONAIS COMO O DJ MAURÍCIO VALLADARES. DE RESTO, O PROPINODUTO ELETRÔNICO CONTINUA.
Por Alexandre Figueiredo
A velha grande mídia fantasiou o Lobo Mau de vovozinha e depois anunciou a morte do Lobo Mau.
É assim com o jabaculê e outros mecanismos de mídia e indústria cultural. Agora a velha grande mídia, para se passar por "moderna", anuncia que a grande mídia morreu (pelo menos no que se diz ao entretenimento) e que a indústria cultural não existe mais.
Pura balela. História de pescador. Ora, para a imprensa conservadora que comete erros gramaticais e sua linha editorial prefere lançar mão de equívocos e visões delirantes que estejam de acordo com os interesses de poder, é bom não acreditar mesmo que a indústria cultural morreu.
Recente reportagem de capa do Segundo Caderno de O Globo, na edição de hoje - o linque também é disponível aqui - investe no mesmo apelo que a Folha de São Paulo fez em reportagem sobre música e identidade cultural brasileira.
No entanto, o foco é outro. São os programas específicos de rádio FM, de vários estilos, numa abordagem claramente publicitária, em que pese a boa intenção de alguns programas (como o Ronca Ronca de Maurício Valladares, programas de MPB e até mesmo um destacado programa na decadente e esquizofrênica Transamérica Pop, que em seu verdadeiro alzheimer existencial já pensou ser uma "rádio rock" e hoje insiste em soar feito "rádio AM" em alguns horários).
A reportagem exagera dizendo que o rádio FM voltou aos áureos tempos de criatividade. Até porque, muitas vezes, a criatividade atribuída aos programas citados (mas nem todos têm esse mérito, como os da FM O Dia e Beat 98, popularescas e, sim, jabazeiras), cujo repertório nem sempre se transfere para o cardápio diário das emissoras que o transmitem.
Até porque o rádio FM, ultimamente, não está essa maravilha toda. E que está perdendo audiência, sim, como se observa nas ruas. Sobretudo por causa da fórmula mofada do "Aemão", até porque o rádio AM só pega bem mesmo em rádio AM. Se não tecnicamente falando, pelo menos socialmente e historicamente falando.
Mas isso é outra história.
O que queremos dizer aqui é que o jabaculê não acabou. Pelo contrário, até se "profissionalizou" e tornou-se independente da música. Nas FMs, as "jornadas esportivas" (Aemão puro), por seu tendenciosismo e pretensiosismo, já possui um esquema de jabaculê bem maior e que movimenta muito mais dinheiro que o jabaculê musical. Mas, mesmo assim, o famigerado jabaculê musical continua nas FMs, ele apenas deixou de ser exclusivo dessas rádios.
O jabaculê hoje envolve cientistas sociais, jornalistas, envolve outro contexto. As relações de poder dentro da indústria cultural, com a falência de lojas de discos e com a crise da indústria fonográfica - que fez sete grandes gravadoras se converterem em quatro, devido às fusões nos últimos 15 anos - , não deixaram de ocorrer, e é muito discutível que a própria grande mídia, ela mesma um grupo de corporações da Comunicação, insista que a indústria cultural morreu e que agora o sucesso chega diretamente nas "redes sociais" e nos aparelhos de MP3 e similares.
NOVO DISCURSO DA DIREITA APELA PARA USO "INDIVIDUAL" DA TECNOLOGIA
É como se alguém dissesse, em 1990, que a humanidade atingiu a paz mundial com a queda do Muro de Berlim e do Leste Europeu. São teses assim que fazem a fortuna de um Francis Fukuyama através de livros e palestras, e mostram o novo discurso da direita, através da sua abordagem do entretenimento.
É uma retórica que aposta na fragmentação. Não seria, porém, uma retórica da fuga? Na fuga de uma quadrilha, vários membros se dispersam, visando a sobrevivência e dificultando a captura.
Os barões da indústria e os artífices do mainstream tal como conhecíamos até cerca de 15 anos atrás, acuados, tentam fugir e hoje todos dizem agora que o "sucesso" se dá não mais pelos listões nem pela badalação midiática, mas pelas "redes sociais" e pelas novas tecnologias da Internet, superestimando a ação individual.
Sabemos que isso não é verdade. Até agora, não se comprovou que as "redes sociais" são, por si só, determinantes para o sucesso de alguém na mídia. Pelo contrário, é a grande mídia que, divulgando com muita frequência a "façanha" de alguma pessoa nas "redes sociais", como Twitter, YouTube e Facebook (parece que o Orkut, estranhamente um reduto de brasileiros, ficou fora de moda), determina o seu sucesso.
Ou seja, se as "redes sociais" determinam o sucesso de alguém na Internet, nunca é de forma direta. Esse sucesso depende da projeção dos veículos tradicionais da grande mídia. Além disso, é para desconfiar esse oba-oba que a própria grande mídia faz, que mais parece uma autoreverência às avessas, um sarro de si mesma, dentro do estilo pop.
Afinal, a grande mídia, ao anunciar, no âmbito do entretenimento, a sua própria morte, ela na verdade anuncia seu renascimento dentro de um outro contexto. As relações não se dissolvem, e não é possível, nem sequer provável, que os barões da mídia do entretenimento queiram abrir mão de seus privilégios de décadas, assim de bandeja, e entregar as rédeas do show business (talvez não com esse nome) a um grupo de garotões que criaram seus sítios de relações sociais na rede.
Enquanto as plateias brasileiras vão dormir tranquilas porque Globo e Folha anunciaram que a indústria cultural morreu, nos bastidores as relações de poder da nova indústria cultural herdam vários aspectos e indivíduos da fase anterior. Essa fase não se extinguirá, todavia. Ela se transformará. Como está se transformando.
É bom que muitas pessoas se preparem para as novas armadilhas do showbiz e do jabaculê atual. As relações de poder não terminaram. Gravadoras aparentemente pequenas herdarão a selvageria mercantilista das grandes multinacionais. A indústria cultural apenas se tornará mais regional, se fragmentará em núcleos locais, o que não significa uma ruptura na lógica ditada pelos grandes centros.
Portanto, é melhor acreditar que nada, essencialmente, mudou. A retórica otimista sonha demais. O mercado é traiçoeiro. O jabaculê, a indústria cultural, a grande mídia do entretenimento e seus barões continuam. E eles podem continuar tomando as rédeas do showbiz, por mais que tenhamos Twitter, Facebook, YouTube e iPod.
Se a industria cultural tivesse acabado, não teríamos essa musiqueta tosca que tola na mídia, além de termos músicas mais cerebrais estourando nas paradas.
ResponderExcluirVendo o cenário cultural atualmente, dá para perceber que nada mudou nas relações de poder impostas pela mídia. Apenas mudaram as regras do jogo, sem acabar com o jogo.
Só tenho algo a acrescentar ao texto. As grandes gravadoras, hoje, são cinco, não quatro: Sony, Universal, EMI, Warner e Som Livre. E, como bem anotado, várias das outras não fogem do mesmo modus operanti predatório das grande cinco.
ResponderExcluirEu sei, Marcelo Delfino. Mas eu estava me referindo às multinacionais. A Som Livre é uma grande gravadora, sim, mas no âmbito nacional, apesar de existir a Globo International, comandada pelo marido de Patrícia Poeta.
ResponderExcluirSerá que criaram uma gravadora Globo International e eu não fiquei sabendo?
ResponderExcluirO que sei é que existe uma Globo Internacional, mas não é uma gravadora. É um canal de TV à la carte que exibe a mesma grade da programação da Globo aberta do Brasil, com exceção de coisas sobre as quais a Globo só tenha direito de exibir no Brasil, como filmes estrangeiros, seriados estrangeiros e mesmo o famigerado BBB. Estes programas são substituídos na Globo Internacional por reprises de produções da própria Globo.