sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

"NOJINHO DE POBRE" É O QUÊ, MESMO, CARA PÁLIDA?



Por Alexandre Figueiredo

"Eu entendo de povo pobre", diz o burguesinho, feliz no seu condomínio de luxo, apenas comprometido com suas obrigatórias audiências a programas que, no típico recorte tendencioso de produções, edições e interpretações, "mostram" a periferia "como ela é", dentro dos limites ideológicos da emissora e dos limites sócio-econômicos de quem divulga essa periferia.

Mas o burguesinho, arrogante, "dono da verdade", cheio de desculpas, de pretensos argumentos, capaz de réplicas insistentes, acusações raivosas porém infundadas (mas que para ele são expressões de "pura sabedoria"[sic]), insiste que "entende de periferia como ninguém".

É essa a postura de muita gente que defende essa pseudo-cultura do brega-popularesco. Gente que parece acreditar que o Brasil virou um paraíso de justiça social, e que faz um discurso "humanitário" que, na verdade, esconde seus preconceitos, bem mais cruéis do que aqueles que supostamente são atribuídos a nós, humildes adeptos do senso crítico.

Nota-se, nas suas alegações "tão certinhas", que essa moçada arrogante acredita em determinadas ilusões:

1) O Brasil atingiu o grau pleno da cidadania e da justiça social.

2) A mídia grande é guardiã dessa justiça social em sua perfeição.

3) Quem falar mal dessa perfeição é que é "preconceituoso", "moralista" e outras "crueldades".

Dessa forma, nada como um Benito Mussolini da vida copiar a retórica de Mahatma Gandhi para disfarçar seus preconceitos. Qualquer semelhança entre tais internautas e Francis Fukuyama não é mera coincidência. Aliás, não é coincidência alguma.

O tal "nojinho de pobre" quem sente é aquele cara de classe média que fala tão bem do "rebolation" e do "tecnobrega" como "últimas palavras em expressão da periferia". É dele esse sentimento de nojo pelos pobres que ele tanto disfarça com um discurso o mais dócil possível.

Pois o mesmo carinha abastado que se gaba em "entender de periferia" só porque viu os programas da Regina Casé na Rede Globo e que também assiste aos programas do SBT e Rede Record, é aquele que é incapaz de ir a uma feira livre sem fazer sua cara de horror.

Na Internet, tudo fica fácil. Ele escreve em suas mensagens que adora pobre, que não tem o menor preconceito contra a periferia, que quer o melhor para as classes populares, que pensa na felicidade deles.

Tudo isso é um ativismo social de mentirinha. E que esconde visões fascistas, elitistas, como no filme Terra Em Transe (1967), do genial Glauber Rocha. Num trecho do filme, o jornalista Paulo Martins (Jardel Filho), num surto elitista, manda o personagem trabalhador (interpretado por Flávio Miggliaccio) calar a boca, numa demonstração do quanto as elites paternalistas, quando querem, impedem o povo de falar, porque são essas elites que "falam pelo povo".

Pois essa ideologia brega-popularesca no fundo significou esse "cala boca" imposto ao povo pobre, que era obrigado a permanecer quieto no seu recreio da cafonice, da tolice, da mediocridade. O povo acaba sendo visto na mais hipócrita visão paternalista pelas elites.

Porque, para essas elites, o povo "é autêntico" e "feliz" quando dança seu "rebolation", seu "créu", seu "axé". Quando mostra seus sorrisos desdentados na televisão. Quando mostra sua "ignorância pura", ao qual não podemos problematizá-lo. Quando enche a cara no botequim. Quando vai que nem gado à casa noturna suburbana para consumir os atuais ídolos do brega-popularesco.

Chegam mesmo a dizer que a Educação não é necessária, porque isso seria interferir na "admirável inocência" das classes pobres. Acham que o povo pobre só tem valor "na sua mais pura ignorância, que o faz ter cheiro de povo". Acham que a escola irá estragar com a periferia, que Paulo Freire não passou de "um burguês metido".

E ainda dizem que "não se pode generalizar", como se dissesse que o MC Créu "pode ser ruim", mas o MC Leozinho é "um gênio". Ou que o Calcinha Preta "pode até ser péssimo", mas os Aviões de Forró "são o máximo". Quem pensa assim não fala em prol da cultura do povo, pensa tão somente no mercado do brega-popularesco, que precisa faturar à custa de alguns ídolos "menos ruins". Reprovar a mediocridade cultural como um todo incomoda o burguesinho porque põe o mercado todo em risco de falência.

Mas fazem um discurso doce feito mel, que esconde intenções puramente cruéis, maléficas.

Porque o mesmo cara que acha lindo o "rebolation", porque é a "expressão pura do povo da periferia",e acha o "funk carioca" o "primor de cidadania", é o mesmo que se horroriza quando vê os pobres fazendo passeata pedindo melhorias para seu bairro.

É o mesmo cara que sorri, quando vê os pobres sorrindo arreganhados para Regina Casé na televisão, o que sente horror quando tem que atravessar, de carro, um bairro popular para ir para outro município.

É o cara que acha lindo atribuir uma barbaridade como o Calcinha Preta como "expressão da periferia" - ignorando que o grupo é daqueles comandados pelo empresário e patrocinados pelos "coronéis" do latifúndio - , mas que fecha a janela do carro toda vez que passa perto de um pobre necessitado.

Posar de progressista é muito fácil. Você cria uma conta no fórum do blog do Luís Nassif, faz todo o teatrinho contra a Rede Globo - que você adora, até com certo fanatismo, mas é obrigado a esculhambar porque está na moda - , bajula a Dilma, o Lula, o Che Guevara, até que na hora H você pede para os amigos não falarem mal do PiG porque "a mídia é desprezível", algo que o hoje vovô Cabo Anselmo fez parecido há mais de 45 anos atrás.

Tendo visibilidade, o reacionário pseudo-progressista tenta reverter seus preconceitos de classe numa falácia politicamente correta que dê a falsa impressão de que tal reaça é "humanista", "sem preconceitos" e "solidário às classes populares".

Seu discurso acaba mostrando falhas, num e noutro momento. Fala de sua "defesa convicta" do povo pobre com o distanciamento de quem vê a multidão do alto de seu prédio. "Não vamos falar do povo pobre, deixa o povo, o povo é feliz", diz ele, com o ar de um nobre que não quer ser incomodado com polêmicas que, para ele, "não tem sentido".

Quando ocorrem deslizamentos de terra, ondas de violência, entre outros transtornos vividos pelas populações pobres, o burguesinho tão "solidário" com a periferia faz desdém, ainda que tente desconversar. "É por isso que tem o 'rebolation' e o forró-calcinha para alegrar essa moçada sofrida", diz, com natural e calma hipocrisia.

Mas quando nós reivindicamos uma justiça social que ainda não existe, esse burguesinho se irrita. "Tu tá (sic) de preconceito, tu é (sic) moralista!", diz ele, com raiva. Acusações de "preconceito", de "discriminação social", de "nojinho de ser pobre", vêm à tona, como se o burguesinho livrasse de seus próprios adjetivos como alguém que joga a bagagem no lombo dos outros.

É assim que funciona. O burguesinho tenta argumentar e, quando consegue, tudo bem. Mas ele mostra um nervosismo que é muito estranho para ele, que se autoproclama "ser tudo de bom". E, quando os argumentos tão insistentes, bonitinhos mas frágeis se esgotam, ele normalmente parte para a ignorância, mostrando-se claramente reacionário.

Aí, com a máscara caída, o burguesinho, que se dizia tão solidário com a periferia, não consegue esconder seus mais cruéis preconceitos elitistas, que nenhuma mensagem bonitinha ou certinha na Internet consegue mais esconder.

2 comentários:

  1. O direitista dente-de-leite não gostou da mensagem e me esculhambou.

    Ah, e o cara me ironizou dizendo que eu estava com raivinha por causa dos comentários tão "sábios" dele.

    Eu não sou dono da verdade, o que eu escrevo é fruto de uma observação mais objetiva da sociedade, ver as coisas não só pela aparência nem pelo marketing, mas observar criticamente o mundo à nossa volta.

    O problema é que esse carinha ultra-reacionário só quer defender o estabelecido. Acho que ele é filho de algum figurão do PSDB.

    Ele ainda vai sofrer muito por querer que a verdade seja sempre sua.

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  2. Não publiquei a mensagem dele porque ela só se resume em ataques violentos. Acho que publicar a mensagem do reaça iria assustar a criançada que pesquisa a Internet hoje em dia. Mas ele tentou insistir que eu "sinto nojo de pobre", coisa que ele está TOTALMENTE EQUIVOCADO.

    Ter senso crítico não é ter nojo ou aversão. Será que o cara não sabe disso?

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