quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

MÍDIA BRASILEIRA É ATRASADA ATÉ NO ENTRETENIMENTO


A MÍDIA BRASILEIRA LEVOU 15 ANOS PARA ENTENDER AS RAVES BRITÂNICAS, DEPOIS QUE ELAS DEIXARAM DE VIRAR MODA NO REINO UNIDO.

Por Alexandre Figueiredo

Quando se fala que a grande mídia é velha, esclerosada e atrasada, não se deve entender apenas na sua editoria política e nas suas pregações ranzinzas contra medidas de interesse público. Se deve entender também no que se diz ao entretenimento, à cultura, à arte, embora saibamos que não se deve confundir entretenimento com cultura ou arte.

Pois até nesses setores a mídia brasileira está num atraso retumbante. Chega a ser uma demonstração de provincianismo caipira a mídia defender a gíria "balada" como se fosse a última palavra em matéria de gíria. Mas o termo, até hoje, só serviu para definir uma tradução ao mesmo tempo preguiçosa, pedante, provinciana e datada das raves britânicas.

Aliás, houve um tempo em que o jovem brasileiro só queria saber de hip hop ou techno. Não porque esses estilos em si são datados, mas nota-se que a adoração dessa juventude amamentada pela grande mídia golpista - que possui seus redutos "descolados", como o canal de TV Multishow, o portal de Internet Ego (do Globo.Com), o Folhateen da Folha de São Paulo, o Caldeirão do Huck, a revista Capricho - tem um quê de coisa mofada. Como as rádios ex-jovens Jovem Pan 2 e Transamérica, que mais parecem cadáveres em avançado estado de decomposição.

Isso porque é a obsessão de parte midiotizada da juventude brasileira por eventos "modernos" que as move nesse culto a modismos "de ponta". Só que, mais uma vez, até para acertar o relógio o Brasil da grande mídia anda muito atrasado.

Pois o hip hop e o techno, como referenciais de modismo dessa juventude "descolada, são coisas completamente datadas, no que se refere à condição do sucesso predominante. Respectivamente, as duas tendências tiveram sua época no mainstream em 1983, sobretudo através da dança breakbeat, que lançou a onda hip hop nos EUA, e em 1988, quando o evento britânico Summer Of Love lançou as raves, a música eletrônica e a "cultura dos DJs", quando os disc jockeys eram os astros desses eventos.

Todo mundo gosta do que quiser, mas o que se diz aqui é que, enquanto a "galera" brasileira tinha obsessão por rappers e DJs, o exterior vinha com o renascimento do rock alternativo através de bandas calcadas no então pouco conhecido cenário alternativo de 1979-1981.

Mas, espere aí. Se eu critico uma tendência antiga, por que recomendo outra tendência antiga?

O problema não está aí. Está no fato de que o Brasil não consegue ser contemporâneo, mesmo quando quer ser retrô. As raves de 2003 eram datadas, mas não eram vistas como retrô. O problema não está em ressuscitar o antigo e renová-lo, mas em pegar uma onda tardiamente, sem mais contexto real para isso, e levá-lo como se fosse "novidade".

Dessa forma, enquanto o mercado lúdico brasileiro via desenvolver-se um despotismo de DJs pedantes que não sabiam a diferença entre a soul music dos anos 60 e a disco music, faziam um ralo dance bate-estacas e vampirizavam da Bossa Nova à Jovem Guarda, no Reino Unido e nos EUA grupos como Strokes, Franz Ferdinand, Interpol, Data Rock, Donnas e Kaiser Chiefs atualizavam referenciais lançados 30 anos antes por grupos como Television, Wire, Cars, Gary Numan, Wall Of Voodoo e Au Pairs.

Então, existe uma diferença entre os "descolados" brazucas que correm atrás do Verão do Amor perdido e os alternativos britânicos e estadunidenses que revitalizam sonoridades saudosas de Ric Ocasek, Stan Ridgeway e Vini Reilly, entre outros, em tendências atuais que fariam os citados mestres sorrirem de orgulho (e creio que eles sorriem).

O Brasil é tão datado, pelo despotismo não só da velha grande mídia como também do despotismo, não menos ridículo, de DJs, produtores fonográficos e empresários de talentos, que lançam tendências mofadas como se tivessem feito uma descoberta inédita. Não é de surpreender a sucessão de nomes que vão e vem com o vento, como Sublimes, Broz, Rouge, Sampa Crew, Maurício Manieri e Fat Family, todos querendo requentar aquilo que já foi feito lá fora, sem sequer dar alguma vitalidade, ainda que pálida, à tendência original.

No brega-popularesco, então, nem se fala. O que dizer de uma categoria musical que, já nos seus primeiros ídolos (Waldick Soriano, Odair José, Paulo Sérgio), segue tendências ultrapassadas, modismos que já se passaram? Todas as suas tendências sempre parecem como um vira-lata raivoso correndo atrás de uma moto. Não conseguem ultrapassá-la, por mais que tentem correr.

Soa patético, por exemplo, ver tanto o caso de Gretchen, que começou fazendo um proto-forró-brega em francês e com nome artístico de nórdica (para esconder o nome de batismo Maria Odete), numa pseudo-modernidade que, já naqueles idos de 1978 soava antiquado, ou o caso do vocalista do Parangolé dizer que para fazer seu "rebolation" se inspirou na sonoridade trance européia. Coisas totalmente forçadas, que nada expressam em modernidade.

A axé-music é antiquada, cheirando a pop bobo dos anos 80 travestido de reggae, salsa ou frevo. O "funk carioca" é antiquado, caricatura do que o miami bass dos EUA já havia feito uns 15 anos antes, com o agravante de que seus empresários-DJs promovem o mesmo despotismo pedante de sua classe. Nomes como o É O Tchan (*) são antiquados, sua pretensão "pós-moderna" é forçada e postiça. E até o tecnobrega é antiquado, por sua própria natureza medíocre e mercantilista.

Também nada soa moderna a tradução "emo" do folk rock através do "sertanejo universitário". Até porque é a mesma coisa mofada que Odair José e Paulo Sérgio faziam há 40 anos atrás. Além do mais, o que essa "música sertaneja" tem de moderna se, de Chitãozinho & Xororó para a frente, o que se vê é essa música pseudo-caipira tão claramente apoiada por latifundiários e barões de agronegócio, eles em si defensores e guardiões de ideais retrógrados herdados da República Velha.

O mais preocupante disso tudo é que a mídia do entretenimento no Brasil, e seu público de adeptos e defensores reacionários, sentem uma grande arrogância pelo provincianismo que eles entendem como "a sua modernidade". Querem ser futuristas sendo tão atrasados. E usam como desculpa sempre o relativismo: "não vamos generalizar", "nós temos nosso jeito de sermos modernos".

A mais nova onda dessa "modernidade" provinciana é o marketing em torno de um inocente evento sobre tecnologia e informática, o Campus Party. Os midiotas de plantão, em claro exagero, creditaram o evento como "uma festa da nação nerd", quando o Campus Party não é mais do que um evento como outro qualquer, onde tem gente de todo tipo, e que os nerds, de fato, são apenas minoria, descontando seus novos arremedos que são aqueles pseudo-nerds que parecem ter saído dos comerciais das cervejas Nova Schin e Skol.

O Brasil não precisa ficar na cola dos estrangeiros para adotar tendências. Mas precisa ter um mínimo de contemporaneidade. Em vez de ser um "museu de grandes novidades", o Brasil deveria ter um pouco mais de humildade e de observação, para que não inicie sua festa depois que a dos outros ter se encerrado.

As elites do entretenimento no Brasil vivem trancadas em seus escritórios, sem ver o mundo à sua volta. E, quando surge uma novidade, são sempre os últimos a saber.

Mas esse atraso cultural do Brasil se deve ao próprio atraso da mídia. A arrogância provinciana de certos jovens ditos "descolados" não é mais do que o reflexo dos veículos e espaços juvenis criados e desenvolvidos pela grande mídia.

(*) O É O Tchan é pouco recomendado para a vovó e para o netinho, sendo um grupo abominável dos 8 aos 80. O É O Tchan é impróprio para a vovó, porque é pornográfico e pode causar problema no coração. O É O Tchan é impróprio para o netinho, porque seu erotismo exagerado e grosseiro pode criar desvios de conduta moral e controle dos desejos sexuais na idade adulta.

O É O Tchan é machista, mas suas dançarinas pensam que ser feminista é não contar com o sustento de maridos ou namorados. Dizem que não têm namorados porque está difícil arrumar homens, quando na verdade é porque está difícil arrumar horários para conhecer os homens que são pretendentes. Que, certamente, não sou eu nem você, no caso de você ser um leitor masculino. Nós queremos mulheres realmente de conteúdo, sem qualquer trocadilho pornográfico.

2 comentários:

  1. Alexandre, você já deve ter visto, algumas vezes, que a Jovem Guarda de 1965-1968 ainda era inspirada nos tempos cinquentistas da brilhantina Gumex e na música jovem italiana de 1958-1964.
    Agora, faltou você falar que a expressão "museu de grandes novidades" estava na música "O Tempo Não Pára", do Cazuza.

    ResponderExcluir
  2. Já citei que a expressão foi descrita por Cazuza em outra oportunidade. Preferi não repetir nesta ocasião.

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...