sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

MICHEL TEMER NÃO É JUSCELINO


A ÚNICA COISA COMUM NESTAS DUAS FOTOS É A CIDADE ONDE CADA UMA FOI FOTOGRAFADA.

Por Alexandre Figueiredo

O episódio envolvendo a vice-primeira dama do Brasil, a jovem Marcela Temer, talvez tenha evocado os preconceitos machistas bem mais do que o episódio do termo "feminazi". E cria uma postura meio covarde mesmo dentro do ramo progressista.

De repente, por conta de uma jovem e bela esposa, o vice-presidente da República, Michel Temer, saiu como um "santo", como "um homem que sabe o que quer", como "sinônimo de bom gosto e requinte". Preconceitos que lembram muito o background de muitos esquerdistas de primeira viagem (que não podem ser confundidos com os pseudo-esquerdistas, é bom lembrar), cuja educação sócial, política e ideológica ainda remete, na melhor das hipóteses, aos períodos neoliberais de Collor e FHC.

Mas isso é uma outra história para analisarmos quais esquerdistas foram ideologicamente amamentados por Collor e FHC, por Rede Globo e Folha de São Paulo. O que podemos dizer aqui é que isso influi muito nos preconceitos politicamente corretos, ou seja, os preconceitos que vestem a máscara do "combate aos preconceitos" e que faz um discípulo de Otávio Frias Filho como Pedro Alexandre Sanches ser aceito na mídia esquerdista sem qualquer desconfiança, enquanto Sanches joga a visão da Folha sobre "cultura popular" assim de graça, na Caros Amigos, Fórum e Carta Capital. Para depois, de castigo, falar de Gal Costa fase 1967-1973 e de Itamar Assumpção, que os fãs de Gaby Amarantos poderiam conhecer, mas os coronéis do rádio FM de Belém do Pará não deixam.

Pois o episódio de Marcela Temer criou uma sensação de melindre que faz com que muitos internautas confundam tolerância com permissividade. Querendo desmentir aquilo que eles chamam de "preconceitos machistas", além de "outros preconceitos sociais", não conseguem explicar que "feminismo" desejam enxergar no caso, preferindo apenas "deixar" o idoso vice-presidente ficar com sua gatinha.

Eles não enxergam o óbvio, que é o casamento por conveniência, típico das oligarquias do século XIX, expresso no casal Temer. Um contraponto conservador ao espírito arrojado da titular Dilma Rousseff, que tem temperamento enérgico e lutou contra o regime militar e hoje está divorciada.

Não vou aqui divagar muito sobre o direito de homens terem ou não mulheres mais jovens. Sei que o direito se daria se os homens participarem do estilo de vida de suas esposas, sendo mais joviais. Evandro Mesquita pode ter mulheres bem mais jovens, por exemplo. Mas, infelizmente, a maioria esmagadora dos homens que se casam com mulheres mais jovens é dotada do que eu chamo de "egoísmo etário". Os maridos, neste caso, se isolam num paradigma de "maturidade" do qual se tornam prisioneiros e escravos, tudo em nome da "elegância", do "comedimento" e da "consciência de sua idade".

O que se discute aqui é que com o caso de sua esposa Marcela, Michel Temer saiu dessa com reputação alta. De repente, ele se tornou um político que, na retórica, parece tão importante quanto Juscelino Kubitschek. Pior: essa facção mais frágil dos internautas progressistas acaba fazendo coro à mídia golpista, que superestima a influência de Michel Temer no Governo Federal.

Em primeiro lugar, Michel Temer é um político do PMDB. Um partido sem a menor identidade política, remanescente da ditadura militar, sem muita confiabilidade, sendo considerado o maior partido de aluguel do país. É um partido capaz de estabelecer alianças com o PSDB em 2000 e com o PT mais recentemente.

Temer nunca foi um político carismático. Não é um político de grandes realizações. Ele foi marcado apenas pelo seu poder, como advogado e empresário do setor. Ele se projeta mais pelo puro status de poder, do que por qualquer iniciativa em prol dos brasileiros, tarefa na qual Temer nunca teve qualquer destaque.

A luta política de Michel Temer é inexpressiva, sem marca verdadeira, e seu perfil não difere muito de um José Sarney ou de outros colegas do partido, símbolo do que os cronistas políticos chamam de "fisiologismo político", que é a prática oportunista de embarcar em qualquer projeto ou medida política que garanta a ascensão ou permanência no poder.

Por isso, não há como enobrecer nem exaltar a figura de Michel Temer, mesmo na condição de marido de uma bela jovem. Isso acaba expondo preconceitos machistas de gente que diz condenar o machismo, mas demonstra estar subserviente ao jogo das aparências, ao laissez-faire do cotidiano, ao status quo dos valores duvidosos, tentando ver feminismo num casamento do século XIX como quem vê cabelo em ovo.

No máximo, Temer, em seus momentos de presidente em exercício, terá que seguir o programa acertado pela titular Dilma. O PMDB teve que ser domado pelo PT e não levou os principais ministérios. E Temer nada vai fazer de marcante no comando ocasional da presidência da República.

É isso que ocorre com o brega-popularesco. A defesa de uma intelectualidade de classe média, aparentemente inclinada à esquerda, a uma pseudo-cultura "popular" que rola nas rádios e TV aberta, porque "a maioria gosta" e "é isso que o povo sabe fazer", mostra o quanto existe de preconceito em pessoas que se julgam "sem preconceitos".

Apavorados, eles intelectuais se consolam por ter uma visibilidade que este blog não tem, mas um dia o jogo se inverte e aí eles terão que explicar para todo mundo os equívocos de sua visão em que "justiça social" é tão somente a periferia andar maltrapilha no Barra Shopping e estar em dia com o consumo (neoliberal) da modernidade pop.

Por isso é que ainda tem muito entulho conservador em mentes progressistas. É um tal de "deixa pra lá", que envergonharia Noam Chomsky, se ele soubesse de parte de nossos esquerdistas tão melindrosos.

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