sábado, 22 de janeiro de 2011

IMPRENSA POPULISTA É IMPRENSA JAGUNÇA


VULGARIDADE, SENSACIONALISMO, GROSSERIA - O jornal Meia Hora, do Rio de Janeiro, é o exemplo da outra face da mídia golpista brasileira.

Por Alexandre Figueiredo

Na estrutura coronelista, existem duas figuras principais: o latifundiário, conhecido também como "coronel", e seu capataz, conhecido como "capanga" ou "jagunço". Para defender seus interesses, o "coronel", quando ameaçado, encomenda o "jagunço" a realizar certas "tarefas", sobretudo no extermínio de opositores de qualquer ordem, sejam sobretudo sindicalistas, missionários progressistas e políticos e autoridades rivais.

Na grande imprensa, é a mesma coisa. Há a famosa imprensa golpista, detentora do alto escalão de poder, que defende os interesses "sagrados" das elites dominantes do Brasil e as elites multinacionais aqui influentes. E há a imprensa populista, encaminhada para manipular a opinião das classes populares, procurando neutralizar o máximo possível a revolta popular diante das limitações que as classes pobres sofrem há muito, muito tempo.

A maioria da opinião pública progressista subestima a gravidade da imprensa populista. Na maioria das vezes, acha apenas uma imprensa pequena, risível e divertida. A falta de avanço no senso crítico faz com que, por mais que se considere a imprensa populista ruim e anti-profissional, há um certo consentimento dessa imprensa medíocre, baseada numa visão paternalista do povo pobre.

ÚLTIMA HORA, PASQUIM E MEMÓRIA CURTA

Não se entende imprensa populista, aqui, com o sentido que se deu ao antigo jornal Última Hora. Este era um jornal de nível, quando surgiu. Era visto como tendencioso por uns, apenas porque surgiu para apoiar o governo de Getúlio Vargas, entre 1951 e 1954. Mas o legado trabalhista de Vargas, que gerou várias conquistas sociais (como o voto das mulheres, o salário mínimo e a previdência social), justificavam a postura, até porque a imprensa restante fazia oposição ao líder gaúcho. E Última Hora era um jornal de alto nível, um dos que transformaram a linguagem jornalística naqueles agitados anos 50, uma época de transformações diversas para o Brasil.

A memória curta e a baixa compreensão dos mais jovens - e fala-se de quarentões ou mesmo de cinquentões de primeira hora - faz com que a imprensa populista tipo o carioca Meia Hora e o extinto paulista Notícias Populares fosse confundida não só com a Última Hora mas também com o jornal político-cultural Pasquim, lançado em plena ditadura militar para opor-se a ela com muito senso de humor.

Nada a ver. Assim como a Última Hora foi um bom jornal popular, numa época em que o povo pobre, ainda que injustiçado, não era transformado na sua própria caricatura (como é o que faz a mídia popularesca de hoje), o Pasquim era um jornal que misturava tiradas humorísticas - seja em esquetes, paródias ou charges - , ensaios intelectuais, crônicas, resenhas e entrevistas. Era um descendente do periódico A Manha, de Apparicio Torelly (Barão de Itararé), irmão mais novo da efêmera revista Pif-Paf de Millôr Fernandes e antecessor de periódicos da Internet como Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, e o hilário Cloaca News.

Portanto, a imprensa populista que aqui se fala não faz jornalismo bem feito como fazia a UH e nem se dispõe do nível intelectual do Pasquim. Apenas coincidem aspectos como a estética em cores chamativas herdadas do jornal de Samuel Wainer e a ironia do Pasquim. Mas sem a inteligência e o respeito humano dos antigos veículos de imprensa.

IMPRENSA JAGUNÇA

Com a ditadura militar, as elites intensificaram toda uma elaboração de "cultura popular" que pudesse domesticar as classes populares, evitando-se assim a revolta das populações mais pobres diante dos rumos estabelecidos pelas políticas conservadoras.

Isso significava criar uma "cultura" na qual o povo se torne ao mesmo tempo conformista com sua inferioridade social - tida como "superioridade" pela discurseria intelectual mais recente - e infantilizado no seu comportamento, variando entre os aspectos piegas e grotescos, conforme o contexto.

Sabemos da Música de Cabresto Brasileira, a trilha sonora asséptica patrocinada pelas elites e que a grande mídia tentou vender como "a verdadeira música popular" só porque seus ídolos lotavam plateias com muita facilidade (mas isso depois de muito marketing).

Mas há também a imprensa policialesca da TV, a imprensa populista, e, em certos aspectos, a imprensa fofoqueira mais rasteira (o sítio Futrico - http://www.futrico.com.br - é um exemplo). Todos apostando no pitoresco, no vulgar, no banal, no grotesco, às vezes na mais chorosa pieguice, tudo para estimular os mais baixos e mórbidos sentimentos do "povão", distraindo-o e evitando qualquer reação que ameace todo o sistema de privilégios e poderio vigentes.

Aos homens, se reserva todo o circo da vulgaridade feminina, um festival de corpos "turbinados" de popozudas e boazudas em geral, tudo dentro dos padrões machistas de exploração da sensualidade feminina, em níveis brutais e grotescos.

Há também as reportagens policiais onde a natural indignação popular é desviada para o ódio fácil a bandidos pés-de-chinelo, além da exploração da frivolidade humana através de eventos como o Big Brother Brasil, cujas bobagens são noticiadas em primeira página, principalmente se são mais pitorescas.

A imprensa populista desrespeita o povo, e atua contra as classes populares sem apelar para assuntos políticos. Daí o silêncio da opinião pública. Mas, feito um jagunço jornalístico, a imprensa populista com seus tablóides baratos ou seus programas policiais de rádio e TV, subestimam a inteligência do povo, desprezam sua luta pela superação de sua inferioridade social imposta pelo poderio econômico.

Desta forma, a imprensa populista, tipo o carioca Meia Hora, é cúmplice da grande imprensa golpista representada por Veja, O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Tal qual os capangas dos latifundiários. Assim como os latifundiários agem em defensiva, em proteção aos seus interesses e privilégios de elite, e os capangas agem em ofensiva contra quem se opõe ao poderio coronelista, a imprensa populista age em ofensiva contra as classes populares, enquanto a mídia golpista propriamente dita atua em proteção aos seus interesses de classe.

3 comentários:

  1. Conheci seu blogue esta semana e estou gostando muito dele, mas "progresso" me parece uma ideia meio positivista... não seria melhor que seu blogue fosse marxista, ao invés de "progressista"?

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  2. Bom, Coral, é mais uma questão de marketing, mesmo. É para entrar no clube e chamar o público iniciante que conhece este blog através do Google.

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  3. Ah, Coral. Blog progressista ainda está bom. Melhor que blog regressista, blog reacionário ou dondoca progressista (como errados blogs extremistas chapa branca que tem por aí), não é mesmo? Poderia ser um blog conservador que ficaria bom de outra maneira, mas esse não seria o perfil para um blog político escrito pelo Alexandre, que eu conheço há mais de dez anos e posso garantir que é gente boa.

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