sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

ÍDOLOS DO BREGA-POPULARESCO NUNCA GRAVAM MÚSICAS CONTESTATÓRIAS


MÚSICA HIGIENIZADA - Nenhum desses ídolos, ou seus similares, seriam capazes de gravar músicas como "Apesar de Você", de Chico Buarque.

Por Alexandre Figueiredo

A opinião pública ainda está lidando com várias contradições, já que intelectuais, celebridades e internautas ditos "de esquerda" ainda se apoiam em concepções direitistas de "cultura popular", herança de suas leituras, desde os anos 90, da Ilustrada da Folha de São Paulo, e das audiências diante da TV aos programas da Rede Globo.

A precária percepção do que é "a verdadeira cultura popular", dentro de preconceitos de classe média no convívio com pessoas das classes populares (empregadas domésticas, porteiros de prédio, faxineiros, garis e feirantes), faz não só com que teses absurdas sejam veiculadas (como os ídolos popularescos dependerem das classes abastadas para serem "reconhecidos de fato" como "ídolos populares"), como comete omissões sérias de análise.

Uma delas é o fato do comportamento "carneirinho" dos ídolos brega-popularescos, e sua clara submissão às regras de mercado. Aliás, a contestação do brega-popularesco aqui feita se agrava quando essa "cultura popular" se mostra sempre submissa às regras de mercado, mesmo em seus momentos mais tendenciosos e oportunistas que forjem falsas ousadias ou sofisticações.

Sabemos que essa "cultura popular" não passa de higienização sócio-cultural tramada desde os tempos da ditadura militar, patrocinada pelos latifundiários - que, praticamente, inauguraram a música brega no país - , um claro processo de domesticação social que os cientistas sociais fingem que não existem e, arrogantes e omissos, fecham olhos e ouvidos para isso.

Isso se reflete até mesmo nos "grandes artistas" de "sertanejo", "pagode romântico" e axé-music considerados "mais sofisticados" e "de qualidade" (apesar de serem também de qualidade sofrível, mas são camuflados pela sofisticação técnica, tecnológica e publicitária).

Já perceberam que eles não gravam jamais uma música de protesto sequer?

Que NENHUMA tendência brega-popularesca possui uma música de protesto de verdade?

Como muitas pessoas confundem muito as coisas, há pouco esclarecimento mesmo na Internet e no ramo da blogosfera - afinal sua força ascendente é muito recente, e a força de blogueiros sensatos ainda mal começou a se refletir no público, ainda dotado de algumas pessoas preconceituosas ou desinformadas - , essas duas questões soam como um grande absurdo.

"Ah, mas tem o 'Rap da Felicidade', de Cidinho & Doca. Zezé Di Camargo fez uma música de protesto. A axé-music tem várias delas. O Parangolé e o Psirico fizeram suas canções. Odair José falou sobre a pílula", diria algum desavisado.

Mas as duas questões estão corretíssimas.

Afinal, essas "músicas de protesto" não representam protesto algum. Nada que represente uma contestação real da realidade em que vivemos, dos problemas que nos desafiam, nada que expresse uma real relação do artista com o mundo que o cerca.

Ora, para quem acha que "They Don't Care About Us" de Michael Jackson é "uma supercanção de protesto", gente que nunca ouviu uma música de Joan Baez, de Bob Dylan ou de Cat Stevens (atual Yusuf Islam) na vida, para não dizer os finados Tim Buckley, Nick Drake, Victor Jara e Violeta Parra, ou que não presta atenção nos nossos sempre atuantes Milton Nascimento e Chico Buarque, certamente vai achar que até a música do MC Créu "é de protesto".

Gente que não sabe a diferença entre o Fórum Social Mundial e o São Paulo Fashion Week, mas que se gaba de ser de "esquerda" porque lê a Conversa Afiada e o Viomundo apenas por serem espectadores da Rede Record. Mas corre de medo do Blog do Miro e, mais ainda, do Angry Brazilian, além deste "miserável" blog que aqui se faz.

O brega-popularesco apenas faz simulacros de protesto, como se vê no "Rap da Felicidade" e em vários sucessos da axé-music (tipo Tonho Matéria, Reflexu's e aquela geração pós-Luís Caldas). Mas coisas risíveis, ingênuas e tolas diante de uma música tipo "Apesar de Você", de Chico Buarque. Ou mesmo, no Rock Brasil, as letras de "Brasil", de Cazuza e "Que País É Este", de Renato Russo, contundentes críticas à realidade do nosso país.

Mas outras canções, como "Favela" do Parangolé, "Firme e Forte", do Psirico, "Meu País" de Zezé Di Camargo & Luciano, entre outras similares, são apenas puras expressões de ufanismo, que cairiam muito bem no clima ufanista da ditadura militar entre 1969 e 1970. Todas, no fundo, descendentes do "Eu Te Amo Meu Brasil", da dupla Dom & Ravel, que tentou se desculpar que "também fazia música de protesto".

Mas, antes de mais nada, o próprio Raul Seixas também fez músicas de protesto. Ele bebia nas fontes de Bob Dylan, e mesmo a irônica "Eu Também Vou Reclamar", contra a mania de qualquer um fazer "música de protesto", é um recado contra a banalização do protesto, que cria subprodutos como Dom & Ravel e a geração ovelhinha branca da axé-music, do "pagode romântico" e "sertanejo".

MÚSICA DE QUALIDADE NÃO É SÓ PROTESTO

Na verdade, uma boa música não precisa ser só de protesto e lamentação. O mestre Braguinha fazia maravilhas com temas tolos. Os próprios artistas de protesto, como Victor Jara, Bob Dylan, Joan Baez e outros, também contam com uma ou outra canção de amor. Só que a verdadeira arte é mais humana, sincera, honesta, é uma expressão pessoal que não se submete às tendências de mercado, sob o pretexto, falsíssimo, de "só cantar o que o povo quer".

O problema é que a falta de protesto dos ídolos popularescos é que ela se expressa como um atestado de personalidade submissa ou tendenciosa dos mesmos, sempre manipuláveis pelas regras do mercado, seja para um cantor de "pagode romântico" posar de latin lover nos palcos, seja para um "sertanejo" regravar o Clube da Esquina depois de ser chamado de "caubói" pela crítica.

Dá para ver o caráter nada humano desses ídolos. Eles parecem bonecos de plástico, suas entrevistas, por mais corretas que sejam, são totalmente supérfluas, e o fato deles falarem muito de suas vidas pessoais chega a ser um horror, de tanta presunção pela origem pobre.

Compare a entrevista com cada um deles e a de um Chico Buarque, por exemplo. Só uma única entrevista do cantor e escritor dá uma boa tese de mestrado, isso se nossa intelectualidade fosse menos corporativista e mercantilista.

ESTADO NOVO E BREGA-POPULARESCO: ATÉ O DIP DOMESTICOU MENOS

Contestando teses raivosas de um direitista como o "professor" mineiro Eugênio Arantes Raggi - no fundo um misto de Cabo Anselmo com Joaquim Silvério dos Reis - , o Estado Novo, por mais que tenha se afirmado pelo poderio censor do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), comandado por Lourival Fontes, não conseguiu domesticar em todo a música popular quando obrigou os sambistas a fazer letras "corretas" de samba, no intuito de fazer propaganda do trabalhismo varguista.

Isso porque a mudança de letra não afetava a concepção artística, nem transformava o artista numa figura patética ou domesticada (muitas vezes a censura era seguida a contragosto pelo autor ou artista).

Em 1941, o cantor e compositor Ataulfo Alves, um dos mestres do samba brasileiro, havia gravado uma música chamada "Bonde de São Januário", feita por ele com seu parceiro Wilson Batista, cuja letra dizia "O Bonde de São Januário / Leva mais um sócio otário / Sou eu que vou trabalhar". O DIP ordenou que a expressão "sócio otário" fosse substituída pela palavra "operário", para fazer propaganda do governo de Getúlio Vargas.

A medida foi um recurso de criatividade artística do autor, foi uma adaptação, ainda que num contexto de censura. Isso em nada transformou Ataulfo num cantor domesticado, amestrado, adesista.

Enquanto isso, um cantor como Alexandre Pires, tão exaltado por Raggi e que tendenciosamente havia cantado uma música de Ataulfo Alves no Domingão do Faustão (a inofensiva "Saudades da Amélia"), é tão submisso ao mercado que sua carreira se pautou, a princípio, num discípulo do domesticado e adesista sambão-jóia (diluição brega do samba-rock encomendada pela mídia ditatorial), "atualizado" pelas influências de Sullivan & Massadas, para depois virar um pálido cruzamento de Lionel Richie e Julio Iglesias com instrumentos "sambistas".

Evidentemente, um cantor de "pagode romântico" e sambrega, expressão da domesticação cultural que salta aos olhos da grande mídia, no fundo colega e parceiro das aventuras neo-bregas de "sertanejos", funqueiros, axézeiros etc, não teria um crédito maior do que os artistas populares "freiados" pelo DIP.

Isso porque os ídolos brega-popularescos são artisticamente higienizados desde o começo. Eles têm que expressar um modelo artificial de "cultura popular", forjando sempre um clima de "alto astral". Eles expressam uma ideologia de controle social que vigorou desde a ditadura militar e cujo auge se deu durante governos neoliberais democráticos.

Por isso não será agora que os ídolos brega-popularescos vão desmentir seu passado, em nome da sobrevivência como ídolos de massa, tentando justificar seu sucesso por teses delirantemente intelectualóides que busquem desmentir o que é mais óbvio: o caráter domesticado, estereotipado e acrítico de todos esses ídolos da pretensa "cultura popular" que aparece no rádio FM e na TV aberta.

Um comentário:

  1. Putz! Encontrar uma música contestatória no repertório da Música de Cabresto Brasileira? Ô, tarefa difícil...

    Por quê gravar essas músicas, se a própria música de cabresto é concebida para preservar o [i]status quo[/i]?

    O tal [i]Rap da Felicidade[/i] eu tive a oportunidade de ouvir atentamente, letra por letra. Posso dizer que é uma música conformista: o miserável se conforma com sua situação e pronto. Não tem nada de contestatório nesta música.

    Com muita boa vontade (e bota boa vontade nisso), alguém poderia colocar a música [i]Xô, Satanás[/i] do Asa de Águia como uma bem humorada contestação aos pseudo-exorcistas que ficam ricos explorando a fé alheia. Mas até esta inclusão cai por terra, ao sabermos que até uma ultrarreacionária Rede Globo também pode fazer esse tipo de "protesto", mas somente por ter interesse próprio, já que sente seu poder ameaçado pela Rede Record-IURD.

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