quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"EU NÃO VEJO BAIXARIA NA BAIXARIA"


PÂNICO NA TV - UM DOS PROGRAMAS QUE MAIS RECEBEM DENÚNCIAS DE TELESPECTADORES SOBRE BAIXARIA.

Por Alexandre Figueiredo

"Eu não vejo baixaria na baixaria". É o que resume o discurso da direita dente-de-leite que assiste aos programas de TV e que acredita muito na mídia gorda na capacidade de fornecer aos lares abastados uma visão precisa e completa da "cultura da periferia".

Mas a baixaria acontece nos meios de comunicação e não é um relativismo hipócrita e demagógico que irá minimizar a coisa. Não são xingações como "moralista" e "preconceituoso" que irão garantir a alta reputação de programas de TV e valores duvidosos que entram de graça nas emissoras de rádio e televisão.

A Comissão de Direitos Humanos e de Minorias da Câmara dos Deputados, desde 2002, promove a campanha "Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania", uma iniciativa que nem sempre é vista de forma positiva pela sociedade, já que o "deixar fazer" da grande mídia e sua plateia de defensores - principalmente entre vários internautas - encontra na campanha uma manifestação de "elites moralistas, preconceituosas e temerosas com os novos tempos, pessoas com medo do novo".

Daí a horda de reacionários que defendem o Pânico na TV, Solange Gomes, É O Tchan (*), Ratinho, José Luiz Datena, o jornal Meia Hora e outros ícones e símbolos de baixaria, do grotesco, da vulgaridade promovidos pela grande mídia.

É claro que a grande mídia tentou reagir, promovendo o "funk carioca", sobretudo a grotesca Tati Quebra-Barraco, como expressão desses "novos tempos", mas que simplesmente quase anulou a força da campanha contra a baixaria.

O problema é que entidades ou mesmo gente progressista, na sua boa-fé, acreditou na retórica "cidadã" dos funqueiros, e fez propagar, feito epidemia, todo um discurso falsamente cidadão, que permitiu lançar mão de toda baixaria, vulgaridade e mediocridade a título de "moderna expressão das periferias", ofuscando toda uma luta para combater os valores de degradação social, vistos erroneamente como "moralistas".

Todavia, Tati Quebra-Barraco mostrou sua mediocridade artística, e seu perfil "polêmico" foi tão somente fogo-de-palha. Sem lançar material novo, enriqueceu, gastou com plásticas e, sumindo, tornou-se evangélica, ainda que depois tivesse reagido, com arrogância, aos comentários reprovadores de um crítico musical, Regis Tadeu.

O mercado da baixaria, temendo derrota, hoje prepara para reciclar seus valores como se fossem cult. Investem no jornalismo policialesco, seja o Brasil Urgente, seja tablóides como Meia Hora, como se fossem, respectivamente, "jornalismo responsável" e "jornalismo de humor".

Além disso, tentam vender o Pânico na TV como um "humor arrojado". Tentam relançar o Ratinho como um "histórico animador de TV". Tentam relançar o É O Tchan (*) como "feminista" só porque conta com seis dançarinas. E tentam lançar a Valesca Popozuda juntando o "engajamento" (?!) de Tati Quebra-Barraco com o "apelo sexual" de Carla Perez, de quem a funqueira é quase uma sósia.

A própria mídia se aproveita de uma suposta liberdade social para fazer os valores degradarem. Confundem liberdade com libertinagem. A mídia grande aproveita a ausência, desde 1964, de referenciais morais, sociais e culturais sólidos, para promover uma espécie de "jeitinho brasileiro" sócio-cultural, onde qualquer abuso é justificado pelo "relativismo".

Por isso a campanha "Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania" encontra um caminho de pedras. Pelas dificuldades de pressionar qualquer punição aos programas denunciados. E o Brasil Urgente, Pânico na TV e Big Brother Brasil estão entre os mais denunciados. Há quem fale em "liberdade de expressão" mas isso até o Instituto Millenium e seus medievais integrantes falam.

Não dá para ter uma vocação "progressista" quando a defesa da vulgaridade feminina apenas é uma face da mesma moeda moralista dos conservadores. O próprio conservadorismo promove o espetáculo de musas calipígias, dentro da dicotomia erotismo-moralismo, para desviar as atenções dos homens para temas mais importantes.

E cria-se um rodízio entre a impulsividade sexual e a fé cega e não-raciocinada: para os excessos sexuais, o puritanismo religioso e medieval chega como um remédio "purificador". Como há o outro lado, da "liberação da sensualidade" diante do "excesso de religiosidade". Não é à toa que Solange Gomes fantasiada de "freira sexy" não contrasta muito com as pregações da Opus Dei na grande mídia. São duas faces de uma mesma moeda.

A deputada paulista Janete Rocha Pietá, única mulher deputada pelo PT paulista, preside a comissão da Câmara dos Deputados que investe na corajosa campanha. Ela sabe das dificuldades, mesmo as legais, de punir os abusos cometidos pela mídia. E, o que é pior, numa sociedade que, num retrocesso às avessas, classifica tais campanhas como "de um moralismo corrupto e irresponsável".

Queremos melhorar a sociedade, somos tidos como "moralistas", "elitistas", "preconceituosos". Há um conservadorismo mal-disfarçado, um reacionarismo enrustido, que nos desafia. É essa demanda de jovens de visual moderninho mas de ideias retrógradas - neocons em potencial - que dificulta o êxito de qualquer campanha em prol das melhorias sociais.

Essas pessoas ainda tentam arrancar aplausos dos incautos, dizendo que "não veem baixaria" na baixaria. Mas as pregações "libertárias" desse pessoal não os fazem senão de meros "cães de guarda" da mídia decadente, que fatura horrores através do caos de valores que ainda predominam em nosso país.

(*) O É O Tchan é pouco recomendado para a vovó e para o netinho, sendo um grupo abominável dos 8 aos 80. O É O Tchan é impróprio para a vovó, porque é pornográfico e pode causar problema no coração. O É O Tchan é impróprio para o netinho, porque seu erotismo exagerado e grosseiro pode criar desvios de conduta moral e controle dos desejos sexuais na idade adulta.

O É O Tchan é machista, mas suas dançarinas pensam que ser feminista é não contar com o sustento de maridos ou namorados. Dizem que não têm namorados porque está difícil arrumar homens, quando na verdade é porque está difícil arrumar horários para conhecer os homens que são pretendentes. Que, certamente, não sou eu nem você, no caso de você ser um leitor masculino. Nós queremos mulheres realmente de conteúdo, sem qualquer trocadilho pornográfico.

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