sábado, 29 de janeiro de 2011

A DIREITA JUVENIL CONTRA-ATACA


IMAGINE ALGUÉM CHAMAR QUALQUER UM DESSES BLOGUEIROS DE "BURGUESINHOS SINDICAIS"?

Por Alexandre Figueiredo

Imagine a seguinte situação. Um colunista da Folha de São Paulo escreve para o Twitter do Blog do Miro dizendo que não gostou muito dos textos que Altamiro Borges publica ou escreve. Esse colunista acaba chamando Miro de "preconceituoso", "moralista" e diz que o blogueiro faz uma visão distorcida da realidade brasileira.

Miro tenta argumentar, dizendo que observa mais a realidade do que qualquer jornalista trancado nas quatro paredes da Alameda Barão de Limeira. Irritado, o jornalista da Folha dispara dizendo que Altamiro é um "burguesinho sindical", e o próprio jornalista tenta argumentar para dar a falsa impressão de que o colonista entende mais de sociedade brasileira do que o blogueiro progressista, presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé.

O reacionarismo na Internet ocorre comigo, mas poderia ocorrer até com o bem-humorado Senhor Cloaca, do Cloaca News. Como ocorre, com uma intensidade bem maior do que a de todos os blogueiros progressistas brasileiros juntos, com o fundador do Wikileaks, Julian Assange, que talvez sofra de constantes insônias diante das pressões que ele recebe.

O grande problema não é fulano discordar de mim num determinado momento da vida. O problema é que parte das pessoas, mesmo usando argumentos "racionais" e "mais objetivos", se incomoda de existir veículos que transmitem ideias que não são as delas.

O reacionário até faz cena, dizendo que meu blog não precisa ser feito para agradar ele, e coisa e tal. Mas, na prática, ele gostaria mesmo que eu fizesse blog só para seu agrado.

No âmbito da política, até que certas polêmicas se resolvem e trincheiras se dividem com mais clareza. Mas no setor cultura, que é o que mais está penando no debate público (já que visões direitistas são difundidas até mesmo na imprensa de esquerda, como no caso de Pedro Alexandre Sanches, ex-jornalista da Folha de São Paulo e hoje colunista de Caros Amigos), a situação é bastante dramática.

Afinal, a dita "cultura popular" que, na verdade, é vinculada aos mesmos interesses da grande mídia que condena os movimentos sociais, é um dos legados do período ditatorial e de cenários políticos e mercadológicos conservadores que ainda resiste, até de forma bastante furiosa, às mudanças sociais que acontecem no nosso país.

Isso se deve porque, assim como os programas da Rede Globo ou as vendagens da Folha de São Paulo e do carioca Meia Hora, o brega-popularesco anda perdendo a popularidade, causando fúria nos seus defensores, que lançam mão de um discurso politicamente correto tão insistente e agressivo, ora com desculpas, alegações e desaforos.

Eduardo Guimarães, no Blog Cidadania, escreveu um interessante texto sobre os trolls, que são os internautas que tem mania de reagir a textos que contrariam os valores dominantes e tidos como oficiais, primeiro com argumentos aparentemente convincentes, depois com ataques furiosos. Isso em fóruns de Internet, em páginas de comentários, e agora até em blogs feitos por esses trolls.

É verdade que muitos desses vândalos digitais só aparecem para bagunçar, mas vários deles escondem um germe de direitismo que os fará, no futuro, o equivalente a pessoas como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Eliane Cantanhede e outros "cães de guarda" do status quo.

O carinha que "inocentemente" defende o Domingão do Faustão e fala em "solidariedade ao povo pobre" é o mesmo que, anos adiante, irá defender a Folha de São Paulo e falar em "democracia".

Não é de surpreender que o internauta que me chamou de "burguesinho da favela" fala em "cultura popular" com a mesma convicção que qualquer colunista de Veja fala em "democracia". É a mesma visão direitista, só que num contexto "saudavelmente pop" que a princípio não desperta qualquer suspeita.

Mas imagine se, por trás de uma defesa do Domingão do Faustão, do Big Brother Brasil e das popozudas, há um conservadorismo intransigente, igual ao dos golpistas. Claro, o conservador vai acusar os outros de "conservadores", da mesma forma que aquele leitor da Folha de São Paulo que não gostou de ver seu jornal ser definido como "PiG" (Partido da Imprensa Golpista).

O problema maior também não é de haver pessoas assim, direitistas, principalmente os enrustidos. O problema é que eles querem ter hegemonia nos seus pontos-de-vista, quando eles têm seus próprios espaços, têm sua arena para defender seu conservadorismo. E que muitos desses jovens têm familiares trabalhando para a mídia, para os barões do entretenimento, estão ali para defender o "ganha-caviar" das oligarquias, mesmo sob o aparente pretexto de "defender a cultura popular".

A direita juvenil não assusta porque seus indivíduos não usam ternos e gravatas, não vão para as tribunas, ainda não sobem aos palanques, e falam gírias, usam linguagem coloquial. Parecem modernos no visual, mas na essência se tornam altamente conservadores.

Só que, na medida em que eles ganham mais visibilidade, eles tornam-se mais ambiciosos. Num primeiro momento, falam mal de intelectuais, mas depois irão desmoralizar os ativistas de direitos humanos. Hoje defendem o oficialmente estabelecido a título de "cultura popular", mas depois lutarão para prevalecer a visão que eles tem sobre "democracia".

Reinaldo Azevedo, Ali Kamel, Merval Pereira, Diogo Mainardi, Carlos Alberto Di Franco, Eliane Cantanhede, Miriam Leitão, William Waack etc. Quem sabe eles, bem antes do início de suas carreiras, não eram "inocentes trolls" que tão somente disseram "não gostar muito" do que a imprensa alternativa de seu tempo escrevia e divulgava?

É bom abrirmos o olho para a direita do futuro, para os neocons de bermudão e tênis.

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