segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A DIREITA DENTE-DE-LEITE


FOI EXATAMENTE ASSIM QUE SURGIRAM PESSOAS COMO REINALDO AZEVEDO, DIOGO MAINARDI E OTÁVIO FRIAS FILHO.

Por Alexandre Figueiredo

O comportamento é conhecido. Uma pretensa racionalidade democrática, um certo ar de "dono da razão" para defender o que está estabelecido pela mídia. Uma retórica pronta para rebater qualquer argumento, ainda que não seja uma retórica coerente.

Por trás disso tudo, porém, há um furioso anti-intelectualismo, uma fúria silenciosa contra o senso crítico, enquanto se expressa também um conservadorismo enrustido, não-assumido no discurso, mas defendido ardentemente na essência.

Eu tive problemas no Twitter devido a dois internautas, Adriano e Thiago, expressões típicas da direita politicamente correta: dois burgueses que nunca viram a periferia de perto, mas se acham "solidários com o povo". Pseudo-esquerdistas, falsos humanistas, pretensos democráticos, possuidores da razão e malabaristas retóricos. São a mais exata amostra do que conhecemos como "neocons", ou neo-conservadores.

Trata-se de uma direita dente-com-leite, que detém o monopólio da razão, através de um discurso que lhes dê a impressão de que só eles são "perfeitos", só eles são "imparciais", só eles são "ponderados".

Machistas enrustidos, eles tentam desmentir que o espetáculo das popozudas seja "machismo". Como é "humano" o circo midiático deles. Falam mal do meu "pretenso intelectualismo" porque eu não gosto dos tais "sucessos do povão".

Quer dizer, para eles, mulheres como Solange Gomes, Nicole Bahls, Karol Loren e Valesca Popozuda são "expressões do mais puro feminismo", e só o fato de eu criticá-las, para eles, é que é "manifestação de moralismo machista".

É assim que nasce a direita que, depois, ameaçará a blogosfera e a verdadeira democracia. Esse discurso de "racionalidade perfeita" vemos também no Instituto Millenium, nas manifestações da grande imprensa golpista, nos depoimentos de figuras direitistas como Marcelo Madureira, Armínio Fraga, Guilherme Fiúza, Rodrigo Constantino.

O direitista não se assume de direita. Como as próprias instituições direitistas não se assumem como tais. Como gente tipo Reinaldo Azevedo também não se assume assim. Mas a direita põe todos os seus adjetivos naqueles que discordam dela: machista, fascista, intelectualóide, conservador, preconceituoso, moralista.

Os episódios políticos de 1964 deixam muito claros. João Goulart, presidente da República que, aos trancos e barrancos, tentava promover reformas sociais no Brasil, era tido como "agitador", "subversivo", "irresponsável", "corrupto" e "anti-constitucional".

Por outro lado, a direita que realizou a Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, no dia 19 de março de 1964 - sem se dar conta que era aniversário do então presidente da UNE, José Serra, que só mais tarde iria aderir ao direitismo ideológico da "marcha da liberdade" - , é que era "a mais racional", "a mais equilibrada", "a mais ponderada".

A direita defende o estabelecido, no que se refere ao sistema de valores e de privilégios montado pelo poderio político-econômico e difundido pela grande mídia, pelo status quo político e econômico, pelas limitações sociais impostas. E, para sustentar tudo isso, cria-se toda uma retórica engenhosa, tida como "a mais equilibrada", e através dela tenta-se desmontar qualquer argumentação contrária, por mais que esta seja, isso sim, a mais ponderada, equilibrada e racionalizada.

O grande problema é que a direita dente-de-leite se camufla no visual e na linguagem típicos da juventude comum. A juventude torna-se não só seu escudo, mas seu disfarce, sua máscara. Os jovens de direita podem parecer surfistas, rastafáris, skatistas, falam muitas gírias e palavrões, usam tatuagens, piercings e tudo o mais.

Não percebemos o perigo que ela representa. Enquanto não saem das faculdades ou não atingem os 40 anos de idade, os jovens direitistas são "tão progressistas" como nós. Esse mimetismo irá cobrar seu preço depois, quando eles serão guiados pelo que entendem como "maturidade" e irão para o Instituto Millenium pregar a privatização do Brasil, vendendo-o a preço de banana para os especuladores estrangeiros.

Tudo em nome da "superioridade" de que eles acreditam gozar, eles que se acham "os mais racionais", os "mais ponderados", os "mais imparciais", os "sem preconceitos". Como eram nomes como Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Otávio Frias Filho na juventude.

Mas, por trás desse discurso "perfeito", há, mesmo na direita dente-de-leite, um verdadeiro temor de que o povo deixe de bancar a multidão domesticada e infantilizada pela grande mídia para fazer protestos e passeatas pedindo o fim dos privilégios das elites.

Através da suposta "boa intenção" com o povo pobre, defendendo o lamentável entretenimento brega-popularesco, eles têm medo de que o povo volte a viver sem os plugues da televisão e do rádio, deixando de ser os bonecos de pilha dos barões midiáticos.

Para eles, o povo é "autêntico" quando dança, "feliz", com sorrisos ingênuos, o seu "rebolation", o seu "créu", o seu "axé". Mas quando o povo passa a fazer passeatas e escreve jornais pedindo qualidade de vida, o povo "torna-se desordeiro, bagunceiro, desafiador da lei e do equilíbrio social".

Para eles, é legal tomar como "feminista" uma Solange Gomes que odeia ler livros e se veste de "enfermeira erótica" ou "freira erótica", porque é a "liberdade de expressão", é o "livre senso de humor".

Mas esses mesmos "sábios" tremem de medo de que surja, na periferia, uma moça que cante como a Sílvia Telles, seja charmosa mesmo nas suas roupas de moça pobre e fale de política com uma lucidez de fazer Noam Chomsky sorrir com os olhos.

Através da pretensa defesa da vulgaridade feminina como se fosse "feminismo", eles mostram o temor de surgir, nas periferias - onde está o público-alvo das popozudas, como quer a grande mídia - , jovens moças que tenham a classe e a inteligência das atrizes Leandra Leal e Larissa Maciel.

Para esconder seus preconceitos, tentam fazer um discurso "humanitário". Para esconder seus equívocos intelectuais, usam e abusam da retórica fácil. Para esconder seus interesses egoístas - de defender o establishment que permite a manutenção dos privilégios de poder - , dizem que são "altruístas".

Dessa forma, quem discorda deles é desqualificado no máximo. À primeira vista, Thiago (ou ThiagoBeleza) e Adriano (Adriano AS) são apenas jovens comuns, mas o que eles fazem, no fundo, em nada difere do que os "colunistas" da revista Veja, de O Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo e Rede Globo, fazem.

O que um Adriano AS escreve é exatamente a mesma coisa que vemos em colunas como as de Augusto Nunes, Carlos Alberto Sardenberg, Gilberto Dimenstein, Merval Pereira e Eliane Cantanhede. Aquela "racionalidade" que se impõe como "perfeita", "racional" e "equilibrada", sempre "a favor do interesse público", num discurso engenhoso que, no entanto, mostra suas falhas num e noutro momento, na medida em que, no fundo, defende o sistema de privilégios sócio-econômicos vigentes sobretudo desde o golpe de 1964.

Hoje esses direitistas dentes-de-leite são "modernos", o que dá a falsa impressão de que são "progressistas" como a gente. Mas, passando o tempo, eles tiram a máscara, ao terem conquistado a visibilidade social que desejaram.

Aí, aquele golpismo que estava latente e bem escondido na abordagem juvenil, se desprende, se solta e se escancara na fase mais adulta, pegando todos nós de surpresa depois de ignorarmos as armadilhas cuidadosamente traçadas na flor etária.

3 comentários:

  1. Uma coisa é certa. Se esses direitistas esculhambarem o meu blog e acharem "sem sentido" serem de direita, estarão cometendo uma grande incoerência.

    Esses caras vão passar a juventude dizendo que "são de esquerda", "são os mais inteligentes", "são os mais equilibrados", "são tudo de bom", "são déis (sic)", até que uma mão amiga vinda dos salões do Instituto Millenium os acolha e aí eles passam a se assumir de direita porque "é mais aberta ao diálogo" (uma argumentação tipicamente vejista).

    ResponderExcluir
  2. "O direitista não se assume de direita. Como as próprias instituições direitistas não se assumem como tais."

    Isso aqui na terra brasilis, Alexandre. Em países sérios, a direita se assume como tal. Vence eleições, perde outras, vence de novo, perde novamente e assim por diante. E assim segue a democracia nos países sérios.

    Aqui é que temos essa direita envergonhada. Dentro e fora do Governo. Os direitistas assumidos são poucos, e estes mesmos estão divididos entre os sem representação partidária (nem DEM nem PSDB os representam, figuras tipo Olavo de Carvalho) e os direitistas assumidos do PP, que fazem campanha para Lula e para Dilma por acharem eles mais à direita de figuras grotescas dos anos 60 como José Serra e Cesar Maia, que eles julgam como esquerdistas.

    Há ainda um eleitorado de direita muito bem alimentado, inclusive pelos progressos do governo Lula-Dilma. Quando emergir uma direita assumida no quadro partidário (que não incluirá nem DEM nem PSDB), isso poderá representar o fim da esquerda no Governo.

    Se a esquerda ainda quiser fazer algo que preste, que aproveite a Era Lula-Dilma. Pode não haver nova oportunidade.

    ResponderExcluir
  3. Alexandre, vou te mandar o seguinte desenho do "Chedolf Hitler" (ou melhor, Che Guevara com bigodinho de Hitler): http://4.bp.blogspot.com/_rv_PHdKapPQ/ScytJYQUtYI/AAAAAAAAAHw/uRA2SfPiPL8/s400/Adolf_Guevara_1.png
    Agora, por favor, me responda a seguinte pergunta: será que essa imagem é ou não é A CARA da juventude pseudo-esquerdista que "domina" o Brasil atual?

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...