segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A DECADÊNCIA DO "LÍDER DE OPINIÃO"



Por Alexandre Figueiredo

O que é um "líder de opinião"? É o blogueiro direitista que se acha dono da opinião pública ou o blogueiro progressista que orienta a visão padrão da mídia esquerdista?

Nenhum dos dois. O "líder de opinião" era o antigo jornalista "meio-termo", que no entanto se autoproclamava de "centro-esquerda", era uma espécie de arremedo covarde de um jornalista progressista, sem a coragem e o senso de discernimento deste.

O "líder de opinião" pode ser um jornalista "imparcial" cujo blog ganha seguidores na hora, não pela coerência das ideias que ele transmite, mas porque o jornalista é considerado uma "grife", o que não pode ser confundido com um jornalista progressista autêntico que possui visibilidade.

Geralmente, o "líder de opinião", paradigma do antigo formador de opinião da classe média não-reacionária, tenta estabelecer um "meio termo" entre o que há de menos reacionário na mídia conservadora e alguns veículos mais conhecidos da imprensa esquerdista.

Todavia, o "líder de opinião", coitado, com seu jeitão entre o cronista político com ar professoral e o repórter com trejeitos que arremedam sindicalista ou professor universitário de História, está em crise. Ultrapassado pelos blogueiros progressistas, que vieram com um fôlego crítico e analítico bem maiores, o "líder de opinião", impotente, já começa a fazer seus comentários ensaiados, copiados e arremedados, contra a mídia golpista.

Afinal, o que é o chamado "líder de opinião"?

Bom, é um jornalista ou blogueiro "mais ou menos" que se beneficiava pela visibilidade, pelo corporativismo, pela fama. É uma figura mais badalada do que competente, não pela falta de competência, mas por um certo caráter medroso de assumir posturas mais críticas.

É o tipo do cara que, quando inicia sua coluna ou seu blog, promete fazer toda uma devassa dos bastidores da grande mídia e da política. Mas, na hora H, recua de medo, transformando seu espaço de informação num reduto de formalidades.

Geralmente seus blogs são enfeitados de notas com autoridades municipais, líderes sindicais, jornalistas. Geralmente à paisana, com camisa abotoada e tudo. Só de vez em quando coloca-se um engravatado.

Tais espaços são enfeitados tão somente por rodízios entre notas sindicais, notas jornalísticas ou notas políticas em geral. Não raro, o blog se converte num listão de releases de sindicatos e jornais de bairros, interrompidos apenas de uma crônica menos crítica do "líder de opinião".

O nome "líder de opinião" se deve ao fato de que uma opinião não deve ter líderes, daí a pretensão de certas pessoas em "representar" a opinião pública na sua suposta transparência. Por isso não são considerados "líderes de opinião" os reacionários colonistas e "articulistas" da grande imprensa, com sua mais explícita inclinação ao interesse privado.

Consumidor de notícias, o "líder de opinião" faz a média do que a grande imprensa tem de não-reacionário. Tenta agradar tanto os leitores da Isto É, TV Bandeirantes e da fase "anos 90" da Folha de São Paulo - que compõem o paradigma da "mídia boazinha" - e também da Caros Amigos e Carta Capital.

Sua crise se deu porque seu potencial crítico tornou-se frouxo. A pretensão de investigar a mídia e a política tornou-se tão impotente que o "líder de opinião" se limitou a ser apenas um divulgador da investigação dos outros. Se a Polícia Federal investiga uma corrupção política nos cafundós do sertão, tudo bem.

Mesmo quando esse cidadão, com a alegria de uma criança que descobriu um brinquedo perdido num terreno baldio, reproduz uma entrevista bombástica de Carta Capital, seu méritos se tornam mornos, pálidos, até mesmo apáticos. Claro, seus amiguinhos e seu fã-clube irão despejar um monte de mensagens, uma igual à outra, endossando o ponto de vista do jornalista ou blogueiro "líder de opinião", e elas são iguais umas às outras não porque se trata de poucas pessoas adotando mil pseudônimos, mas é porque a patota pensa igualzinho, mesmo.

No meio do caminho, porém, o "heróico" escriba que acha que vai mudar a mídia lutando com sua espada de brinquedo contra o moinho de vento da grande mídia, em dado momento, irá mostrar seus preconceitos e suas debilidades.

Em primeiro lugar, seu senso crítico não vai muito adiante. Geralmente ele brinca de fazer mídia alternativa, mas dentro de seus limites ideológicos. Afinal, ele apenas é produto da oscilação ideológica entre o conservadorismo moderado da TV Bandeirantes e o iniciante esquerdismo de Caros Amigos.

Com isso, seus textos deixam de ter o vigor crítico necessário. Geralmente ele adota uma postura de abstenção em relação a assuntos como o MST, no máximo reproduzindo informes jornalísticos neutros sobre o movimento.

Suas posturas também se tornam débeis. Ele acaba misturando posturas neoliberais com solidariedade aos movimentos sociais (sobretudo sindicais), se transformando num Frankestein que defende a educação pública, mas aceita a cobrança de taxas de mensalidade nas universidades federais.

Ou então ocorre quando ele, mero consumidor de notícias, vê que um antigo político corrupto comprou uma rádio e tornou-se um arremedo de radiojornalista, dentro daquele enfoque de "mídia boazinha" (que não integra o mainstream da mídia reacionária). Aí o "líder de opinião" apoiará abertamente o ex-político, dizendo coisas como "ele dá espaço a diferentes tipos de opinião".

DESILUSÕES

Nos últimos anos, o "líder de opinião", cujo blog era festejado e tinha até festinha particular de comemoração, viveu desilusões sucessivas, além dele mesmo passar a ser desacreditado, porque uma geração de blogueiros progressistas o passou para trás, sobretudo por conta de um senso crítico bem maior.

O "líder de opinião" viu seus "heróis" caírem um a um, como peças de dominó. Viu a Folha de São Paulo não só virar reacionária como reacender seu passado sombrio pró-ditadura, que o "líder de opinião" desconhecia por completo.

Viu os jornalistas e até pseudo-jornalistas - como o ex-político - da "mídia boazinha" adotarem posturas conservadoras dignas de Veja, e, assustado, viu suas esperanças de participar do circo de visibilidade dessa mídia ir por água abaixo.

Viu ele mesmo diminuir drasticamente seu número de seguidores, que chegavam mesmo a ser 100 por dia, mas tornou-se um a cada 100 dias. Viu que ele, um dos primeiros a montar blogs, hoje foi passado para trás por uma blogosfera bem mais instigante e ativa, que até copiava textos, mas tinha pelo menos um cuidado de comentar de próprio punho os mesmos, nem que seja na lista de comentários.

A MODA É DIZER "ODEIO O PiG"

Muitos blogs progressistas deixaram o "líder de opinião" tão transtornado que ele, para diminuir os efeitos de seu prejuízo, passou a seguir modismos.

Como os blogueiros progressistas se definem como inimigos do Partido da Imprensa Golpista (termo lançado por um deles, Paulo Henrique Amorim), o "líder de opinião" passou então a se autoproclamar "progressista" e dizer-se "inimigo do PiG".

Mas isso é mais ou menos como se um político do PMDB se autoproclamasse "marxista de tendência trotskista". O "líder de opinião", já com seus textos cheirando a mofo, com seu blog que mais parece arauto da Idade Média, se compararmos a velocidade de mudanças que existe na rede mundial de computadores, tenta embarcar na onda e não soar deslocado diante do fenômeno atual da blogosfera progressista.

Só que ele continua com a mesma postura de antes. Desfile de fotos de líderes sindicais, secretários de prefeituras, jornalistas e professores universitários, quase todos à paisana, com camisas abotoadas, camisetas polo. Os mesmos textos frouxos, mas agora com alguns deles não somente falando mal da Rede Globo, mas também a definindo agora como "PiG", seguindo a cartilha do professor Amorim, sem a criatividade e o vigor deste.

O "líder de opinião" ainda comete infelicidades como, no caso de cortejar a música brasileira, elogia aquele conjunto de "pagode mauricinho", hoje convertido a um pretenso "samba sério". Fala muito bem do novo lançamento do grupo, sem perceber as assinaturas das canções elogiadas: Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Marquinhos Satã, Jorge Aragão. Ou seja, as "faixas mais legais" são nada mais do que covers de sambas autênticos. Aí não vale.

Mas o "líder de opinião" quer mais. É a cantora de axé-music ou de "sertanejo universitário" de beleza sensual. Ele nem ouve críticas, feito um Ulisses seduzido pelas sereias que o seduzem. "Cara, a breganeja é protegida do PiG", avisa alguém. Ele não liga. Não quer saber.

E depois ainda quer falar mal do PiG. Mas ouve sua trilha sonora.

Seu blog até virou linque na lista de um e outro blog progressista.

Mas um linque mofado, abandonado entre tantos outros, um linque que quase ninguém mais clica. Porque não interessa mais.

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