segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

CULTURA, ALMA DO POVO, TAMBÉM SOFRE COM A POLÍTICA


A VERDADEIRA CULTURA POPULAR TRABALHA COM VALORES SOCIAIS, E NÃO COM A QUANTIDADE DE PESSOAS QUE LOTAM DETERMINADAS PLATEIAS.

Por Alexandre Figueiredo

A cultura é a alma do povo. Nela se expressam hábitos, costumes, crenças e outros elementos que compõem os valores sociais de determinada comunidade.

Só que a cultura sofre com a política. E poucos percebem.

Vemos que uma parte da intelectualidade que se diz de esquerda - certamente não falo dos esquerdistas autênticos, mais pés-no-chão - adota uma visão deturpada de cultura popular, bem mais afinada com o discurso direitista da grande mídia, sobretudo Rede Globo e Folha de São Paulo, as duas principais portas de entrada para a cafonice dominante no nosso país.

Os "sucessos do povão" não são a verdadeira cultura popular.

Como não é a imprensa populista, seja fofoqueira ou policialesca, como também não são as popozudas que habitam a falta-de-imaginário dos machos selvagens brasileiros.

O "cheiro de povo" foi apropriado pela mídia coronelista do interior do país, que projeta seus ídolos na chamada "mídia popular" de São Paulo e daí para o país, e essa mídia coronelista estabeleceu sua patente.

Isso apesar da grande mídia nacional espalhar pelos quatro ventos a lorota de que a indústria cultural morreu, de que os "sucessos do povão" nunca tocaram no rádio, que as popozudas são feministas e toda a cafonice se projetou tão somente pelas "redes sociais" da Internet. Até os ídolos cafonas de 1964-1990, quando não havia ainda Internet, pelo menos como hoje a conhecemos.

Por isso é que o assunto cultura anda sendo manipulado pela direita política e ninguém se dá conta.

A Folha de São Paulo joga o Pedro Alexandre Sanches para falar de tecnobrega na imprensa esquerdista, o pessoal acredita, mas depois o tecnobrega está logo lá, com seus padrinhos, na revista Veja, na Contigo, no Domingão do Faustão, na Ilustrada.

Que esquerdismo tem o brega-popularesco se ele não mete susto algum na mídia golpista?

Até a Banda Calypso foi tida como "progressista", houve até o boato do Nobel da Paz (felizmente desmentido), até Joelma e Chimbinha serem recebidos aos abraços pelo bobo-da-corte do Instituto Millenium, o "seu casseta" Marcelo Madureira.

Que em termos de senso de humor, chega a perder feio para o jornalista Paulo Henrique Amorim, que não é comediante mas sabe fazer tiradas mais engraçadas, enquanto o casseta só era mau humor nas suas pregações direitistas na GNT e no Millenium.

Para que defender uma "música popular" que os editores reacionários da Folha de São Paulo também defendem, até com entusiasmo maior?

O discurso favorável ao "funk carioca" já foi trabalhado, e muito, pela Rede Globo de Televisão. E seu discurso "social" elaborado pela Folha de São Paulo com muito esmero.

O mesmo com o tecnobrega, que, pelo jeito, despertou interesse até no Ali Kamel.

Mas os blogueiros-patolinos, os colonistas-paçocas, os fukuyamas-enrustidos-que-dizem-que-odeiam-o-Fukuyama dizem que isso não tem a ver e que essa "cultura popular" transita na grande mídia porque é "universal".

Como é "universal" se ela é medíocre? É apátrida, domesticada, alienada (sim, alienada!), caricata, sem qualidade.

Vamos botar a baixa qualidade estética por debaixo do tapete, para o bem do "mercadão"? Quando a estética é um dos elementos-chave da expressão artística?

Porque essa "cultura popular" que aparece no rádio FM e na TV aberta, não é, de fato, cultura popular. Não mesmo.

E não é bom achar que, neste caso, a grande mídia que patrocina essa pseudo-cultura "inexiste" para o setor e que apenas uns dois ou três geeks criadores de "redes sociais" é que investem nos milionários cantores de "sertanejo", "pagode romântico", axé-music, "funk" etc que vemos no Domingão do Faustão, no Caldeirão do Huck e na primeira página de Ilustrada.

Não ponhemos culpa nos caras do Facebook, YouTube, Twitter e Orkut pelos espetáculos brega-popularescos patrocinados pelo latifúndio, pelas oligarquias do atacado e varejo e pelos barões da grande mídia.

Eles não querem a verdadeira cultura popular, que produz conhecimentos artísticos, valores sociais e reúne a comunidade de forma autônoma.

Querem aquela pseudo-cultura, que "reúne" o povo pobre - sob o rótulo meio bovino de "massa" - que nem gado através das chamadas "rádios populares" e dos "programas populares" da TV aberta.

Querem que o "valor cultural" seja sempre atribuído a ídolos que só servem para lotar plateias e que não se tratam de valores humanos, mas de celebridades-fetiches que hoje enganam até intelectuais.

Sinto falta daquela cultura popular humanista, simples, natural, das classes populares.

Daquela cultura que hoje ameaça desaparecer, soterrada pela avalanche brega-popularesca.

A intelectualidade, que deveria colaborar para resgatar essa cultura popular ameaçada, prefere aplaudir o oba-oba brega-popularesco que só serve para enriquecer o empresariado que patrocina todo esse espetáculo.

Por isso a cultura torna-se um tema político que poucos percebem.

Mas vão perceber.

O que este blog diz vai estar em todos os blogs progressistas.

Porque as circunstâncias que inspiram estes questionamentos tão delicados tornaram os problemas mais evidentes, e aí só os desinformados é que não verão.

O país progride, ainda que aos poucos e de forma muito branda. Mas há avanços.

Agora é preciso que esses avanços se reflitam no processo cultural, que requer a ruptura da velha ideologia brega-popularesca que só adiou o desgaste final graças ao seu discurso "socializante", que já não consegue convencer tanto, tamanhas suas contradições cada vez mais expostas.

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