sábado, 8 de janeiro de 2011

A CRISE DA INTELECTUALIDADE BRASILEIRA - I


NOAM CHOMSKY, EM 1969 - Intelectuais como ele não teriam chance de fazer pós-graduação no Brasil.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade brasileira está numa séria crise. Não pela falta de grandes intelectuais e cientistas, porque eles existem, mas é porque eles não fazem parte do establishment intelectual que influi decisivamente nos padrões de abordagem cultural e científica dominantes.

A crise se dá porque os padrões oficiais de trabalho e pensamento intelectual no Brasil discriminam o senso crítico e estabelecem critérios viciados que envolvem burocracia, verbas de pesquisa e corporativismo. Sobretudo quando intelectuais se tornam astros da mídia ao defenderem os "sucessos do povão" que tocam nas rádios e aparecem na TV aberta.

Isso se torna muito grave, porque a discriminação do senso crítico faz com que não somente intelectuais do padrão de raciocínio crítico como o linguista Noam Chomsky e o estudioso em Comunicação Umberto Eco tenham seu acesso ao meio acadêmico vetado já nas primeiras seleções para o Mestrado, como teria barrado, até de forma humilhante, intelectuais do passado, como o antropólogo Gilberto Freyre, se ele fosse vivo e jovem na atualidade.

Imagine se Gilberto Freyre, com seu livro Casa Grande & Senzala pronto, fosse redigir um resumo introdutório da obra e apresentasse como ante-projeto de mestrado numa universidade brasileira de hoje. Se a banca examinadora avaliasse o resumo do prestigiado livro (se ele nem lançado tivesse sido hoje), a reprovação seria constrangedora e enérgica, e se pudessem, os professores diriam para o jovem Gilberto:

"Não dá para levar adiante seu projeto. Totalmente anti-científico, ele não tem narrativa de monografia, é um trabalho completamente risível. Sinto muito, você terá que passar a limpo toda essa abordagem, afinal isso é um trabalho de criança, uma redação de segundo grau ampliada para muitas páginas. Sinto muito, caro Gilberto, mas você terá que reescrever seu trabalho, reavaliar seus pontos de vista, adaptá-los para o rigor acadêmico e, quem sabe, a gente pensa em aprová-lo para o Mestrado, OK? Abraços."

Sim, é isso mesmo.Um dos maiores livros de ciências sociais do mundo, que ganhou várias traduções, um trabalho que não deixa de ser discutível mas é bastante pertinente em muitos pontos (e talvez o caráter discutível seja sua virtude, porque é um trabalho para debates, mesmo), simplesmente nunca chegaria sequer a um mero ante-projeto de Mestrado nas faculdades brasileiras, se lançado hoje.

A crise da intelectualidade será abordada neste blog em outras duas partes. Uma é quanto ao extremo rigor acadêmico que discrimina o senso crítico e transforma a vida intelectual brasileira num processo apático, monótono e muito pouco transformador de nossa sociedade. Outra é quanto à badalação de intelectuais estrelas que defendem a suposta "cultura popular" sem ter uma análise crítica sequer em relação aos problemas relacionados à mídia e cultura.

Em ambos os casos, a crise é um grave problema que precisa ser discutido e analisado diante de um contexto de progresso social em que vive o país, e que não poderá mais aceitar essa conduta ao mesmo tempo submissa e demasiado rigorosa da intelectualidade brasileira. Porque essa crise pode transformar a intelectualidade brasileira numa classe desacreditada e sem influência, quando seus defeitos, hoje dissimulados, forem denunciados amplamente.

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