quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A CRISE DA GLOBO E DO BREGA-POPULARESCO


DOMINGÃO DO FAUSTÃO TEVE, NO ÚLTIMO DOMINGO, APENAS 12 PONTOS NA CIDADE DE SÃO PAULO.

Por Alexandre Figueiredo

Crise no PSDB, crise na Globo. Duas crises, mas que envolvem duas instituições ideologicamente parecidas.

A Rede Globo atravessa uma crise de audiência, que ainda não a tira da posição de liderança na mídia brasileira, mas representa uma perda de influência antes inimaginada.

Depois do Casseta & Planeta, Fantástico e Jornal Nacional, o Domingão do Faustão torna-se a vítima da queda brusca de audiência da programação da emissora, processo que pode atingir também o Big Brother Brasil, que já não consegue mais passar um verniz cult como nas três edições anteriores à atual.

A crise da grande mídia envolve também o modelo de "cultura popular" por ela difundido. As tentativas de dissociar o brega-popularesco da grande mídia tornam-se vãs, mesmo com tantas alegações, muitas delas hipócritas, à "cultura da periferia".

É um processo que tem o mesmo sentido de fazer os peixes viverem fora d'água, e, além disso, esse discurso supostamente favorável ao povo pobre, com uma retórica falsamente humanista, só faz as classes abastadas esconderem por debaixo do tapete seus verdadeiros preconceitos contra os pobres.

Afinal, para eles o pobre só é "genuíno" quando se vira nos trinta segundos no programa de Fausto Silva, o pobre tem que fazer a sua palhaçada brega-popularesca, feito animalzinho de circo, e esperar calado os benefícios do progresso econômico serem decididos de cima.

O Domingão do Faustão era a vitrine maior da música brega-popularesca. Até pouco tempo atrás, havia rodízio dos maiores medalhões do "sertanejo", do "pagode romântico" e da axé-music, além da inserção de nomes emergentes de estilos como forró-brega, arrocha e tecnobrega.

Por questões estratégicas ou mesmo de cautela, o "funk carioca" só aparecia através de seus intérpretes mais comportados, até porque o público do Faustão inclui adultos e idosos que não são receptivos ao grotesco funqueiro, ainda que gostem das demais tendências da Música de Cabresto Brasileira.

Mas os próprios medalhões que batiam ponto no programa de Fausto Silva estão apavorados, correndo para os cruzeiros marítimos para, ao menos, lucrarem com um público de maior poder aquisitivo.

O MEDO DOS REACIONÁRIOS

Enquanto isso, em terra firme, internautas reacionários, numa conduta que varia entre um Reinaldo Azevedo e um Joseph McCarthy, um "racional" Carlos Alberto Sardenberg ou um irracional Diogo Mainardi, ou entre um Cabo Anselmo de 1964 e um José Serra de 2010, tentam protestar contra as críticas que os ídolos brega-popularescos andam sofrendo, assustados com a perda de popularidade desses ídolos lotadores de plateias.

Tentam rosnar, grunhir, ladrar e morder, como cães de guarda do establishment do entretenimento oficial brasileiro, ao verem seus valores e ídolos declinarem severamente, depois de quase dominarem a cultura popular.

São valores ligados à mediocridade cultural atribuída aos pobres, cuja decadência é rebatida com todo o discurso bonitinho de reacionários que tentam esconder os problemas da grande mídia por debaixo do tapete através de um discurso "relativista" que não convence, por não corresponder à realidade.

Afinal, a mediocridade cultural que existe aí não é fruto de julgamentos moralistas ou elitistas de qualquer ordem, mas da própria realidade da suposta "cultura popular" de hoje confrontada com as tradições culturais acumuladas em nosso país.

Daí a decadência que irrita a classe média "boazinha" com os pobres. São eles, que apoiam o "rebolation", o "créu", o "tchan" (*), a título de aparentemente defenderem a periferia, que no fundo sentem "nojo de pobre", porque o nojo deles pelos pobres se manifesta quando os pobres superam sua inferioridade social e rompem com os papéis que a mídia grande determina para eles.

Aí um horror elitista ainda maior do que esses reacionários atribuem falsamente aos outros vêm à tona. Ver que no lugar do "rebolation" renascerão, nas aulas de MPB nas favelas e cortiços, nas periferias e roças, nos sobrados e sertões, novos Ataulfo Alves, Jackson do Pandeiro, João do Vale e Elizeth Cardoso difundindo inteligência e humanismo para os pobres, é o que deixa a classe média politicamente correta e "dona da verdade" apavorada, horrorizada, com nojo.

Daí essa inversão de discurso que Adrianos, Eugênios, Pedros, Márcias fazem. Ver a moça da periferia trocar a Solange Gomes pela Larissa Maciel é o que deixa a classe média apavorada. Daí o esforço hipócrita e politicamente correto de preferir que se chame a Solange Gomes de "feminista". Mesmo odiando ler livros, mesmo posando de "enfermeira sexy".

DOMINGÃO É VITRINE DOS POPULARESCOS

E esse pavor deve ser sentido com a crise do Domingão do Faustão. Se o próprio Casseta & Planeta era vitrine de ídolos brega-popularescos - nos últimos meses os cassetas davam aval aos "sertanejos universitários" e estavam perto de contribuírem para o "renascimento" da axé-music - , o Domingão do Faustão era uma vitrine maior ainda.

Aliás, uma vitrine que influía decididamente no mercado. Mas que chegou a ser descartada pelos barões do entretenimento popularesco, diante da exposição negativa da Rede Globo durante a campanha eleitoral.

Todavia, por questões de sobrevivência - afinal artigos e ensaios acadêmicos não enchem barriga alguma dos ídolos brega-popularescos - , o Domingão do Faustão continuou e continua sendo a arena dos popularescos. Não mais para colocar, uma semana atrás da outra, a "rainha do axé" alternando com o "rei do pagode romântico", com a "dupla sertaneja da hora" ou com "a nova sensação do forró eletrônico".

Mas, com a anunciada saída da banda Domingão - que fez o tecladista Luiz Schiavon retomar de vez o RPM - , o Domingão do Faustão, com toda a crise em que vive, terá que manter o espaço dos ídolos popularescos, enquanto estes fazem suas últimas apostas em cruzeiros marítimos ou posando de pretensos "discriminados pela mídia" na concorrente Rede Record.

A crise do Brasil cafona, mídio-golpista e tucano, só está começando. Pode gerar ainda mais nervosismo da elite "certinha" e seus argumentos bonitinhos, mas que não correspondem à realidade.

Eles podem bater o pé achando que vivemos no paraíso da cultura do povo pobre, mas eles são desmascarados e continuarão sendo na medida em que se prova que a "cultura popular" que eles defendem não é aquela que a História nos registra humildemente, mas aquela "periferia" reduzida a uma Disneylândia rural-suburbana que serve para enriquecer as oligarquias às custas da domesticação do povo pobre.

(*) O É O Tchan é pouco recomendado para a vovó e para o netinho, sendo um grupo abominável dos 8 aos 80. O É O Tchan é impróprio para a vovó, porque é pornográfico e pode causar problema no coração. O É O Tchan é impróprio para o netinho, porque seu erotismo exagerado e grosseiro pode criar desvios de conduta moral e controle dos desejos sexuais na idade adulta.

O É O Tchan é machista, mas suas dançarinas pensam que ser feminista é não contar com o sustento de maridos ou namorados. Dizem que não têm namorados porque está difícil arrumar homens, quando na verdade é porque está difícil arrumar horários para conhecer os homens que são pretendentes. Que, certamente, não sou eu nem você, no caso de você ser um leitor masculino. Nós queremos mulheres realmente de conteúdo, sem qualquer trocadilho pornográfico.

Um comentário:

  1. Puxa, Alexandre. Eu li sobre o Ibope ridículo (nos padrões globais) de 12 pontos do Faustão no portal Terra, ontem quase à meia noite. Tratei de registrar no meu blog. Já imaginava o que você escreveria a respeito, na manhã seguinte. O texto ficou sensacional.

    Essa edição do Faustão de 12 pontos é a mesma que comentamos pelo telefone, antes mesmo do programa começar. Nós não vimos, obviamente. A edição que teria ao mesmo tempo uma banda boa de MPB-rock (o Skank, que nunca considerei como rock autêntico) e os irmãos queixadinha (um deles barbado) César Menotti & Fabiano, do gênero sertanojo universiotário.

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