quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

BREGA-POPULARESCO TEM A MANIA DE DESMENTIR


DOMINGÃO DO FAUSTÃO - Através do programa, os barões da grande mídia estabelecem o seu padrão de "cultura popular".

Por Alexandre Figueiredo

Nos últimos anos, o brega-popularesco, em processo de desgaste, passou a fazer apelações, no esforço de desmentir fatos óbvios e evidentes.

Para começar, cantores, duplas e conjuntos no auge da popularidade passaram a desmentir o sucesso, se autoproclamando "vítimas de preconceito", como se não tivessem conquistado metade do sucesso que obtiveram.

A lorota deu certo e fez prolongar quase todo o elenco dos "sucessos do povão" que já dominava as rádios FM e a TV aberta, não obstante com a mais aberta adesão de intelectuais influentes na chamada opinião pública.

Depois veio a tentativa de trair a verdade histórica, como definir os ídolos bregas que fizeram sucesso durante a ditadura militar como "inimigos do regime". A inverdade chegou-se ao ponto de Paulo César Araújo apostar num discurso contraditório, afirmando que os ídolos cafonas eram "despolitizados", mas insistindo em promovê-los como "cantores de protesto" em teses conspiratórias.

A manobra chegou ao ponto de tirar da Internet trechos de entrevista com o cantor Waldick Soriano no programa TV Mulher, da Rede Globo, recém-digitalizados. Nela, Waldick falava mal do movimento feminista e elogiava o regime militar, numa manifestação de direitismo que também se vê no depoimento registrado na coletânea O Som do Pasquim.

Outra manobra também é definir o ídolo de outrora como se fosse vítima. Isso criava uma vaidade às avessas, um marketing de exclusão, uma presunção do passado de pobreza, um sentimento de valentia dotado de muito cinismo. Ídolos no auge da carreira chegando a falar que "sofreram fome" com uma vaidade que beira à arrogância. Ídolos de sucesso que, em programas de TV, exibiam as favelas de sua infância com a mesma ostentação com que aristocratas exibem suas casas de luxo na revista Caras.

Até mesmo o todo-poderoso do entretenimento musical da Rede Globo, o compositor Michael Sullivan, passou a fazer seu marketing de exclusão que já unia funqueiros e ídolos cafonas do passado, breganejos e axézeiros e outros da fauna brega e neo-brega nacional. Todo mundo posando de "coitadinho" para que o sucesso de antes seja recuperado ou continuado a pretexto de "ser cultura séria".

Ao longo da Era Lula, era esse o recurso, até então inédito, de toda uma pretensa "cultura popular", cujos estilos, todos eles, floresceram dentro de cenários político-midiáticos conservadores, de direita. Cenários cuja associação é recentemente desmentida, apesar de muitas evidências.

A campanha, a princípio, era feita dentro dos pátios da grande mídia, já que o patrocínio direto dos coronéis do latifúndio e dos barões do atacado e varejo na mídia golpista era mais que direto.

No entanto, através de "atalhos" como partidos de direita "flexíveis", como PMDB, ou por veículos concorrenciais de mídia, como a Rede Record, a campanha a favor do brega-popularesco se infiltrou na intelectualidade "de esquerda", que em parte passou a ter a mesma visão de "cultura popular" digna de um Ali Kamel.

O discurso de "cultura da periferia" foi reforçado e, com ele, mais mentiralhada. Aos estilos cafonas, foram associados referenciais tão díspares relacionados a eventos como revolta de Canudos, Semana de Arte Moderna, movimento punk, ou mesmo as rodas de samba do século XIX e começo do século XX.

São referenciais que, no entanto, não existem nas tendências brega-popularescas abordadas, e mesmo seus intérpretes desconhecem completamente. São referenciais que só existem na imaginação dos intelectuais que escrevem sobre tais tendências. É o chamado "bom etnocentrismo", quando a intelectualidade atribui ao "outro" uma sabedoria que não existe, mascarando assim todo um contexto de controle social das classes pobres pelas elites dominantes.

Toda uma intelectualidade dita "de esquerda", dotada ainda de muita visibilidade e de reputação ainda não inteiramente abalada - é só citar o nome de qualquer um deles na busca do Google que o endeusamento em torno deles ainda continua - , passou a prevalecer com sua visão de "cultura popular" que, estranhamente, coincide muito com aquela visão transmitida pela mídia conservadora.

Mesmo Paulo César Araújo, com seu ar sinistro, suas teses conspiratórias e seu trabalho bastante discutível como historiador, ainda goza de seus momentos de "divindade terrestre" pela maioria de internautas e blogueiros com visibilidade mas com senso crítico mais débil.

Por enquanto, a coincidência entre essa abordagem intelectual e aquela que aparece na Rede Globo, Folha de São Paulo e revista Caras é encarada com vista grossa, os intelectuais apenas mudam de assunto, sem condições de desmentir a surpreendente afinidade de visões com a velha grande mídia.

Diante de tal omissão, continuam as campanhas que os barões do entretenimento (latifundiários, empresários do atacado e varejo) que sustentam a "cultura" brega-popularesca, no desespero de evitar os efeitos dramáticos de seu desgaste, sobretudo num tempo em que seus maiores ídolos vivem uma fase de revival não-assumido, com sucessivos discos ao vivo (concebidos a qualquer pretexto, seja comemoração de carreira, seja apresentação em programas de TV e festivais), revisitando o mesmo repertório e gravando covers de forma oportunista.

A mania agora é dizer que a "indústria cultural" acabou. Agora os ídolos brega-popularescos, mesmo aqueles no auge do sucesso, depois de aparecerem tanto na grande mídia, sobretudo rádios FM, TV aberta e revistas de celebridades, dizem agora que "estão fora da grande mídia" e "fora da indústria fonográfica".

Essa declaração, mesmo completamente fora da realidade, tenta dar um verniz "moderno" e "vanguardista" aos estilos brega-popularescos ameaçados de desgaste, além de promover, com muito mais facilidade, modismos regionais (como o tecnobrega) para o resto do país.

E, mais uma vez, a intelectualidade etnocêntrica afina o discurso com a mídia golpista. De forma omissa suficiente para, diante das acusações, os intelectuais mudarem de assunto. Até que alguém com maior visibilidade do que eles provem que suas visões sobre "cultura popular" estejam erradas e que nenhuma desculpa a mais sobre a mediocridade cultural dominante na mídia seja veiculada com êxito.

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