terça-feira, 4 de janeiro de 2011

BREGA-POPULARESCO: O TÉRMINO DE UM CICLO


O BREGA-POPULARESCO QUE ROLA NOS RÁDIOS DOS CAMELÔS NUNCA SERÁ A VERDADEIRA MPB.

Por Alexandre Figueiredo

A dita "música popular" que rola nas rádios FM e na TV aberta, defendida por intelectuais de visão etnocêntrica e tida pelo mercado como a "cultura popular" definitiva e eterna, pode estar encerrando seu ciclo. Por mais que o empresariado que a financia insista em perpetuá-la, tentando desmentir todo o seu sucesso e todo o seu domínio midiático com falsos pretextos relacionados à "cultura da periferia", "fim da mídia" e "fim da indústria".

Sinal desse silencioso fim - cujo alarde poderia deixar o mercado em pânico - é o fato dos ídolos dos ritmos da música brega-popularesca (como o "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music) concentrarem suas carreiras em CDs/DVDs ao vivo, numa clara atitude revisionista que, na prática, contradiz a imagem construída de "grandes artistas".

Praticamente reduzidos a crooners, com uma produção autoral que não deixa mais marcas - afinal elas são apenas sombra de seus primeiros sucessos, quando eles poderiam oferecer um sabor (ainda que fraco) de "novidade" - , eles deixam as composições inéditas apenas como compromisso rotineiro de jogar alguma coisa para as rádios, enquanto tentam construir suas imagens às custas de apresentações ao vivo, duetos e covers de músicas conhecidas.

Só esse processo - que chamamos de Música Paralisada Brasileira, porque nada de novo é feito por esses cantores - contradiz toda a campanha que, desde meados de 2002, é feita em defesa da música brega-popularesca (ou Música de Cabresto Brasileira, devido ao patrocínio da mídia oligárquica, do latifúndio e dos barões do atacado e varejo).

Afinal, a intelectualidade definia esses "sucessos do povão" como "algo novo, vivo, renovador". Acusavam a "velha" MPB autêntica de ficar parada no tempo, tentando afirmar que os ídolos "populares" tinham um "frescor pop" que, na visão dessa intelectualidade, indicava "modernidade" e "contemporaneidade".

Só que essa música brega-popularesca, não bastasse constar de uma qualidade artística duvidosa até mesmo para abordagens mais flexíveis sobre cultura popular (exceto para os etnocêntricos), demonstra, sim, que ela é que está parada no tempo, já que seus "grandes criadores", dotados de uma "contemporaneidade pop", só andam fazendo discos ao vivo, duetos, covers e um e outro álbum de estúdio burocrático, só para satisfazer as exigências dos diretores de rádio FM.

O ciclo desse tipo de música termina, e os sucessivos álbuns ao vivo e/ou de duetos e covers, mostram o seu esgotamento inevitável, coisa que se torna irremediável. Afinal, também deixaram de fazer sentido aquelas situações em que o ídolo popularesco, ameaçado de desgastar sua imagem, "ganha" novas notícias do tipo "Cantor tal deixa plateia em delírio no interior do Piauí", "Grupo tal arrasta multidões em Feira de Santana", "Cantora tal rouba a cena na micareta tal", "Dupla 'sertaneja' volta à terra natal e multidão corre para recebê-la".

Isso porque a grande mídia que alimentou o sucesso desses ídolos também se desgasta. Se a grande mídia se desgasta, vai a trilha sonora junto. O desespero de alguns defensores em empurrar os ídolos popularescos para a Record ou para outros veículos menos poderosos da grande mídia não elimina a associação

Afinal, o histórico da música brega-popularesca já envolveu o respaldo mais explícito não só da parte dos barões da grande mídia, como os do latifúndio e da política conservadora, que também controlavam as rádios que divulgavam tais cantores, duplas e grupos.

Seja o respaldo da ditadura militar aos ídolos cafonas - "desmentido" por um Paulo César Araújo contratado por uma editora Record voltada à direita - , pelas oligarquias regionais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, pelas concessões de rádio FM de José Sarney e ACM, pela farra midiático-cultural da Era Collor e da Era FHC, pela intelectualidade comprada pela grana do jabaculê musical que não cabe nas FMs (que partiram para outro jabaculê, sobretudo de dirigentes esportivos).

O claro desgaste do brega-popularesco pode ainda não refletir nos bares dos subúrbios, nos carrões que se exibem nas periferias, nas roças, nos sertões, já que o coronelismo cultural estabeleceu hábitos que levam tempo para serem descartados.

Mas o evidente recuo dos ídolos popularescos dos cenários da MPB autêntica, ao lado da relembrança cada vez mais constante da música brasileira autêntica do passado, mostra o quanto a música brega explícita ou então travestida de sambas, modas de viola ou então aquela composta por "modernices" tipo "funk carioca" e tecnobrega, não representa as verdadeiras caraterísticas de cultura popular.

Mesmo os recentes apelos dos ídolos popularescos, que trocaram o jabaculê das FMs pelo "aluguel" de cientistas sociais para defendê-los em artigos acadêmicos, ou então na produção de documentários, biografias, livros, que definissem tais ídolos ou tendências como se fossem a "expressão cultural" das periferias, não esconde esse desgaste dos chamados "sucessos do povão" que, sem renovar sua qualidade artística (o que é impossível, diante de sua clara mediocridade), apela, pelo menos, para a sofisticação de seu marketing.

O desgaste do brega-popularesco se dá porque este universo musical-mercadológico apenas produz sucessos comerciais que, aparentemente, são consumidos pelas classes pobres. E quem determina isso são as rádios FM, a TV aberta, com ampla divulgação sobretudo na imprensa populista. Não é a sociedade que transmite os valores sociais associados ao brega-popularesco, de profundo mau gosto e que nada ajuda na evolução social do povo. É a mídia que, controlada ou patrocinada pelas oligarquias que controlam subúrbios e roças, transmite tanto esses valores, quanto os ídolos e os referenciais ligados ao brega-popularesco.

PRECONCEITOS INTELECTUAIS

Tudo o que a intelectualidade apologética, que defende essa "cultura popular", fez foi tão somente perpetuar modismos e juntar antigos modismos numa falsa "diversidade cultural". É só para continuar garantindo a fortuna dos organizadores de micaretas, vaquejadas, "bailes funk", "mega-shows", festivais etc. É só para continuar mantendo o mercado de "sucessos do povão" sob o rótulo falsíssimo de "verdadeira cultura popular".

Para piorar, a intelectualidade, tão festejada com suas defesas ao "sucesso do povão" - por uma classe média que acha bonito o povo pobre fazer papel de idiota - , só faz mostrar seus preconceitos, com o agravante que ela se autocelebra "sem preconceitos".

É o crítico musical que elogia o astro brega porque tem medo de desagradar sua empregada doméstica, e muita gente aplaude aquele artigo sem se dar conta do medo do crítico de que sua empregada se interesse pela invejável discoteca que só ele e uns poucos possuem.

Por isso o crítico vai logo dizendo, como quem empurra chá de losna para a criançada: "Brega é bom, não curtam Ataulfo nem Pixinguinha, não vale a pena. Continuem com seu 'rebolation', com seu tecnobrega, tchan, créu, que é o que vocês do povão têm que gostar". Muita gente chega a sonhar em dar o Nobel da Paz para o crítico musical, sem saber do grave preconceito social que está por trás da defesa dessa verdadeira campanha de domesticação das classes populares.

Há muitos outros preconceitos. Como o de Bia Abramo que, defendendo as mulheres-frutas em detrimento das enfermeiras que protestavam contra paródias eróticas feitas pelas primeiras, teve seu famoso texto favorável ao "funk carioca" retirado do sítio da Fundação Perseu Abramo.

Ou então os preconceitos de uma intelectualidade que se julga "progressista" mas que adota conceitos dignos de Roberto Campos, Francis Fukuyama e outros ideólogos neoliberais. Tanto que já falam de um "fim da História" da MPB, como se Ataulfo Alves, Donga, Pixinguinha, Jackson do Pandeiro, ou Chico Buarque, Elza Soares, Edu Lobo, fossem coisa do passado e hoje só vale o "créu" ou a axé-music, o tecnobrega ou o "sertanejo", etc. Teses dignas de um Francis Fukuyama golpeado pelo 11 de Setembro em 2001 e, recentemente, golpeado também pelo caso Wikileaks.

Além do mais, que diferença faz a intelectualidade "progressista" que defende os mesmos ídolos defendidos pelas Organizações Globo, pelo grupo Folha, pelo Grupo Abril? Cinco meses separam a capa do tecnobrega da revista Fórum e o espaço dado ao estilo pela ultradireitista Veja. Pior: o que Pedro Alexandre Sanches defende hoje, de brega-popularesco, vai aparecer no Faustão daqui a duas semanas.

Isso praticamente queima o filme ideológico da intelectualidade e apressa ainda mais o desgaste do brega-popularesco, que terá que recuar. E já está recuando, buscando proteção pelos barões do atacado, diante da perigosa e evidente associação dos ídolos popularescos à mídia direitista, e diante do fechamento de espaço do rádio FM.

A MÚSICA DA PERIFERIA DO FUTURO

Enquanto isso, ONGs se apressam em reeducar as crianças da periferia, e o projeto MPB nas Escolas será implantado obrigatoriamente em todo o país.

Embora haja o risco de sabotagem nos cursos de MPB, sobretudo no interior do país, onde o coronelismo depende da domesticação sócio-cultural para manter seus privilégios de poder, o projeto de Ricardo Cravo Alvim, embora ainda corteje a música brega-popularesca, fará muita diferença porque apresentará também a fase áurea da música brasileira.

O aluno será tentado, pela força das próprias canções, a desenvolver seu discernimento. Isso torna-se inevitável, não é uma decisão pensada. Afinal, entre um samba autêntico produzido até os anos 70 e um sambrega dos anos 90 que rola nas rádios, o aluno verá que o primeiro emociona mais, por mais que o segundo seja aquilo que até agora está acostumado a ouvir.

Com o tempo, o aluno descartará aquilo que ouve no rádio. Aquele pseudo-samba sem gosto, que mais parece paródia da soul music norte-americana, será descartado, e nem como lembrança da infância será sequer lembrado. Como também a falsa música caipira com gosto de boleros e countrys aguados, ou a axé-music que mais parece versão apática dos ritmos caribenhos, fora outras esquizofrenias.

Tudo isso será descartado porque a boa música do passado, por sua natural expressividade, irá fascinar o aluno, que não resistirá a músicas de excelente qualidade. E que, para ele, representarão muito mais o novo, por mais antigas que sejam, ao passo que aquele brega-popularesco das rádios, que se autoproclama "sempre o novo", torna-se velho sobretudo nos sucessivos discos ao vivo gravados pelos seus ídolos.

A partir daí, virão novos músicos. Não mais os músicos brega-popularescos que só ouviam música pelo rádio e faziam um som diluído para depois parasitar o cancioneiro da MPB em covers oportunistas e tendenciosamente selecionados (não podem ter crítica política, afinal qual ídolo sambrega gravaria "Apesar de Você", de Chico Buarque, qual ídolo breganejo gravaria "Upa Neguinho", de Edu Lobo?). Serão outros músicos, com postura criativa e crítica mais relevantes, mais consistentes, mais sinceras.

Esses novos músicos não transformarão meros rascunhos musicais, pálidos esboços de canções, em milhões de cópias vendidas. Terão muito mais respeito com suas carreiras. Evitarão fazer discos medíocres, mas não sucumbirem ao constrangimento de maquiar o visual, a técnica e o marketing, depois de cinco anos de carreira, para serem vistos como "sérios".

Em vez disso, os novos músicos farão grandes discos desde o começo. Não porque se acham os melhores, mas porque se respeitam como artistas. Procurarão pesquisar, antes de iniciarem as carreiras, referenciais musicais sólidos, não como um reles "gosto musical" ou uma apreciação "ligeira" e superficial. Afinal, não basta gostar de samba, de música caipira, Bossa Nova etc. Tem que mergulhar fundo, querer ser o melhor, e não se limitar a "lembrar de leve" os grandes nomes da música.

Os músicos brasileiros do futuro unirão o talento dos que não aparecem (mesmo!) na grande mídia com a visibilidade dos que fazem sucesso hoje. Serão populares não por conta de um esquema de mídia, mas pelo seu talento. Serão populares não por conta de um rol de mentiras publicitárias, nem por um vínculo de mídia que começa explícito e termina enrustido, mas pela sinceridade natural desses novos artistas.

Eles saberão de política, terão humildade, sobriedade, e, na simplicidade, buscarão o melhor, sem posar de "melhores". Porque o verdadeiro gênio é aquele que não se pretende como tal, mas aquele que busca naturalmente o aprendizado profundo na prática, com serenidade.

Por isso os pretensiosos ídolos do brega-popularesco estão vendo o crepúsculo de seu sucesso. Resistem a retirar-se de cena através de discos que não passam de revival não-assumido deles mesmos. Eles sabem que 1990 e 1997 não voltam mais. Mas não querem largar o osso. Só que terão que largar um dia, ultrapassados por artistas bem mais talentosos que eles.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...