sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

BREGA-POPULARESCO JÁ NASCE IDEALIZADO


REUNIÃO DO CPC DA UNE, EM 1962 - Atualmente, os CPCs são acusados indevidamente de "idealizar" a cultura popular.

Por Alexandre Figueiredo

Quando os intelectuais que não compartilham com o clima de oba-oba popularesco dos colegas deslumbrados reivindicam uma cultura popular de qualidade, os outros - aqueles que inebriam no oba-oba popularesco - acusam os primeiros de "idealizarem a cultura popular".

O brega-popularesco, com seu poderoso lobby empresarial, midiático e político, tenta se situar "acima" das mídias, das correntes políticas, da indústria, quando suas caraterísticas fundamentadas pela domesticação do povo pobre demonstram sua postura claramente mercantilista e, na essência, conservadora e direitista.

A acusação de "idealização" da cultura popular vem desde os anos 80, quando, rediscutindo os fatos históricos do pré-64 - que só puderam ser ampla e abertamente debatidos com o fim do regime e, depois, da Censura Federal - , certas correntes acusaram os Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes de promover uma visão "elitista" relacionada à cultura popular.

É certo que os integrantes dos CPCs não poderiam ser confundidos com as classes populares. A iniciativa é ligada a universitários de classe média que acreditavam numa expressão engajada da cultura popular. Mas dizer que eles eram "idealizadores" é um exagero, porque atirbui-se a eles uma concepção pronta, pré-estabelecida, de "cultura popular".

Os CPCs eram um debate vivo. Não tinham uma concepção pronta. Eram ainda um projeto, iniciado em 1961, regulamentado em 1962 e com apenas um pouco mais de dois anos de atividades. Seus integrantes tinham suas diferentes visões, mesmo quando se afinavam em querer uma cultura popular não-alienada.

Talvez a visão que injustamente se abate contra os cepecistas - visão sobretudo formulada por intelectuais depois ligados ao governo FHC, como Francisco Weffort - se deve ao fato de que o Centro Popular de Cultura (a expressão, no singular, se refere à sede) ter encerrado suas atividades de forma prematura, por imposição da ditadura militar instaurada em abril de 1964.

A interrupção brusca, com a UNE, declarada extinta pelas Forças Armadas que tomaram o poder, operando na ilegalidade, fez o projeto não ser visto de forma mais objetiva. E, no momento em que parte influente da intelectualidade adere ao oba-oba midiático do brega-popularesco, a coisa se complica de vez.

Hoje essa intelectualidade afirma, em total desprezo à memória histórica, que os tais "sucessos do povão" são expressão "natural" e "espontânea" das classes populares. No entanto, seus ídolos e tendências, durante anos, foram claramente patrocinados pelos latifundiários, pelos barões do atacado e varejo, pelo empresariado do entretenimento e, acima de tudo, pela grande mídia e pelos políticos conservadores associados.

Não é difícil ver que a música brega-popularesca, ou Música de Cabresto Brasileira, denominação incômoda mas coerente desses "sucessos do povão", é que é, sim, fruto de um processo de "idealização" da cultura popular.

Afinal, quando havia as Ligas Camponesas (o MST dos anos 50-60), o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e o CPC da UNE, todos empenhados na concepção de um país mais justo e democrático, o poder latifundiário, através de rádios e serviços de auto-falante a ele ligados, financiaram a primeira geração de ídolos cafonas que, tão facilmente, foram para São Paulo fazer sucesso e iniciar toda uma linhagem que hoje é dominante na mídia do entretenimento em todo o país.

O brega-popularesco, iniciado com os primeiros ídolos cafonas, baseava-se na domesticação do povo pobre e no desenvolvimento de seu conformismo social, diante da prevalência do poder coronelista e capitalista. Criava-se um modelo de "cultura popular" que dizia para o povo que sua inferioridade social era irreversível e que somente os poderosos seriam capazes de criar medidas para sua (relativa e limitada) superação.

Com isso, criou-se um modelo de "cultura popular" baseado na baixa qualidade artística, no comportamento patético, na alienação política, dizimando o máximo possível qualquer expressão genuína de identidade regional e popular.

Ninguém diz, mas o brega-popularesco só foi "aperfeiçoado" quando especialistas de toda ordem - uns ligados à indústria fonográfica, outros à mídia, outros ao mercado do entretenimento, fora alguns intelectuais adesistas - tentaram recuperar, na superfície mas não na essência, a identidade regional perdida.

A partir daí, a música brega-popularesca - então composta de arremedos de boleros, country, música italiana e outras tendências estrangeiras - desenvolveu arremedos de música caipira, de samba e de outros ritmos regionais, que mal conseguiam disfarçar a prevalência de elementos estrangeiros, adotados não para enriquecer uma linguagem artística local, mas para enfraquecê-las por subordinação.

Ídolos "carneirinhos", submissos ao status quo político-econômico, vieram sucessivamente aos montes, a cada ano. Enquanto isso, o povo pobre aparecia exibindo seu comportamento caricato em programas de televisão.

Os desejos do povo pobre passaram a ser tão somente uma relativa participação no mercado de consumo, além de valores sociais baixos, como a obsessão pelo erotismo mais exagerado das calipígias (de Rita Cadillac às mulheres-frutas, sem excluir as popozudas "radicais" das paniquetes, musas do Pânico na TV), tudo isso em detrimento da verdadeira qualidade de vida, sonho durante anos distante das classes populares.

Com a ideologia brega-popularesca, o povo tornava-se caricatura de si mesmo, e isso criou uma inversão de abordagem entre a cultura popular de outrora, rica mas tomada de muito preconceito dos antigos moralistas, e a pretensa "cultura popular" de hoje, medíocre mas defendida como se ainda fosse a rica cultura popular de outros tempos (e não é).

É só comparar a diferença gritante entre a cultura popular de outrora e um povo pobre que era capaz de ameaçar o Império brasileiro e a radicalizar movimentos políticos iniciados por elites locais, e uma pseudo-cultura de hoje cujo povo não é capaz de se mobilizar por contra própria, submetido ao que as rádios FM e emissoras de TV aberta transmitem.

Quando muito, o envolvimento político de ícones do brega-popularesco não vai além de fenômenos pitorescos ou de condutas já usuais do fisiologismo político-partidário.

Além do mais, até na escolha tendenciosa de que clássico da MPB um cantor de "pagode romântico", "música sertaneja" ou axé-music vai gravar, o caráter "carneirinho" vem à tona. Afinal, eles sempre evitam gravar canções "perigosas" como "Apesar de Você", de Chico Buarque, "Upa Neguinho", de Edu Lobo e "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores" de Geraldo Vandré. Dos autores, quando muito, eles gravam outras canções, de temática mais "inofensiva".

Mas o brega-popularesco de hoje, com sua retórica engenhosa, tenta passar para os outros as acusações que na verdade se referem a ele mesmo.

Seus defensores acusam os outros de desejarem a "idealização" da cultura popular. Mas é o brega-popularesco que, através da domesticação sócio-cultural das classes populares, que idealizou o comportamento e a produção artística que deveriam ser associados às camadas populares da sociedade.

Seus defensores esnobam qualquer acusação de "alienação" dos ídolos popularescos. Sempre na mesma ladainha, publicada até mesmo em monografias ou artigos acadêmicos. Coisas tipo "Enquanto acusam fulano de tal de alienado, ele conquista plateias de todo o país com sua natural simpatia...".

Seus defensores, desprezando qualquer responsabilidade intelectual de analisar criticamente os fenômenos, pedem para que ignoremos os aspectos estéticos - sem saber que a estética é um dos elementos chave da expressão artística - como pretexto para dar "valor artístico" aos ídolos popularescos de sucesso.

O grande problema é que esse processo de "idealização da cultura popular" tramado pelos artífices e especialistas do brega-popularesco, a partir da exploração ao estrelato dos primeiros ídolos cafonas (apenas meros retardatários medíocres de tendências superadas como serestas e Jovem Guarda), levou décadas e décadas e o que era tendencioso e postiço hoje é visto como "natural" e "espontâneo".

Em outras palavras, o povo se acostumou mal em desempenhar o papel de caricatura de si mesmo, determinado pelas forças políticas e econômicas que respaldaram a ditadura militar e governos conservadores como de José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

Através dessas manobras de controle social e dominação político-midiática, o povo passou a personificar, na realidade, os preconceitos que antes a classe média imaginava das classes populares. A grande mídia fez o povo pobre virar paródia de si mesmo, para o bem do poderio das oligarquias regionais e nacionais interessadas.

Não é preciso chegar a essa conclusão quando fenômenos como o É O Tchan, o "funk carioca", as mulheres-frutas, o "pagodão erótico" de Parangolé, Psirico e companhia, trabalham com valores que, na prática, agem em consonância com o racismo e o machismo, promovendo uma imagem abobalhada do homem negro e uma imagem grotesca da mulher-objeto.

A verdadeira cultura popular não é assim. Mas ainda prevalece a visão intelectual dominante e influente, de que o povo pobre é "melhor" naquilo que ele tem de "ruim". Cria-se uma desculpa de que aquilo que é "ruim", "é ruim para nós" mas para o povo pobre é "o que é bom", num mal-disfarçado preconceito etnocêntrico de uma intelectualidade que ainda tem a coragem de dizer que "não tem preconceitos".

Por isso é compreensível que a intelectualidade, quase que em uníssono, pense dessa forma tão cordialmente preconceituosa, mas tida como "contra preconceitos". Seja pelo coleguismo corporativista que endeusa até o duvidoso Paulo César Araújo, seja pelos melindres que os próprios intelectuais, individualmente, têm com o trato com pessoas das classes populares de sua proximidade.

Pois sabemos que esse oba-oba em torno da "cultura" brega-popularesca se deve porque os intelectuais não querem desagradar emregadas domésticas, porteiros de prédios, faxineiros, garis e feirantes que rondam o seu meio sócio-geográfico.

Mas, por outro lado, eles escondem seu sombrio preconceito de ver seu sofisticado acervo musical ser compartilhado por esses populares, daí a alarmante campanha de defesa do mainstream popularesco dominante, como se ele nem dominante tivesse chegado a ser.

Aliás, em que pesem esses intelectuais tanto se declararem contra a "idealização da cultura popular", eles não só expressam essa "idealização" defendendo o brega-popularesco em si, como em atribuir referenciais históricos, culturais e políticos que, na verdade, inexistem em fenômenos da "cultura" brega-popularesca.

Além do mais, eles expõem, de uma forma ou de outra, seus preconceitos e até mesmo valores conservadores. Uma intelectualidade que, sem se dar conta, defende conceitos neoliberais em torno da ideia de "modernidade pop" aplicada à música brasileira.

Se observarmos os textos de Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Bia Abramo, Hermano Vianna, Milton Moura, Roberto Albergaria, Rodrigo Faour, Ronaldo Lemos, e tantos outros defendendo os tais "sucessos do povão", estaremos estarrecidos ao concluirmos que todos eles adotam uma visão de "cultura popular" digna de assessor de Fernando Henrique Cardoso.

Nem mesmo a aparente evolução de ídolos brega-popularescos, rumo a uma pretensa sofisticação - "meta" perseguida por várias tendências, do "sertanejo" ao tecnobrega, do "pagode romântico" ao forró-calcinha - , escapa dessa perspectiva de "idealização".

Afinal, essa aparente evolução é muitas vezes tendenciosa, motivada por críticas negativas ou imposições de mercado. Alcançada não por naturalidade nem espontaneidade, mas muito marketing, muita técnica, muito banho de loja, muita tecnologia, muitas reuniões de escritório. Moldar uma música assim, moldar ídolos assim, só para dizer que "eles também são da MPB", soa tão falso, postiço e não traz resultado concreto algum. Não deixa marca, apesar de tentar fazer bonito nos especiais musicais da Rede Globo e do Multishow.

A pretensa sofisticação, por isso mesmo, também é "idealização". E é, ironicamente, a aplicação, na prática, daquilo que os intelectuais condenam no que eles entendem como "cultura popular". Eles não cansam de dizer que reprovam qualquer idealização, de moldar a "música brasileira" conforme desejam certas elites.

Mas lá estão os ídolos "sertanejos" fingindo fazer música caipira de verdade, os do "pagode romântico" fingindo fazer "samba de qualidade", todos interpretando Lupicínio Rodrigues, todos interpretando Ary Barroso, todos em traje de gala, em clima de pompa, achando que, para ser "cultura popular séria", precisa ter o reconhecimento da classe média.

Mais uma vez, os tais "sucessos do povão" que dominam as rádios e a TV aberta provaram que não são cultura popular de verdade. Seu rol de preconceitos, confusões, pretensões, só mostra o quanto seus ídolos representam a idealização da "cultura popular" que as oligarquias midiáticas, os latifundiários, os barões do atacado e varejo e os donos da indústria do entretenimento - estejam ou não todos escondidos numa falsa alegação de que "a indústria cultural morreu" - tramaram ao longo dos anos.

Muitos acreditam que isso é "a verdadeira cultura popular". No fundo, porém, só estão acostumados com a mentira que dura muitos e muitos anos, e que há muito engana, ilude e domestica o povo pobre.

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