quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

BREGA-POPULARESCO ENFRAQUECERÁ SE ROMPER COM A GRANDE MÍDIA


BONS TEMPOS: CHITÃOZINHO, GERALDO ALCKMIN E JOSÉ SERRA. QUANDO A MÚSICA BREGA-POPULARESCA ASSUMIA SER DEMOTUCANA.

Por Alexandre Figueiredo

Numa dessas reações típicas do jeitinho brasileiro, que lembram o momento da reação do monstro Frankenstein contra seu criador Victor, no famoso livro da escritora Mary Shelley, o brega-popularesco tenta se desvincular das duas forças que o sustentaram durante décadas, a grande mídia e as oligarquias políticas das respectivas regiões, estas também respaldadas pelas elites político-econômicas dos grandes centros.

Como verdadeiros ingratos, os ídolos popularescos abusam da falsa postura de "vítimas de preconceitos", enquanto em outros momentos são vítima de "inveja". Num comportamento esquizofrênico, eles fazem um discurso dúbio, que ora desmente seu sucesso com falsas alegações de "discriminação pela grande mídia", ora tenta defendê-lo com alegações de "serem vítimas de inveja".

Em todos os estilos da música brega-popularesca - a Música de Cabresto Brasileira ou a suposta "música popular" que hoje rola nas rádios e na TV aberta - , os ídolos lotam plateias, vendem muitos CDs, influem no sucesso da mídia que os divulga, tornam-se grandes celebridades. Mas, cuspindo nos pratos em que comeram, eles normalmente renegam o sucesso ou, quando não conseguem desmenti-lo, tentam creditá-lo como insuficiente.

Aí vem o cacoete atual deles tentarem dizer que nada têm a ver com a grande mídia. Estão sempre na grande mídia, de uma forma ou de outra, mas tentam desmentir, acham que é só coincidência, quando não têm o atrevimento de dizer que são "discriminados" ou "sofrem preconceito".

Estilos como tecnobrega e "funk carioca" (FAVELA BASS), por exemplo, trabalham seu sucesso comercial com base num discurso apologético intelectualóide, que venda a falsa imagem de "fenômenos sem-mídia". É claro que não somos tolos, pois modismos emergentes não aparecem em todos os espaços da grande mídia. Mas isso não quer dizer que tais fenômenos não comunguem com os interesses mercantis da mídia dominante, muito pelo contrário. Os dois estilos não tardaram a ser respaldados, com grande entusiasmo, pelos veículos da mídia dominante.

Mas renegar as relações obviamente cúmplices com a grande mídia e com as oligarquias do poder político e econômico, o mais recente cacoete da música brega-popularesca, embora seja uma eventual estratégia de marketing que tente nos fazer crer que seus cantores e grupos são "a mais pura música popular brasileira", pode causar sérios problemas para eles.

Isso porque, em primeira instância, isso pode parecer, para os incautos, uma postura de independência dos ídolos popularescos em relação ao contexto político-midiático que os impulsionou para o sucesso.

Mas, em segunda instância, a postura pode indicar arrogância e imprudência, porque pode deixar os ídolos popularescos sem sua proteção. Como música comercial por excelência, a música brega-popularesca, em todas as suas tendências, não pode se apoiar em mídias alternativas ou contextos políticos esquerdistas, por mais que seja moda aderir (tendenciosamente) a eles.

Afinal, não dá para sustentar, durante muito tempo, uma série de estilos musicais feitos unicamente para o entretenimento - a audição mais atenta de seus cantores e grupos evidentemente não nos deixa mentir - , seja o mais sentimental "sertanejo", seja a mais dançante axé-music, seja o "amigável pagode romântico" ou o mais "provocador funk carioca", num discurso ao mesmo tempo intelectualóide e "militante". Simplesmente porque não faz sentido.

Seria o mesmo que promover o economista Roberto Campos como se fosse um guevarista ou trotskista. Não dá para botar delírios no lugar da razão. Muita gente acha bonitinho ser de esquerda ou ser anti-mídia, mas a falta de identificação natural com essas posturas é gritante. Na hora do aperto, o reacionarismo e o conservadorismo direitista aparecem, e aí não adianta dizer que "isso não tem a ver".

Historicamente, a música brega-popularesca sempre esteve ligada ao poderio da grande mídia e a contextos políticos conservadores. Mas agora que a música brega-popularesca começa a ser questionada, pela sua discutível qualidade artística e pelo seu duvidoso valor sócio-cultural, porque se compromete pura e simplesmente com o entretenimento e não com a produção de conhecimento nem de arte e nem de valores sociais consistentes, isso incomoda seus "artistas" e todo um empresariado que está diretamente ligado a eles.

Daí o pretensiosismo de renegar o passado grão-midiático, as ligações com a grande mídia, como se nunca tivesse existido a farra das concessões de rádio por José Sarney e Antônio Carlos Magalhães (dois representantes de oligarquias nordestinas), que fortaleceu a difusão da música brega-popularesca a partir dos anos 90 devido ao crescimento das rádios "populares" apadrinhadas pelos dois "coronéis".

Desesperados, os empresários do brega-popularesco trocaram o jabaculê radiofônico pelo jabaculê acadêmico. Da noite para o dia - pouco depois de pessoas lúcidas como Mauro Dias, Dioclécio Luz e Ruy Castro nos alertarem para o predomínio da mediocridade musical brasileira - , surgiram inúmeros intelectuais defendendo a mesma mediocridade, utilizando-se de mil pretextos num discurso cheio de clichês, como se todos eles fizessem o mesmo texto. Podendo ser um Hermano Vianna ou Pedro Alexandre Sanches, um Milton Moura ou Eugênio Raggi.

É um discurso uniforme, sempre falando de que os ídolos popularescos são "vítimas de preconceito". Um grande equívoco, porque eles estão em todos os espaços na mídia, fazem muito sucesso, e o tal "preconceito" presumiria uma dificuldade, que na verdade não existe, desses "artistas" alcançarem o sucesso entre o grande público.

O discurso usa clichês apologistas - "eles são a verdadeira MPB (sic) porque enchem plateias em todos os lugares onde vão" - , acusações infundadas - "os ritmos e as danças provocativas (seja do Tchan, do "funk", do tecnobrega etc) apavoram os moralistas de plantão", frase que evoca uma hipotética e infundada reação moralista dos moldes de cem anos atrás - , ou comparações feitas mais para confundir do que para esclarecer, como acusar Nelson Gonçalves e Lupicínio Rodrigues de "cafonas", num julgamento do passado com os olhos cronocêntricos de hoje.

Agora, nota-se que o discurso tenta um tom falsamente esquerdista, tentando desmentir a mais do que óbvia ligação entre brega-popularesco e grande mídia, além de costurar alegações falsamente militantes - como creditar um mero consumo de sucessos popularescos como "expressão legítima do povo da periferia", atribuindo a isso um fictício ativismo social que nem de longe se vê - com os conceitos neoliberais que não conseguem ser dissimulados de forma alguma: como a aplicação da tese do "fim da história" de Francis Fukuyama, na análise da MPB.

Segundo essa tese, que os defensores da música brega-popularesca não conseguem esconder e, no momento limite, até reagem com insuspeita irritação (prova de que seus argumentos são frágeis), a Música Popular Brasileira que conhecíamos, seja pelos cantores e grupos das roças, sertões e morros que foram difundidos nos anos 40 e 50, seja pelos cantores universitários dos anos 60 e 70, acabou, e o que hoje conhecemos como "música popular" são os "sucessos populares" que a gente vê de cara que trabalham o povo de forma estereotipada, apátrida, domesticada e submissa, feito umhit-parade à brasileira.

O que não é isso senão a mais exata, a mais explícita, a mais evidente e descarada aplicação das teses de Fukuyama à análise da música brasileira e da cultura popular em torno? Francis Fukuyama, em seus artigos de 1989 e 1992 sobre o assunto - respectivamente O fim da História e O fim da História e o Ùltimo Homem - , descreve que a humanidade atingiu um grau extremo de aperfeiçoamento com o estabelecimento da democracia capitalista sobre os demais regimes, sistemas e correntes políticas, alcançando o fim da História através da ascensão do liberalismo e da igualdade jurídica.

Em outras palavras, a luta da humanidade, segundo Fukuyama, atingiu seu fim, e agora o que importa é usufruir a "democracia capitalista" e seus modelos de globalização, de justiça social, além da supremacia da economia de mercado.

Na música brasileira, é como se os defensores do brega-popularesco (principalmente Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches) afirmassem que a expressão dos movimentos sócio-culturais brasileiros atingiu o seu fim, não precisando mais haver Ataulfo Alves nem Edu Lobo, Luíz Gonzaga nem Zé Ramalho, porque a cultura brasileira atingiu seu fim (o "fim da história" aplicado à MPB) e que hoje o que importa é a mistura de tudo com tudo, o conceito de "democracia capitalista" claramente aplicado à música brasileira, ==.

A música brega-popularesca é claramente neoliberal, apátrida, asséptica, que funde coronelismo com populismo de direita, intelectualidade pequeno burguesa e poderio da grande mídia, e se manifesta com sua "liberdade" aleatória de valores e referências. Como reza a indústria cultural que é o braço de entretenimento do capitalismo.

Por isso a tentativa de dissociar o brega-popularesco ao poderio da grande mídia e do contexto político e econômico ligados ao neoliberalismo e ao coronelismo, embora pareça uma medida "corajosa", irá enfraquecer a Música de Cabresto Brasileira, na medida em que ela renega toda uma estrutura responsável pelo seu sucesso e hegemonia.

Não se cortam os laços de aliança de forma impune, e razões óbvias mostram que é inviável que as atuais associações (tendenciosas) do brega-popularesco se sustentem com pretextos esquerdistas porque estes são inconsistentes, inconvincentes e frágeis e, tão somente, demagógicos.

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