quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

ROBERT FISK E O VOCABULÁRIO DE PODER DA GRANDE IMPRENSA



Por Alexandre Figueiredo

Sim, a mídia usa um vocabulário do poder. Tanto nos EUA e Reino Unido quanto no Brasil. No mês passado, o jornalista inglês Robert Fisk, correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent, realizou uma palestra no quinto fórum anual da emissora árabe Al Jazeera.

Na sua exposição, Fisk alertava para o vocabulário do poder que a imprensa dos EUA, por influência do Pentágono, da Casa Branca e do Departamento de Estado , utilizava, mostrando o quanto a grande imprensa estadunidense é influenciada, até na linguagem, nas relações que estabelecem com os donos do poder. Afinal, são os donos do poder da mídia que se relacionam com os donos do poder da política.

Fisk enumera várias expressões, muitas delas absurdas, que por si só manipulam o sentido dos noticiários e até mesmo dos fatos. Por exemplo, o chamado "processo de paz" (peace process), na verdade, é uma expressão atraente usada para algo insignificante. Não é mais do que um eufemismo para nomear, nas palavras de Fisk, "o acordo sem futuro, inadequado e desonroso que permite aos Estados Unidos e a Israel fazerem o que bem entenderem com os pedaços de terra que deveriam ser dados a um povo sob ocupação".

Há muito tempo eu ouço essa palavra "processo de paz" e mesmo nos meus tempos de adolescente ficava cético com esses acordos "intermináveis" envolvendo o Oriente Médio. Fisk afirma que essa palavra é usada há pelo menos duas décadas, mas eu mesmo já ouvi essa palavra sendo mencionada nos noticiários há uns trinta anos.

Fisk menciona o famoso acordo de 1994 entre o então presidente dos EUA, Bill Clinton, o líder palestino Yasser Arafat e o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, que a grande imprensa "definiu" como "processo de paz" e classificou o evento, exageradamente, como "momento histórico". Algo enfeitado, jornalísticamente, para figurar como manchete principal de muitos noticiários e nas primeiras páginas de muitos jornais.

No entanto, sabemos que o referido acordo deu com os burros n'água, Yitzhak foi assassinado dois anos depois num atentado e Arafat faleceu em 2004 doente, e nada de concreto realmente aconteceu. E a esposa de Clinton, tornou-se secretária de Estado dos EUA e as coisas ficam na mesma.

Aliás, Fisk cita o comentário irônico de Arafat no referido acordo com Clinton e Rabin, definindo o tratado como "a paz dos bravos" (the peace of the brave), expressão que havia sido usada pelo general e depois primeiro-ministro francês Charles De Gaulle em relação à guerra da Argélia (1954-1962), que resultou na derrota da França. Ou seja, "a paz dos bravos" não seria eufemismo para "reconhecimento dos derrotados"?

Fisk enumera outras palavras do poder adotadas pela grande imprensa dos EUA e também do Reino Unido (aqui, sob influência do Parlamento e do governo do Primeiro-Ministro de uma monarquia parlamentarista).

Como o tal "processo de paz" quase sempre dá com os burros n'água, quando há uma nova tentativa, a grande imprensa ianque tenta afirmar que o "processo" foi colocado "nos trilhos" (back in track). Não anda, mas a cada nova tentativa, novamente se põe "nos trilhos". E, de brinde, o insosso Tony Blair, quase feito braço-direito de George W. Bush nas bravatas contra o terrorismo da Al-Qaeda, hoje é definido pelos barões da mídia pelo risível adjetivo de "enviado da paz".

Outro exemplo patético descrito por Robert Fisk são as "narrativas que competem" (competing narratives). Expressão preciosa para quem acredita naquele mito apático da "imparcialidade", que transformou o jornalista da grande imprensa como um "ser sem vida", sem emoções, portanto, sem postura própria na sociedade (e sabemos o quanto os barões da mídia, mesmo sob este mito, têm postura, sim, e ela é reacionária, quase anti-social), espécie de falso espelho para um tipo genérico de leitor que, de tão genérico e supostamente versátil (homens, mulheres, ricos, pobres, jovens, velhos, brancos, negros), acaba não tendo cara, nem voz, nem pensamentos, porque tenta agradar a todos e a ninguém agrada (fora seus adeptos deslumbrados). É a "imparcialidade" como motor de uma imprensa asséptica, insossa, quase robotizada.

As "narrativas que competem", portanto, consistem em um "campo neutro" onde não há justiças nem injustiças. Não há conflitos, os dois lados da reportagem ganham espaço igual e análise fria, sem posição, sem preocupações, sem postura. O jornalista só "ouve" os dois lados. Não há análise, nem questionamento, nem defesa, nada.

Também há a expressão, adotada por motivos etnocêntricos, chamada "combatentes estrangeiros" (foreign fighters). Os jornalistas ocidentais usam essa palavra, por exemplo, para definir os vários grupos árabes a serviço do Taliban, no Afeganistão. Mas eles mesmos desconhecem, ou desprezam, o fato de que pelo menos 150 mil "combatentes estrangeiros" no Afeganistão vestem, em maioria, uniformes dos Estados Unidos e da OTAN (Organização Tratado do Atlântico Norte).

E, entre outras expressões, há também a abreviatura Af-Pak (Afhganistan-Pakistan, que disfarça a influência da Índia na política terrorista do Afeganistão e apaga todo o histórico conflito entre Índia e Paquistão.

Um dos motivos que faz os jornalistas ocidentais usarem as "palavras de poder" é a falta de hábito de leitura de livros, que Robert Fisk considera um dos males da humanidade contemporânea. Certa vez, num voo de Paris a Beirute, uma mulher sentada ao lado de Fisk parecia ler um livro em francês sobre a Segunda Guerra Mundial. Em poucos segundos, ela mudava de página. Mas o jornalista logo viu que ela não estava lendo o livro, mas "surfando nas páginas", fazendo uma leitura superficial. E Fisk reconhece que os árabes, pelo menos, leem muitos livros, ainda são capazes de fazer a chamada "leitura profunda".

Eu mesmo imagino o quanto os reacionários que atacam este blog e defendem certos totens da mediocridade cultural só leem umas poucas palavras-chave que identificam ser contra seus ídolos queridos.

AS "PALAVRAS DO PODER" NO BRASIL

Talvez no Brasil a coisa não esteja somente carregada no âmbito politico. As "palavras de poder", aqui, talvez não sejam tratadas como um "vocabulário de guerra". E mesmo expressões do cotidiano, associadas ao puro entretenimento, no entanto, correspondem ao vocabulário de poder que a grande mídia adota no nosso país.

Há pouco mais de um ano, havia lido o livro A Imprensa e o Caos na Ortografia, que o jornalista Marcos de Castro lançou em 1998, que questionava as distorções ortográficas e vocabulares feitas pela grande imprensa brasileira.

Nem vamos nos ater em todos os exemplos dados pelo veterano jornalista, mas ele denuncia os vícios de linguagem que se tornaram um padrão na grande imprensa brasileira. Se é de propósito ou não, não se sabe, mas muita coisa já foi assimilada pelo nosso showrnalismo, uma vez que a cada dia nosso jornalismo é substituído, aos poucos, pelo "jornalismo de espetáculo". E agora, até reportagens sérias têm cenas em movimento acelerado, que a gente só via nas exibições de cinema mudo em equipamentos mais modernos.

Castro reclama que essa degradação do vocabulário, por incrível que pareça, tem por propósito forjar um preciosismo linguístico, principalmente na substituição de certas palavras simples por outras "valiosas".

Dois exemplos são sintomáticos. Passageiros de ônibus não são mais "passageiros", são "usuários". E, pior ainda, é o uso viciado da palavra "cliente" como substituta de freguês. É o fim da picada.

A palavra "freguês", em outros tempos, era tão honrada e respeitada, era o público dos comerciantes, uma palavra bonita que expressava uma relação social que envolvia não só compra e venda, mas também gentileza, respeito, cordialidade, ou mesmo amizade. O valor da palavra freguês e seu derivado "freguesia" é tal que, no Rio de Janeiro, ainda nos seus tempos de Distrito Federal, contou com dois bairros com o nome de Freguesia, um em Jacarepaguá (então uma grande roça) e outro na Ilha do Governador. Nomes que continuam valendo até hoje.

Mas agora, na grande imprensa, não existem mais os fregueses. Todos viraram "clientes". Segundo Castro, a expressão "cliente" era reservada apenas aos "fregueses" de médicos e advogados. Mas hoje até posto de gasolina tem "clientes". Não há mais fregueses, que, repito, corresponde a um radical tão bonito, "freguês", palavra que não soa obscena nem complicada para se falar.

No entanto, o vocabulário de poder da grande mídia brasileira tem seus truques. Se tenta passar um verniz preciosista, substituindo "freguês" por "cliente", entre outras barbaridades citadas por Castro, também não deixa de investir no empobrecimento do vocabulário, fundindo vários sentidos numa só palavra.

É o caso da expressão "galera", gíria antiga que correspondia a um tipo de embarcação marítima, assim como também à sua tripulação correspondente. Foi adotada pela imprensa esportiva porque o formato dos estádios esportivos pareciam "galeras" de navio, e o termo logo passou para definir uma multidão de torcedores.

Depois, a gíria passou para o vocabulário bicho-grilo, lá por volta de 1968-1973, e virou gíria de playboy nos anos 80. Até que no final dos anos 90 a mídia teve o asneirol de forjar um uso "universal" da gíria "galera", agora para definir coletivo de qualquer coisa "boa": de amigos, de equipe de profissionais, de parentes, de colegas da escola, de companheiros de determinado evento ou causa, etc.

Aí ficou uma coisa patética. Não se fala mais "família", "turma", "equipe". Tudo virou "galera". Entra o ditado popular "se dá para complicar, para que simplificar?". Com o vocabulário empobrecido, é hora da língua pegar pesado na matéria bruta, e aí em vez de falar "família", "turma" e "equipe", se fala "galera lá de casa", "galera lá da escola", "galera do trabalho", dando mais trabalho para a fala e para o raciocínio (me vem à mente o personagem Alexandre Fokker, de Bruno Mazzeo, e seus lapsos de raciocínio para certas palavras).

"Balada" tornou-se então um "clássico" do vocabulário do poder da grande mídia. A expressão, associada a histórias tristes e música lenta, foi então encharcada de ecstasy e teve o ritmo acelerado. Sem qualquer contexto social relevante, todas as prováveis origens sociológicas da palavra são imprecisas e atípicas para uma gíria que busca um uso "universal".

Além disso, a gíria "balada", associada a um universo de pop dançante, ganhou uma estranha projeção na grande mídia, que dava uma ideia de que a gíria passou a ter seu próprio departamento comercial e de marketing. Com direito a mershandising e mesmo a apropriação do passado. Evidentemente, as tais "baladas" nunca existiram nos anos 80 e nem existe "balada" senão de dance music daquelas bem "poperó". A não ser nas mentes bitoladas da "galera da grande imprensa", sobretudo Globo, Veja, Bandeirantes, Folha, Isto É, como também nas rádios Jovem Pan 2 e Transamérica, "donas" da gíria "balada" junto à Rede Globo.

Com "galera" e "balada", o vocabulário juvenil acaba se empobrecendo, e fica até nojento ouvir uma moça falar "vou pra balada c'a galera", como se estivesse cuspindo saliva na minha cara, como se estivesse falando com a língua enrolada de tantos "ll", e dando a crer que ela não é mais do que uma patricinha metida a "arrojada".

No âmbito político, as palavras de poder também fazem das suas, sobretudo no infame hábito de substituir "imperialismo" por "globalização". Tzavkko e Altamiro Borges que o digam, os protestos da sociedade contra o imperialismo neoliberal são, para os olhos da grande imprensa - e não se fala só de Globo, Folha e Veja, até as "boazinhas" Bandeirantes e Isto É usam e abusam da mesma linguagem - , "protestos contra a globalização". Isso porque "globalização", para a grande imprensa, dá uma ideia de "processo positivo", de "modernização do mundo", de "progresso da humanidade", não tem o sentido cruel do termo "imperialismo".

Essa é a lógica das palavras de poder. Nos EUA e Inglaterra, o poder político "amarra" os jornalistas com um padrão de vocabulário que, em si, representa domínio ideológico, controle social, manipulação da história. No Brasil, ocorre o mesmo, mas as palavras de poder envolvem também o entretenimento, visando controlar também a juventude, obrigando-a a padronizar seu vocabulário.

Os donos do poder, assim, tentam conquistar (no sentido de domínio) a humanidade por intermédio do uso de palavras.

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