quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

QUANDO UM PROGRAMADOR DE FM SÓ CUMPRE O QUE LHE É OBRIGADO A FAZER



O programador da rádio FM "popular" quase cai de tanto rir, quando os "sucessos do povão" de hoje são descritos pela intelectualidade como o "novo folclore de amanhã".

"Cara, eu recebo dinheiro para tocar certas músicas, eu trabalho para os interesses dos donos da rádio. Que trabalham para os interesses das oligarquias da cidade. Sou pago para tocar certas coisas chinfrins e daqui a cinco anos o que eu toco é considerado o novo folclore popular brasileiro! Fala sério!", diverte-se o programador.

Rui (nome fictício), o programador de FM, nem lê muito os artigos que os cientistas sociais publicam. Mas, ao saber da abordagem desses intelectuais, só falta sua risada ultrapassar a barreira de som do estúdio da rádio.

"Cara, tem coisas que eu toco que são risíveis de doer. Mas o 'artista' fica cinco anos lançando discos e fazendo sucesso, que depois ele aparece de terno e gravata, até seu som fica mais arrumadinho, ainda que muito ruim, mas mesmo assim ninguém desconfia", diz.

Pois é, Rui, aqueles cantores "sertanejos", que apareciam usando mullets, hoje há quem diga que eles são os gênios da MPB.

O programador de FM quase cai da cadeira.

"Gênios da MPB? Onde, meu amigo! 75% do que essa dupla grava é cover! Ter vinte, trinta anos de carreira não quer dizer nada! Só nos últimos anos, eles lançaram três discos ao vivo um atrás do outro, um comemorando tantos anos de carreira, outro comemorando tantos anos da primeira apresentação, outro por motivos familiares", diz Rui.

Falamos para Rui que os intelectuais andam tão paranóicos na defesa desses "ídolos populares" que a manobra mais recente é dizer que eles estão fora da mídia porque apareceram na Rede Record um dia depois de aparecerem na Rede Globo.

O cara não para um segundo na sua risada. Controlando-se, ele logo diz:

"Ah, teve um cara que cometeu a lorota de dizer que o Calcinha Preta apareceu no Domingão do Faustão porque tinha um plano secreto de destruir a grande mídia. Em que mundo esse cara vive, meu amigo? No Planeta Mico? Você vai perguntar para o cantor do Calcinha Preta o que ele faz na vida e ele não será capaz de dizer uma palavra. Se um cara não tem ideia de sua missão na vida, muito menos ele tem ideia de um plano para acabar com a grande mídia".

Perguntamos se Rui lê esses textos intelectuais. Ele diz que não, que se informa a partir de terceiros. Ele tem uma amiga universitária, ela é que lê tais textos.

Mas Rui, experiente, com seus mais de 45 anos de vida, sabe que muita barbaridade lançada há 15, 25 anos, hoje é tida como "genial" só porque os cantores passaram a se vestir bem, seus discos são "arrumadinhos" dos arranjos musicais à arte da capa. Ele está a serviço do jabaculê, mas sabe dessas armadilhas.

"Claro que a gente tem que saber. Quem faz a armadilha sabe como ela funciona", diz. E acrescenta:

"Achar que certos cantores são 'verdadeira MPB' porque estão mais arrumadinhos, vão ao Faustão lançar seus novos sucessos pagodeiros e sertanejos com orquestra e traje de gala, é um grande equívoco. Se for assim, vou ao microfone, passo dez anos gravando CDs de arroto e de peido e, depois, faço uma turnê com terno e gravata e viro logo MPB! Absurdo".

A gente avisa para ele que o principal argumento que os intelectuais fazem quando dizem que os supostos "ídolos populares" são "a verdadeira MPB" é o fato deles lotarem plateias com rapidez e facilidade.

Rui não cansa de dar mais gargalhadas.

"Ora... Se for assim, fica fácil demais. Faço uma porcaria, loto plateias em meia hora, vendo discos antes de lançá-los, faço tudo isso em cinco anos seguidos, e aí viro MPB. Faço um escândalo, viro celebridade, aí sou 'a verdadeira MPB' porque provoco as pessoas e arrasto multidões para onde eu vou! Não faz o menor sentido".

A gente então comenta que existe uma visão esquizofrênica dessa intelectualidade sobre o que é "a verdadeira MPB" que, ao mesmo tempo, reprova o excesso de luxo e pompa atribuído a intérpretes como Chico Buarque e Gal Costa, Tom Jobim e Elis Regina, aplaude quando os ídolos do "sertanejo", "pagode romântico" e axé-music aparecem em espetáculos luxuosos, gravam discos "sofisticados", e por aí vai.

"Ih, meu caro. Deixe eu ver se entendi. O sentido da cultura popular se dá se você começa fazendo discos cafonas e depois é só vestir paletó, botar orquestra, se apresentar em festa de gala e, pronto, virou MPB?", pergunta ele.

"Olha, eu sou programador de rádio, faço meu serviço, mas eu nasci num tempo em que a música brasileira de verdade ainda rolava no rádio. O cara fazia sucesso porque era bom, o cara não era bom porque fazia sucesso. Dá uma pena o cara fazer um monte de porcaria e ainda exigir respeito. Um respeito que ele não se dá".

Acrescentamos à conversa a informação de que muitos fãs chegam a ser reacionários, não aguentando qualquer crítica feita contra seus ídolos, destacando que a gente não faz isso nos blogs deles, nos espaços que eles têm de adoração a seus ídolos, mas eles não querem que a gente faça as críticas sequer em nossos blogs.

"Essa atitude intolerante só causa problemas. E expõe o caráter violento desses fãs. Isso acaba com a imagem do cantor, da dupla, do conjunto. Cria um baixo astral tremendo. Tem gente que acha que vai resolver as coisas na fúria, se achando o valentão, mas não é isso que vai fazer com que o ídolo tenha uma imagem maior ao público. Pior, mostra o quanto ele tem fãs intolerantes, agressivos, irritadiços. Isso derruba a carreira de qualquer um".

De repente, o programador de FM dá um suspiro. Um pouco de saudade e de tristeza.

Ao terminar o expediente, o programador de FM vai para casa. E, lá, ele descansa pondo no seu toca-CD um disco do hoje esquecido Robertinho Silva.

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