sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

POR QUE SE CRITICA O BREGA-POPULARESCO?



Por Alexandre Figueiredo

Uma sensação de horror, de medo, de temor, toma conta da intelectualidade influente no Brasil.

Com o crescimento de textos que questionam a "cultura" brega-popularesca - a pretensa "cultura popular" que predomina nas rádios FM e na TV aberta - , surge um silêncio surdo da opinião pública, misto de vergonha e medo, de uma plateia antes resignada com os "sucessos do povão" e com uma domesticação social das classes populares que criava, aparentemente, um bem estar para a intelectualidade e para o status quo.

Mas o medo de um questionamento mais consistente dos fenômenos brega-popularescos desperta preconceitos, temores, credulidades, de vários agentes sociais, num processo que se compara com o temor que as elites tinham, no século XIX, com o fim da escravidão. É claro que essa comparação não pode ser literal, mas um ponto comum existente é que, em ambos os casos, há o temor de uma grande revolta social, seja com o fim do trabalho escravagista nos tempos do Império, seja com o fim da escravidão cultural da grande mídia, nos dias de hoje.

Primeiro, é a surpresa de uma abordagem ao mesmo tempo objetiva e contundente na crítica aos fenômenos pseudo-populares que, baseados na domesticação sócio-cultural do povo pobre, difere de abordagens anteriores, que eram bem mais subjetivistas na sua rejeição a tais fenômenos.

Afinal, vários fatores resultaram nas críticas subjetivistas ao brega-popularesco, até uns dez anos atrás:

1. Parte dos críticos se frustrou ao ver a antiga hegemonia do rock brasileiro dos anos 80 ser derrubada pelos ídolos popularescos na década seguinte;

2. Outra parte dos críticos era de especialistas da MPB autêntica que sentiram a MPB ser ameaçada de desaparecimento com a hegemonia dos ídolos popularescos.

Além do mais, as críticas ou eram expressas com raiva quase niilista, ou com lamentos saudosistas, ou então com humor cáustico e irônico. A falta de uma visão objetiva fez com que um outro movimento de intelectuais surgisse, com mais força, defendendo os fenômenos brega-popularescos.

Partindo do festival de teses conspiratórias lançadas por Paulo César Araújo no livro Eu Não Sou Cachorro, Não (Record, 2001), que tentou promover os ídolos do brega dos anos 60/70 como se fossem "cantores de protesto" numa obra pretensamente monográfica, mas totalmente panfletária, a campanha atingiu todas as tendências derivadas da música brega, até mesmo os "modernos" axé-music e "funk carioca", com uma produção de documentários, reportagens, seminários, livros, biografias, cinebiografias, entrevistas, especiais de TV, programas de rádio, com a frequência comparável ao da mobilização do IPES, o "instituto" de pesquisas e estudos sociais que difundia o golpismo nos anos 60.

A frequência e a intensidade dessa campanha criou uma "panelinha" na intelectualidade, envolvendo cientistas sociais, críticos musicais e blogueiros simpatizantes, que se beneficia através do corporativismo, da visibilidade e da burocracia acadêmica, além da boa fé das demais pessoas.

Por isso vemos antropólogo elogiando antropólogo, historiador elogiando historiador, professor universitário publicando texto de defensor do "pagodão", cientista social elogiando documentário sobre "funk carioca", cronista político acolhendo crítico musical etc.

Mas o medo está assombrando os bastidores, já que se desgastaram as alegações de defesa das tendências popularescas, que não conseguem ir além do sucesso rotineiro nas classes C, D e E (e cada vez menos na classe C). E numa fase em que os próprios ídolos popularescos iniciam seu desgaste na carreira, dependendo agora de CDs ou DVDs ao vivo que revisitem eternamente seus antigos sucessos e sejam repletos de covers de diversos tipos.

Ou seja, o desgaste do brega-popularesco se dá quando os cantores hoje tidos oficialmente como "os grandes criadores de nossa música" se transformam em meros crooners, se distanciando do já medíocre trabalho autoral e se alimentando de apresentações superproduzidas, além de factóides nos sítios e revistas ligados às celebridades.

E, quando essa realidade é desmascarada, o silencioso horror da intelectualidade vem à tona. Mesmo com vantagem no processo de visibilidade, os intelectuais não podem mais falar em "preconceito", já que quem rejeita o brega-popularesco conhece bem aquilo que rejeita, portanto não tendo uma noção "pré-concebida" da coisa. Ficam mais acanhados nas suas defesas, ainda que insistam. Mas o medo se vê em suas sombras.

INTELECTUALIDADE TEME PERDER PRIVILÉGIOS DE CONHECIMENTOS

Medo que sempre ronda naqueles que veem a instabilidade bater à porta dos que temem perder seus privilégios. A intelectualidade teme perder seus privilégios que os fazem sacerdotes modernos de nossa cultura.

Por isso todo um lobby é criado, toda sorte de reações, das mais diversas, são feitas, mas sempre evitando que os segredos da MPB autêntica e mesmo da antiga cultura popular que antes vibrava em favelas, roças e sertões sejam tomados ou retomados pelas classes pobres.

Uns respeitam a MPB autêntica, outros a chamam de velha e mofada, mas todos sempre defendem o brega-popularesco, seja para o quarto de empregada - à qual são vetados os segredos, ao menos os mais delicados, da história da música brasileira e da cultura popular em geral - ou a um cantinho no salão da madame.

POR QUE O BREGA-POPULARESCO É CRITICÁVEL?

Essa intelectualidade, ao mesmo tempo escrava dos seus preconceitos elitistas e inclinada a um sutil paternalismo com o povo pobre, alarma, apavorada tal qual um candidato do PSDB em desvantagem nas pesquisas, sobre o tom supostamente preconceituoso das críticas que se dá aos pretensos "sucessos do povão" ou mesmo à imprensa populista, às novelas, às musas "popozudas", à grosseria atribuída ao povo das periferias.

À primeira vista, parecem generosos nas suas alegações, mas se retirarmos a ideia síntese de suas desculpas, das mais diversas, umas ingênuas e outras bem reacionárias, outras rebeldes contra a mesmice da MPB, outras apenas aludindo a um "moderno pop brasileiro das periferias", eufemismo para a cafonice dominante.

A crítica, no entanto, se dá porque a mediocridade cultural do brega-popularesco é evidente. Ninguém recebe uma porção de críticas duras por ser injustiçado. Se alguém é criticado duramente por muita gente, é porque algo de errado ele fez. É porque os equívocos se tornam evidentes. Ninguém é esculhambado porque é bom.

Por isso não fazem sentido as alegações de "preconceito". Quem critica a mediocridade cultural dominante é porque tomou conhecimento dela, através das ruas, dos supermercados, na vizinhança, nas lojas de varejo e atacado.

Além do mais, a confusão entre cultura e entretenimento, entre arte e mercado, faz com que se tolere a mediocridade dominante. Mas isso cria contradições, falhas, e o discurso que na aparência é "generoso", torna-se na verdade, cruel.

No fundo, manifesta o profundo desprezo pelo povo e pelos problemas sócio-culturais em que vive. E faz a intelectualidade ficar mais do lado dos investidores e empresários que sustentam todos os fenômenos brega-popularescos - sejam musicais, comportamentais e midiáticos - do que do povo que mereceria a sua verdadeira cultura de volta.

Os avanços de caráter sócio-econômico das classes populares também deixam a intelectualidade urbana e influente assustada. No fundo, esses intelectuais se omitem. Eles estão no conforto de suas casas, e acham que o povo, aparecendo na sua caricatura popularesca na TV aberta, está sendo "valorizado" na sua essência. Ou então dentro dos limites suficientes de uma domesticação que transforma os pobres em pessoas inofensivas.

Ou seja, a intelectualidade se preocupa mais em ver o povo mansinho e passivo, incapaz de fazer badernas nas ruas, do que ver uma cultura que realmente valorize os valores sócio-culturais de nosso povo, o que não pode ser confundido com esse brega-popularesco que em nada se preocupa em desenvolver valores culturais, mas tão somente em produzir e realimentar clichês, forjando uma "cultura popular" para turista inglês ver. E para turista inglês acabar falando mal, porque não é trouxa.

As desculpas em torno do brega-popularesco são derrubadas uma a uma, deixando a intelectualidade perplexa. Ninguém fala, ninguém expõe sua vergonha. Mas suas teses são contestadas e os intelectuais apenas têm que se consolar com sua visibilidade ainda superior, mantida enquanto sua reputação não é desmascarada em praça pública.

Por exemplo, que "diversidade cultural" representa o brega-popularesco se vemos que não há diferença essencial entre o cantor de sambrega, que dilui o samba em caricata mistura de bolero e soul music, e o cantor de breganejo, que dilui a música caipira em caricata mistura de boleros e country music?

E que diferença há num grupo de forró-brega que tanto faz surgir no Pará como em Sergipe ou em Tocantins? E qual a diferença fundamental da tchê-music, que cruza breganejo com axé-music, com o arrocha, que adapta o brega de Odair José e Amado Batista à música eletrônica, e o tecnobrega, que faz a mesma coisa do arrocha só que num outro contexto e associado ao forró-brega?

Nenhuma. Tudo é mediocridade cultural. Não para o intelectual que vive no condomínio de luxo em São Paulo e que se infiltra na mídia esquerdista por conta de uma amizade aqui e acolá. Participa dessa mídia, mas sua visão cultural mais parece a de um assessor de comunicação do PSDB. Coisa que retóricas e disculpas "sociolóides" não conseguem disfarçar nem desmentir.

Por isso essa intelectualidade está com medo. Seus preconceitos podem vir à tona, desmascarando-os de forma vergonhosa, depois que eles, de forma alardeada demais para ser verdade, diziam reprovar os "preconceitos" dos outros.

Uma intelectualidade que vê supostas maldades na música "Boi da Cara Preta", de Dorival Caymmi ou na cantiga "Atirei o Pau no Gato", de domínio público, mas não vê a verdadeira maldade num sucesso do É O Tchan cuja segunda estrofe narra alegremente um estupro. Uma intelectualidade que não aguenta ouvir os mesmos clássicos da MPB autêntica, mas aplaude quando as mesmas músicas são regravadas pelos cantores de axé-music, "música sertaneja" e "pagode romântico" que fazem ponto no Domingão do Faustão.

É essa intelectualidade que, por enquanto, está tranquila pela proteção dada pelo corporativismo, pela burocracia, pela visibilidade. Mas com os avanços sociais e o declínio do Brasil brega-popularesco, o povo deixará de se contentar com suas máscaras pop dadas pela grande mídia e mostrar de novo as verdadeiras caras que desafiarão os preconceitos de uma intelectualidade "sem preconceitos".

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