segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

PEDRO ALEXANDRE SANCHES NÃO SERVE PARA A IMPRENSA DE ESQUERDA


PEDRO ALEXANDRE SANCHES - A visão de "cultura popular" que a Folha de São Paulo exportou para a imprensa de esquerda e poucos notaram.

Por Alexandre Figueiredo

Talvez o maior erro da mídia esquerdista é a falta de zelo ou de posição que até pouco tempo atrás exercia a respeito da cultura popular. Um equívoco que chegava a se tornar grosseiro, porque uma mídia que adotava uma posição definida em relação ao Oriente Médio deixava de adotar uma postura crítica em relação aos mecanismos da indústria cultural brasileira.

Aos poucos, essa postura vem sendo corrigida. Mas isso bem depois de intelectuais aproveitadores criarem toda uma discurseria hipócrita em relação a modismos como o "funk carioca" e o tecnobrega, ambos de qualidade artística duvidosa e valor cultural discutível.

Vendidos como fenômenos "sem qualquer espaço na grande mídia", eles no entanto sempre tiveram acesso na grande mídia. O "funk carioca" passou anos como queridinho das Organizações Globo. E o tecnobrega apareceu até na ranzinza revista Veja, na mesma edição das frases "contraditórias" de Dilma Rousseff, com uma entrevista gentil, cordial e respeitosa a Gaby Amarantos, a Beyoncé do Pará.

Por outro lado, a campanha esquerdista mostrou que a MPB autêntica estava do lado dos progressistas, enquanto quase toda a linhagem do brega-popularesco - as exceções são Tiririca e Netinho de Paula, mas este havia desistido da música faz muito tempo - estava aparentemente neutra, mas respaldada pelas oligarquias empresariais, latifundiárias e midiáticas de direita.

Ver Chico Buarque, hostilizado pelo badalado Paulo César Araújo, o historiador dos bregas, assumir uma postura entusiasticamente progressista, junto a Alceu Valença, Aldir Blanc e outros, enquanto, por outro lado, um Caetano Veloso condescendente com os bregas assume postura tucana, é algo que devemos não só pensar, mas discutir, e não só nas mesas de bar, mas abertamente nos blogs.

Caetano Veloso, sem dúvida alguma, é um dos grandes talentos da MPB autêntica, e seu nível de informação musical é muito grande. Mas ele tem o equívoco de assumir uma postura favorável aos ídolos popularescos, a uma categoria comercial da música brasileira que existe, e que não é tão discriminada pela grande mídia quanto parece.

Na boa fé, talvez, Caetano acredita que o caráter supostamente provocador das tendências brega-popularescas dê validade artístico-cultural às mesmas.

Isso criou um padrão de abordagem da "cultura" brega-popularesca - categoria que envolve desde os primeiros estilos cafonas até os sucessos ditos "populares" que se tornaram hegemônicos desde 1990 (como a axé-music, o "pagode romântico", a "música sertaneja" e o "funk carioca") - que a intelectualidade, envolvendo artistas, críticos musicais e cientistas sociais, passou a adotar com aparente "unanimidade".

Só que a intelectualidade que defende o brega-popularesco continua nadando sem saber que Caetano levou suas roupas e as trancou nos armários do demotucanato. Tentam defender a mesma visão sob o verniz da esquerda democrática, imaginando que o débil e caricato brega-popularesco representa a "nova rebelião das periferias", sem saber o quanto as oligarquias estão orgulhosas e felizes por esta suposta "cultura popular"...

Pois essa visão "oficial" de compreensão da "cultura popular", lançada por Caetano, se baseia na hipótese, bastante disctutível por sinal, de que os chamados "sucessos do povão" correspondem a uma (suposta) "verdadeira cultura popular". Fulano lotava plateias de vaquejadas, micaretas, "bailes funk" e programas de auditório e era ouvido nas ruas, sobretudo entre os camelôs, logo ele era "a verdadeira MPB".

CONCORDÂNCIA COM O PENSAMENTO DA GRANDE MÍDIA

É uma visão que esconde um profundo mas discreto ódio com o patrimônio cultural brasileiro, acumulado há muito mais de 500 anos (se incluirmos o legado indígena, muitíssimo anterior ao "descobrimento"). E que se contenta em definir como "o futuro da cultura popular" uma série de arremedos de "culturas regionais", caricatos e estereotipados, que defino como brega-popularesco, cuja forma musical se define como Música de Cabresto Brasileira, tal o apoio, nem sempre admitido por todos, das oligarquias a essa "música popular" que toma conta das maiores rádios FM e das emissoras de TV aberta do país.

Essa intelectualidade, no entanto, perdeu o caminho, porque Caetano Veloso abraçou a direita, como Fernando Gabeira e um Ferreira Gullar já desfeito dos sonhos cepecistas. Conquistam a esquerda às custas de um choppinho ali, de um cafuné acolá, mas em que pesem suas eventuais críticas a posturas políticas da mídia grande, sua visão de "cultura popular" encontra consonância exata, literal e explícita, à abordagem que vemos nos principais programas da Rede Globo e com a linha editorial da Folha de São Paulo.

Ou seja, como defender a visão de "cultura popular" que é a mesma que vemos no Domingão do Faustão, no Fantástico, na Ilustrada, na Caras? Será essa a missão de uma intelectualidade dita "de esquerda", mas posta à margem da mídia esquerdista, porque simplesmente não esconde sua visão apenas docilmente paternalista e preconceituosa que tão somente legitima os mesmos "sucessos do povão"?

Será que esses intelectuais estão com medo das classes populares ou querem agradar a elas? Ou será que têm medo de contrariar aquilo que as empregadas domésticas ou diaristas de seus apartamentos, os porteiros de seus prédios e os feirantes das proximidades, aparentemente curtem (porque são consumidores da grande mídia popularesca de FM, TV aberta, imprensa populista etc)?

O MENINO DE OURO DE OTÁVIO FRIAS FILHO

Um dos aspectos mais estranhos vistos na imprensa esquerdista é a presença do crítico musical Pedro Alexandre Sanches.

Aparentemente, ele está em todas na mídia esquerdista. Escreve para Carta Capital, Revista Fórum e tem coluna na revista Caros Amigos, chamada "Paçoca". Lançou dois livros pela editora Boitempo, um deles sobre Roberto Carlos, que nunca escondeu da mídia suas posições de direita. A propósito, o Paulo César Araújo que não gosta do Chico Buarque também arrumou polêmica com uma biografia não-autorizada do "Rei".

Claro, muitos blogueiros ficam felizes com a festejada figura de Sanches, também conhecido como Pedro Sanches ou Pedro Alex Sanches. Sem saber do seu verdadeiro background midiático, um passado nem tão remoto assim.

Pois muito antes de Pedro Sanches cair de pára-quedas na imprensa esquerdista, ele foi um dos mais badalados jornalistas da Folha de São Paulo. Não bastasse isso, também passou pelas redações de Bravo, periódico "intelectual" do Grupo Abril, e pela revista Época, das Organizações Globo. Sua formação, portanto, é claramente calcada na mídia golpista.

Tudo bem que há jornalistas com experiência nos veículos da mídia golpista e que hoje demonstram ser sinceramente de esquerda. Era um tempo em que a mídia conservadora oferecia um pouco mais de autonomia e liberdade profissional, dentro de seus limites ideológicos.

A Folha de São Paulo, de fato, teve dissidentes, dentre os quais Marilene Felinto e José Arbex Jr. - que, no seu livro Showrnalismo: A notícia como espetáculo (Casa Amarela, 2001), dá um excelente relato de sua experiência na Folha, desmascarando o "moderno" Projeto Folha - , que se mostram inteiramente integrados às causas sociais.

Não é o caso de Pedro Alexandre Sanches.

Ele nunca se declarou identificado com a mídia esquerdista, viajou na garoupa dos dissidentes da Folha. Numa metáfora aproximada, foi como se ele fosse junto com os dissidentes e almoçasse de graça às custas deles, sem que fizesse parte, de fato, do grupo.

Vendo os textos que ele escreve na mídia esquerdista, eles nada são diferentes daquilo que ele escrevia na Folha de São Paulo. E demonstram que Pedro Sanches continua sendo normalmente o "menino de ouro" do Otávio Frias Filho, porque a formação intelectual praticamente é a mesma.

PEDRO SANCHES DEFENSOR DO BREGA-POPULARESCO: NOTEM AS INICIAIS

Resumindo a conduta de Sanches, seus textos ora falam da MPB autêntica como se o autor fosse o possuidor de uma sabedoria superior, enquanto, em outros casos, ele faz defesa aberta das mesmas tendências brega-popularescas que aparecem na grande mídia (Domingão do Faustão, Fantástico, Caras, ou mesmo na própria Ilustrada), mesmo em discretas entrelinhas.

Não precisamos aqui detalhar a associação direta ou indireta que o brega-popularesco - mesmo com a postura aparentemente despolitizada de seus ídolos - possui com a mídia direitista. De Waldick Soriano elogiando a ditadura militar e esculhambando o feminismo, numa entrevista de TV cuja reprodução na Internet foi retirada do ar "de repente", até Alexandre Pires cantando para George W. Bush e apadrinhado por um casal de cubanos direitistas (a cantora Gloria Estefan e o produtor Emílio Estefan Jr.), TODO o brega-popularesco só veio a crescer e aparecer com o apoio da mídia direitista e das oligarquias associadas.

Como é que Pedro Alexandre Sanches vai escrever, na imprensa esquerdista, em defesa de nomes claramente associados ao conservadorismo sócio-cultural da Rede Globo, como Calcinha Preta, Fábio Jr., Parangolé, Banda Calypso, nomes que são tratados com carinho até pelo infame Marcelo Madureira, o mais ranzinza e direitista dos cassetas?

Da mesma forma, que discernimento tem o jornalista quando menciona, no texto Um pé no underground, outro no mainstream, um grande inventor cultural como o finado Chico Science no mesmo balaio de gatos de Alexandre Pires e Ivete Sangalo, ícones apenas arrumadinhos e enfeitados da mediocridade musical dominante na grande mídia?

Da mesma forma, que crédito pode ter Pedro Sanches quando sente horror pela gravadora Biscoito Fino, só porque tem um banco como acionista, sem saber que seu tão querido tecnobrega - que tendenciosamente virou capa da Revista Fórum cinco meses antes da Veja se ajoelhar aos pés da Beyoncé do Pará - é claramente patrocinado pelos barões da mídia de Belém do Pará e pelos latifundiários locais, mostrando que esse papo de que o tecnobrega está "fora da grande mídia" não passa de conversa para boi dormir?

E, do mesmo modo, que crédito tem Pedro Sanches quando afirma, num texto sobre o documentário Uma Noite em 67, que os antigos ídolos da MPB dos anos 60 agora só aparecem em espaços como a revista Caras e o programa TV Fama, da Rede TV!? Como se a gente visse nomes como Marília Medalha, Turíbio Santos, Antônio Adolfo e Quarteto em Cy nas páginas de Caras e nas fofocas do TV Fama. Eu não vi. Nenhuma viva alma viu. E nem sequer o fantasma de Sílvia Telles veio rondar os estúdios da Rede TV! ou as redações de Caras.

Os fatos dizem o contrário, pois quem aparece em Caras, TV Fama e similares são justamente os "queridíssimos" Alexandre Pires, Ivete Sangalo, Banda Calypso, Daniel, Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Latino, e muitos, muitos outros.

Pedro Alexandre Sanches joga na imprensa esquerdista seus preconceitos folhistas. Ele tem os grandes discos dos grandes artistas da MPB na sua coleção pessoal, no conforto de seu apartamento. De forma etnocêntrica e paternalista, atribuiu ao tecnobrega uma fictícia antropofagia cultural que só existe na imaginação fértil do jornalista.

Mas o medíocre tecnobrega, que não poderia ser mesmo anti-mídia porque sua cantora mais famosa imita a mega-mídia Beyoncé, nunca iria saber, de fato, quem é "esse tal" de Oswald de Andrade e que "antropofagia" se fala, se é um novo tipo de culinária canibalista ou coisa parecida.

Também sua posição acrítica em relação à claramente direitista Ivete Sangalo - que Sanches se limitou a definir como "populista" - mostra mais uma falha do jornalista. Ivete é contratada pela Rede Globo e, de forma bem explícita, militou no movimento Cansei, espécie de versão pocket repaginada da antiga "Marcha da Família Unida Com Deus pela Liberdade" que animou a direita em 1964.

Pedro Alexandre Sanches, além disso, apenas se limita a citar expressões como "Che Guevara" e "reforma agrária" apenas para somá-las ao seu nome nas buscas do Google. Para seus fãs, que costumam ler textos de blogs às pressas e só são "esquerdistas" porque acham isso "bonito", isso é maravilhoso, só que na prática isso nada quer dizer sobre o suposto esquerdismo do antigo empregado de Tavinho Frias.

Enquanto não aparece um crítico musical com visibilidade, que possa ter uma visão objetiva e crítica da cultura popular - sem se deslumbrar com eventos e fenômenos popularescos apoiados claramente pela mídia golpista - , Pedro Sanches circula pelas redações esquerdistas como uma celebridade que mostra seus apartamentos luxuosos nas páginas de Caras.

Mas, na boa, para quem procura uma abordagem honesta e transparente a respeito da verdadeira cultura popular, numa ótica esquerdista e voltada para os movimentos sociais, os textos de Pedro Alexandre Sanches não fazem falta. Ele é a "sucursal da Folha" nos periódicos da imprensa esquerdista. E existem coisas mais nutritivas do que sua "paçoca".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...