sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

NÃO SEJAMOS INGÊNUOS COM AS NOVAS TECNOLOGIAS




Por Alexandre Figueiredo

Setores da blogosfera progressista estão tomados de muita ingenuidade. Sobretudo no que diz ao âmbito cultural.

Recentemente, vários intelectuais estão eufóricos com a aparente revolução tecnológica que envolve arquivos mp3, redes sociais da Internet e blogs, numa generalização ingênua como se a grande mídia, a grande indústria cultural e todos os seus barões e coronéis estivessem em processo terminal de decadência.

De fato eles vivem uma crise, mas é muito tolo afirmar que eles são como cachorros mortos. No fundo, eles são feras feridas. Que ainda rugem, e podem rugir de outras maneiras.

Mas a intelectualidade já comemora como se a Revolução Socialista fosse anunciada no Twitter, no YouTube, no Facebook, no Orkut e nos serviços de download de arquivos de vídeo e áudio, sobretudo os pós-Napster.

Não é bem assim.

A euforia é semelhante àquela que se deu a respeito da globalização econômica. E, ironicamente, com a decadência no lado comunista, como a queda do Muro de Berlim, da União Soviética e dos regimes do Leste Europeu, a chamada "cortina de ferro".

Mas, naquela época, entre 1989 e 1992, falava-se que as fronteiras do mundo seriam derrubadas, que um mundo de prosperidade e justiça social se efetivaria, que as velhas ordens mundiais seriam derrubadas definitivamente, que o mundo seria mais democrático, mais sábio, mais humano.

Francis Fukuyama, eufórico, apressou-se em afirmar que a História da humanidade atingiu seu ponto final. O veterano intelectual Noam Chomsky, no entanto, recomendou cautela, e afirmou que as velhas ordens mundiais continuam, só mudando alguns aspectos da geopolítica internacional.

Agora é a vez da tecnologia. O mesmo carnaval de dizer que o mundo será mais humano, sábio etc. Será muito barulho por nada. Será mais uma festa animada que dará numa dolorosa ressaca.

O jogo tecnológico do poder, que definimos como tecnocracia, continua intato, as forças e os mecanismos é que passam por transformações. A crise causa muita euforia, mas é superestimada, enquanto a fraqueza dos adversários - os detentores do poder tecnológico, político, econômico etc - é levada ao exagero, enquanto subestima-se sua capacidade de reagir a essas crises.

YOUTUBE, FACEBOOK, ORKUT, TWITTER: VEÍCULOS NEUTROS

O clima de euforia se sustenta com a utopia de que, por qualquer pessoa poder usar os mecanismos tecnológicos da rede mundial de computadores, a revolução social está por si efetivada.

Para a intelectualidade esquerdista com menos senso crítico, isso significa que basta qualquer um botar um vídeo no YouTube ou uma música no eMule (um dos mecanismos recentes similares ao antigo Napster), ou então uma rotina de mensagens no Twitter, ou uma comunidade no Facebook ou Orkut, para que esse joão-ninguém faça sua nova "revolução comunista".

Só que não é bem assim. Até porque existe uma infinidade de pessoas mandando vídeos e mensagens no Orkut e não é por isso que a revolução social se efetivou no país. Apenas houve transformações no ramo do entretenimento, é verdade, com mudanças significativas. Mas daí para dizer que qualquer um é revolucionário porque apareceu no YouTube ou no Twitter, e que a indústria cultural morreu por causa disso, é uma grande tolice.

Isso porque as relações da grande mídia, cujo poderio seus beneficiários não querem perder, apenas se configurarão. As grandes gravadoras perdem demanda, mas selos pequenos, longe de adotarem uma filosofia realmente independente - afinal, tais gravadoras são apenas pequenas, mas sua mentalidade mercantilista é igual às multinacionais - , representam a mesma filosofia de poder e domínio.

Também o YouTube não substituiu as rádios alternativas, nem o iPod, nem o Shareaza, eMule e similares. Esses meios, tais como o Twitter, o Facebook, o Orkut e agora o portal de compras Groupon, são neutros, podendo servir de expressão tanto para pessoas de mentalidade mais vanguardista como para gente absolutamente retrógrada.

Esses meios são apenas neutros. Não são trincheiras revolucionárias, em si. É como se classificasse, nos anos 50, a televisão como necessariamente socialista. Os grupos de poder se adaptarão às novas tecnologias, como aliás já estão se adaptando.

Os velhos jornalistas da grande mídia conservadora têm blogs, têm Twitter, passam vídeos no YouTube, têm Facebook. A música brega-popularesca tenta se passar por "vanguarda" só porque aparece no YouTube e grava por selos regionais. Balelas. É a mesma velha trilha-sonora do Brasil cafona e coronelista, com a mesma mentalidade retrógrada da domesticação das classes pobres. O tecnobrega e o "funk carioca" sempre foram grande mídia, sempre foram mídia golpista, sua formação ideológica remete justamente a isso.

Com o tempo, essa euforia toda vai passar. Ilusões serão derrubadas. Os deslumbrados de hoje, envergonhados, mudarão de assunto, mas não poderão esconder sua vergonha diante de tanto barulho por nada.

A grande mídia não quer largar o osso. Novas relações aparecerão. Uma indústria fonográfica, uma indústria midiática, um mercado do entretenimento, de caráter bem conservador, mostrarão suas caras, depois que muitos incautos acreditarem que a revolução se efetivou. Serão novas relações de poder, dentro de uma indústria cultural que se julgava morta, mas que apenas mudou.

Portanto, em que pese as possibilidades grandes oferecidas pelas novas tecnologias, quanto à revolução "contracultural", "socialista" ou "vanguardista" a elas atribuídas, é bom que se avise a quem acredita dessa forma: "Menos, menos...".

Um comentário:

  1. Sobre a indústria cultural, Lobão disse algo semelhante na recente entrevista concedida ao programa Transa Louca, da Transamérica FM. Inclusive detonando a própria rádio. A entrevista pode ser conferida em http://www.4shared.com/f/M3AZ1PVw

    E olha que Lobão disse algo interessante, não neste programa, mas em outra entrevista recente: que se convencionou dizer que só os artistas de esquerda são legais, o que está longe de ser verdade. Há exemplos disso: desde Alceu Amoroso Lima a Ferreira Gullar e Paula Toller.

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...