sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"MÍDIA GORDA" E "MÍDIA FOFA"


A FOLHA EM 1991 - MODELO DE "MÍDIA BOAZINHA".

Por Alexandre Figueiredo

Diante do debate em torno da grande mídia nos últimos anos, ouviu-se falar do termo "mídia gorda" para definir a mídia dominante e reacionária propriamente dita.

O termo foi lançado pela revista Caros Amigos, através do colunista Milton Severiano, num claro trocadilho com a gula e com a obesidade, metáforas para a opulência político e financeira dos veículos da mídia dominante.

Certamente o termo "mídia gorda" se refere, hoje, a veículos abertamente conservadores como os das Organizações Globo, Grupo Folha e Grupo Abril, com posturas abertamente elitistas e contrárias aos movimentos sociais.

No entanto, existe uma outra grande mídia, igualmente conservadora mas com uma conduta mais moderada. Ás vezes emprega jornalistas independentes e, através deles, essa parte da grande mídia adquire uma reputação quase progressista, relativamente democrática.

Muitas vezes se superestima essa mídia, e, antes que os blogueiros esquerdistas se destacassem como uma mídia organizada - como os ligados ao Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé - , os setores da opinião pública, como quem procura agulha num palheiro, procurava algum "esquerdismo" na menos reacionária da grande mídia. Isso, não obstante, resultava em profunda decepção, quando esses veículos moderados adotavam, em outros momentos, posições abertamente conservadoras e anti-sociais.

Essa é a "mídia fofa", "mídia gordinha" ou "mídia boazinha", denominações que eu lancei para definir essa facção "moderada" da grande mídia.

FOLHA DE SÃO PAULO JÁ FOI "MÍDIA BOAZINHA"

Geralmente os antigos consumidores de informação corriam atrás da "mídia fofa" como um pato corre atrás de qualquer ser ou coisa que viu assim que nasceu. Isso se deu sobretudo quando veículos como o Grupo Bandeirantes de Comunicação, a revista Isto É e a Folha de São Paulo, contrariando a resistência reacionária das Organizações Globo e do Grupo Estado (hoje conhecido como Estadão), cobriram, entre 1983 e 1984, as manifestações pela redemocratização do país.

Era o tempo do maniqueísmo de uma mídia abertamente conservadora e de outra, geralmente composta pelos concorrentes de dado formato midiático, associada, até com certo exagero, aos movimentos sociais.

É evidente que, naquela época, também havia analistas pés-no-chão que viam que a coisa não era bem assim, que a mídia que aqui consideramos "fofa" ou "boazinha" também era conservadora e sua aparente inclinação democrática se dava não pela sua linha editorial, mas pela liberdade dada a alguns - é bom repetir, alguns - jornalistas de esquerda que trabalhavam nesses veículos.

Entre 1984 e 2000, a Folha de São Paulo conseguiu esconder o passado de colaboração com a ditadura militar, e criou um modelo aparentemente "moderno" de jornalismo, que virou um paradigma dominante para a "mídia boazinha" de todo o país.

Sua reputação se dava pela polarização com que a Folha de São Paulo formava, no plano estadual, com o concorrente O Estado de São Paulo, e, no plano nacional, com o jornal O Globo.

A boa-fé de muitos consumidores de informação fez com que, por comparação, se dividisse a "grande mídia" em "direita" e "esquerda". A comparação não era assumida verbalmente, mas pelo tratamento dado à mídia.

Dessa forma, havia a mídia "mais reacionária", cuja concorrente mais direta representava uma mídia "mais cidadã". No fundo, era o mesmo jornalismo conservador, mas enquanto uns veículos adotavam posturas abertamente anti-sociais, outras pareciam mais gentis com o interesse público, ainda que suas pautas se aproximassem do anódino, evitando, por exemplo, dar uma ênfase nas lutas sindicais.

A postura, ainda conservadora, da "mídia boazinha", apenas permitia que se produzissem, por exemplo, reportagens honestas sobre a Revolução Cubana, sem criar uma imagem "demonizada" de seus participantes.

A REVIRAVOLTA

Dessa forma, a polarização dava papéis maniqueístas que definiam a "mídia gorda" como "o mal" e a "mídia fofa" como "o bem". A Rede Globo polarizava com a TV Bandeirantes, O Globo com o Jornal do Brasil (estadual) e Folha de São Paulo (nacional), O Estado de São Paulo com a Folha de São Paulo (estadual), a Veja com a Isto É. Há outros casos, inclusive de caráter regional.

Só que a reviravolta se deu quando a Folha de São Paulo passou a adotar uma postura reacionária contra o governo Lula, quando ao menos poderia adotar uma oposição mais equilibrada. Além disso, o jornal acabou se tornando a expressão do PSDB paulista, representado em vários tempos nas esferas municipal e estadual.

Parecia que Lima Barreto tornou-se profético, pois no seu livro Memórias do Escrivão Isaías Caminha, ele descrevia um veículo da "mídia boazinha", supostamente ameaçador ao poder político, mas que depois se tornava dócil e aliado a ele.

Com a diferença de região (Lima pensou no Rio de Janeiro) e no nome de jornal (o fictício jornal O Globo, duas décadas antes de surgir o famigerado periódico dos Marinho), Lima Barreto havia previsto a trajetória da Folha de São Paulo, sua suposta ameaça ao poder ditatorial (devido a sua posição "pró-diretas") e sua posterior aliança às forças políticas que haviam respaldado o regime militar (hoje ligadas ao PSDB/DEM e aliados).

A fase "tucana" da Isto É, até dois anos atrás, e o episódio da TV Bandeirantes, que, numa acidental abertura do sinal do microfone, na vinheta do Jornal da Band, depois da saudação de uma dupla de garis, mostrou Bóris Casoy grosseiramente sarcástico, mostram o quanto a chamada "mídia boazinha" também pode causar decepção.

A atitude de Bóris Casoy, assim como o da Folha de São Paulo e, no caso baiano, do surto reacionário da Rádio Metrópole e jornal Metrópole, não só decepcionaram aqueles que apostavam na sua postura "democrática" como rememorou o passado ditatorial desses veículos, como o fato de Bóris ter integrado o Comando de Caça aos Comunistas (com direito a foto sua numa antiga reportagem de O Cruzeiro, em 1968), da Folha ter fornecido viatura para os torturadores e do dono da Rádio Metrópole, Mário Kertèsz, ter sido um político apadrinhado por Antônio Carlos Magalhães e por ter adotado uma postura udenista e arenista na juventude.

Hoje, as coisas mudaram. Não precisamos procurar uma mídia esquerdista na mais inofensiva da mídia direitista. Há uma mídia de esquerda organizada, coerente, que só falha ainda na sua editoria cultural - presa à apologia de tendências brega-popularescas claramente patrocinadas pela mídia golpista - , mas que, nos assuntos políticos e econômicos, mostram um caminho que a "mídia boazinha" não tinha coragem de seguir. Por mais que se simpatizasse com as esquerdas do Brasil e do mundo.

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